A Revolução das Papoilas

cronico44

Comemoramos este ano os quarenta anos desde a última vez que alguém se lembrou de enfiar flores nas espingardas de militares revoltosos sem se magoar. Graças a esse ato de bravura conquistámos quatro décadas de liberdade. Mas apercebemo-nos agora – com estranheza, como no acordar de um sono profundo – que esta é uma estranha forma de liberdade, repleta de contradições, onde aquilo que desejamos nunca se concretiza. Podemos atravessar a Europa sem constrangimentos mas não podemos subir as escadarias do Parlamento? Qualquer comentário inconstitucional é aceitável mas manifestações na “casa do povo” são proibitivas? Os acordos internacionais são intocáveis mas o contrato social é constantemente retalhado? Terei adormecido e sonhado com uns cravos?

Terei adormecido e sonhado com uns cravos?

Um influente pensador do século XX, Isaiah Berlin, definiu duas formas de liberdade: a positiva e a negativa. A liberdade positiva surge da Revolução, como a que vivemos, onde os Homens se procuram libertar das amarras dos déspotas opressores. Nasce da iluminada ideia de que, para serem verdadeiramente livres, as pessoas devem ser transformadas, melhoradas, convertidas! E todos aqueles que não creem nessa ideia devem ser coagidos a acreditar, por qualquer meio possível. Porque, quando se julga possuir o único caminho para a felicidade, nenhum sacrifício é demasiado para o atingir. “Devemos forçá-los a ser livres”: é nesta estranha lógica que caem todas as revoluções, defendia Berlin, onde o fim justifica os meios enquanto algo justificar o fim.

A alternativa, a liberdade negativa, traduz-se na soberania que cada indivíduo deve possuir sobre si próprio e na capacidade de poder fazer exatamente aquilo que quer, e nada mais. É uma sociedade deliberadamente sem ideais, além dos interesses de cada um e da possibilidade de os concretizar. Esta é, segundo o filósofo, a única alternativa segura para evitar o terror e foi a que muitos países ocidentais democráticos abraçaram. Mas é uma ideia extraordinariamente limitada de liberdade, desinspirada e sem propósito.

Passados quarenta anos apercebemo-nos de que o prémio que conquistámos com a Revolução não foi bem a liberdade, mas antes o luxo do desinteresse

A escolha entre as duas alternativas não é fácil. Mas cá por Portugal queremos ter sol na eira e chuva no nabal. Adotámos um pouco de cada uma e, daí, criámos uma estranha forma de liberdade: uma sociedade onde o imperador sou Eu, mas onde também sobrevivem os restos degenerados dos nossos ideais. O nosso país está repleto de vacas sagradas sem seguidores, de templos sem apóstolos.

E onde param os fiéis? Ficaram a dormir, possivelmente. “Dormir não é uma arte fácil”, dizem-nos eles. “Honra à autoridade, e obediência! Assim deseja o sono tranquilo. Se não, um pouco de veneno de vez em quando produz doces sonhos.” Mas eis que, inesperadamente para quem dorme, surge o desejo de derrubar os templos e cozinhar as vacas! Assim se levanta, ocasionalmente, a multidão: isso não, nunca, jamais, gatuno! E tudo regressa ao mesmo de sempre, pensam eles. “Assim descobrimos a felicidade”, e piscam o olho… E se a vida não tivesse sentido, e fosse obrigado a viver sem sentido, esta seria a melhor forma de viver.

A esperança recai sobre a manhã. Porque é aí que há menos sonolência.

Passados quarenta anos apercebemo-nos de que o prémio que conquistámos com a Revolução não foi bem a liberdade, mas antes o luxo do desinteresse, e que o único poder que realmente ganhámos foi o de prescindir dele a cada quatro anos. Assim deseja o sono tranquilo. Não deixámos apenas de acreditar que podemos mudar o mundo para melhor, também deixámos de querer um mundo melhor. Teremos trocado os cravos por papoilas?

A esperança recai sobre a manhã. Porque é aí que há menos sonolência, e algo em nós está desperto que permanece adormecido durante o resto do dia: a esperança. Há sempre esperança durante a manhã. Será já hoje?

Who are these men of lust, greed and glory?
Rip off the masks and let see.
But that’s not right – oh no, what’s the story?
There’s you and there’s me