O Primeiro Mandamento

Primeiro Mandamento

Questionado pelos seus discípulos “que estatuto é o mais desejado?”, responde o mestre: “o do estudante de Medicina”.
“Porquê?”, insistem os discípulos, e o mestre reitera: “que outro indivíduo é apontado com tão grande número de virtudes? O estudante de Medicina é sábio como a águia e corajoso como o leão. Nele floresce a razão e a compaixão. Sua é a persistência e a determinação. Não é ele como vos digo?”
“Assim sendo, mestre, porque não estuda a arte da Medicina?”, e a resposta é lacinante: “Em vez de amor, em vez de dinheiro, em vez de fama, dêm-me a verdade”.

Se ignorarmos, por um momento que seja, a opinião que os excelentíssimos Professores das Escolas Médicas têm em relação aos seus alunos, veríamos que esta é a opinião universal que existe sobre nós: dos pais babados aos vizinhos do bairro, da tia afastada aos doentes indefesos, nós somos aquele majestoso produto que resulta da fervura do leite. Faltar-nos-á algum passo para a perfeição? Talvez.

Não ouvimos nós dizer “Este é o meu filho muito amado, ouvi-o.”? Mas outro veio, e
respondeu “Deus está morto. Deus permanece morto. E nós matámo-lo”.

Já que falamos de verdade, se uma verdade absoluta existisse, ela diria: todos temos de servir alguém.
Quer tenhamos um colar de pérolas ou um estoscópio ao pescoço, todos temos de servir alguém.
Quer tenhamos vestido um casaco de peles ou uma bata, todos temos de servir alguém.
Quer nos tratem por Presidente, Diretor ou Doutor, todos temos de servir alguém.

E não é esta a nossa verdade – aquela que terrivelmente nos persegue? Se o nosso assistente prolonga as suas consultas pela tarde adentro, não adiamos um pouco o nosso almoço? Se o professor se atrasa meia hora, não esperamos um pouco mais pela sua chegada? Não estão já as nossas pernas moídas depois de tantas horas no bloco operatório, e ainda assim aguardamos pelo final da cirurgia?

De igual modo nos chegam periodicamente imbecilidades disfarçadas de ordens.
Que se encurte a formação”, assim nos dizem “Que se atirem aos lobos”.
Que se corte no desperdício”, assim nos dizem “Que se corte na saúde, que se corte na educação”.
Que se aumentem os numerus clausus”, assim que dizem “Que se inundem as faculdades”.
Que se contratem à hora”, assim nos dizem “Que se lixem os serviços de saúde”.
E nós, como bons servos, consentimos ou ignoramos. Seja feita a sua vontade.

A terra é para os corajosos e vorazes. É para aqueles que cravam os seus próprios mandamentos em pedra.

Mas porquê? Que mística é esta – a da bata branca, a do “senhor doutor”, a do “não vale a pena contrariar” – que nos encanta? Porquê acreditar na verdade medíocre que usam como argumento? Não ouvimos nós dizer “Este é o meu filho muito amado, ouvi-o.”? Mas outro veio, e respondeu “Deus está morto. Deus permanece morto. E nós matámo-lo”. Não há verdade que não seja absoluta. E não há verdade que o seja.

Se assim é, este é o grande corolário, este é o primeiro dos mandamentos: pensa pela tua própria cabeça. Absoluta não pode ser nenhuma verdade. A terra é para os corajosos e vorazes. É para aqueles que cravam os seus próprios mandamentos em pedra. É para aqueles que não vão procurar atrás das estrelas uma razão para a queda e para o sacrifício, mas que se sacrificam por sua própria vontade.
A perfeição não é para os deferentes, nem para os humildes, nem para os cabisbaixos. Não é para os que se satisfazem com o mediano. A cantiga é uma arma! Mas não cantemos em coro. Cantemos cada um por si, mas a mesma melodia.

Well, I try my best
To be just like I am
But everybody wants you
To be just like them