Mensagem do Diretor da NOVA Medical School, Professor Doutor Jaime Branco

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NOVA Medical School | Fotografia de Carolina dos Santos (2016)

Nós somos o que fazemos todos os dias. Deste modo, a excelência não é um ato, mas um hábito.

Aristóteles

Falar sobre o futuro é sempre um exercício de grande dificuldade e complexidade. Com efeito não só, não existe apenas um futuro, mas vários ‘futuros’ como em vez de se discutirem probabilidades de ocorrência se fazem sobretudo predições resultantes de extrapolação das tendências do momento.

Por este motivo muitas individualidades se esquivam, provavelmente com acerto, a fazer previsões do futuro. Contudo eu vou aceitar o repto com os cuidados necessários a uma reflexão deste género.

Todos sabemos que os últimos 10 anos foram completamente diferentes dos 10 anos anteriores a estes. Assim com os próximos 10 anos acontecerá o mesmo. Existem variadíssimas condicionantes para que ocorram, a breve, médio e longo prazo, mudanças nas necessidades de cuidados de saúde e nas formas de os prestar.

Entre estas avultam os seus custos crescentes, a globalização, o envelhecimento populacional (com o primado das pluripatologias e comorbilidades crónicas), as alterações ambientais, os avanços e inovações científicos e tecnológicos, a eliminação das distâncias físicas, o aprofundamento das diferenças sociais e económicas das populações, etc.

Assim talvez seja melhor prepararmo-nos para o futuro, tentando na medida do possível moldá-lo, do que fazer vaticínios mais ou menos futuristas.

É relativamente óbvio que os sistemas e os profissionais de saúde terão de se formatar cada vez mais às variadas necessidades de segurança, à adaptação dos cuidados às necessidades e características dos doentes, à redução contínua do desperdício, à antecipação dos problemas e à literacia dos doentes e populações.

Esta transformação, que já está em marcha, só terá sucesso se houver transparência dos sistemas, colaboração entre os profissionais e cooperação de todos os intervenientes, incluindo os doentes, para cumprir objetivamente as necessidades da comunidade.

Assim, se temos que fazer uma aposta na preparação dos futuros médicos, julgo que devemos sempre insistir no aprofundamento da sua competência. Claro que é difícil definir competência médica, sobretudo para o futuro, mas arrisco que a competência é um hábito de querer fazer bem e procurar fazer melhor, que se deve desenvolver continuamente. Já Sir William Osler dizia que o que era mais difícil de fazer aprender era que “… a educação necessária ao médico não é um curso secundário, nem mesmo um curso médico, mas um Curso de Vida”.

Não existem formulações únicas, e muito menos mágicas, para incutirmos nos nossos alunos o hábito de serem competentes. Contudo na NMS|FCM acreditamos que o conhecimento das ciências ‘ditas’ básicas como constituinte essencial da medicina clínica, a aprendizagem da destreza nos gestos clínicos nucleares, a compreensão da prevenção da doença e da preservação da saúde e a perspetiva comunitária e social dos cuidados de saúde são ferramentas essenciais que a nossa Escola Médica lhes tem que disponibilizar. Simultaneamente devem ser treinados para desenvolverem estilos de comunicação eficiente e capacidade de gerir informação e têm de ser estimulados para a necessidade de aprendizagem/atualização/formação ao longo de toda a vida. Tudo tendo como objetivo maior o profissionalismo inabalável como devem encarar, sentir e praticar a sua atividade médica, qualquer que ela seja. E aqui recorro novamente a Sir William Osler – “A prática da Medicina é uma arte e não um comércio; uma vocação e não um negócio: um oficio no qual o seu coração deve ser sujeito ao mesmo exercício que o seu cérebro”.

Uma coisa sabemos de certeza, que a evolução implica mudança e por isso todos temos que mudar. Esta alteração de mentalidade e atitude tem de começar pela própria Escola Médica, isto é, pelos seus atores – professores e alunos.

Ao conservadorismo necessário para evitar aventuras por demonstrar, devem as Escolas Médicas adicionar a inquietação suficiente para originar e alimentar a inovação sempre orientada por valores éticos claros, para a primazia do doente, a natureza da nossa missão, o reconhecimento dos limites e das limitações, a prática baseada na demonstração cientifica e a necessidade de aprendizagem permanente.

Se assim formos e procedermos estaremos com certeza preparados para melhor enfrentar os desafios que o futuro nos reserva.

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Joana Moniz Dionísio é uma aluna do 5º ano de Medicina na FCM-NOVA. Apesar de ter nascido em Lisboa, viveu durante toda a sua vida em Alcobaça, até regressar novamente à capital para ingressar no ensino superior. Vem de uma zona conhecida pela sua doçaria conventual, mas as suas paixões e hobbies ignoram por completo a culinária, indo desde a Medicina, Literatura e História Universal até temas como a Cultura Oriental e Música Clássica. É colaboradora da revista FRONTAL desde Março de 2013 e foi no também nos idos de Março do ano seguinte que se tornou editora da secção Cultura. Desde Novembro de 2014 que assegura a função de Editora-Geral da FRONTAL. A autora opta pelo Antigo Acordo Ortográfico.

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