O Desporto Contra o Cancro

Já ninguém nega que o desporto é campeão na prevenção de toda uma panóplia de doenças. No cancro, parece igualmente estar a ganhar terreno em direção ao pódio.

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A obesidade afeta 641 milhões de adultos em todo o mundo, correspondendo a cerca de 13 % da população mundial. 31 % desta não realiza atividade física regular, o que pode ajudar a explicar estes resultados. Em Portugal, os números são também preocupantes – 4.5 milhões têm excesso de peso, dos quais 1.5 milhões são já obesos. Uma em cada três crianças tem excesso de peso ou obesidade e as consequências desta autêntica epidemia são óbvias.

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A atividade física tornou-se numa quase “prescrição obrigatória” para qualquer pessoa. Os seus benefícios estendem-se a todos os aparelhos e sistemas do nosso corpo. Existem algumas associações já conhecidas, como a redução do risco de carcinoma da mama, endométrio e cólon. As restantes neoplasias perfazem 61 % dos casos em todo o mundo, o que justifica estudos mais conclusivos acerca da sua influência neste grupo maioritário.

Um estudo publicado no Journal of the American Medical Association – Internal Medicine, analisou o comportamento de 1.44 milhões de adultos durante 11 anos e a respetiva relação entre o risco de 26 tipos de cancro e a atividade física realizada (sendo que a média assenta em 150 minutos semanais de atividade moderada, que inclui caminhar, jogging e natação). Nos participantes que praticam exercício físico mais vigoroso, verificou-se uma descida do risco em 13 dos 26 cancros examinados, tendo ocorrido um decréscimo de 20% ou mais em 7 tipos de cancros (adenocarcinoma do esófago, carcinoma do fígado, pulmão, renal, do cárdia e endométrio, e leucemia mielóide). Nos restantes 6 (mieloma múltiplo, carcinoma do cólon, cabeça e pescoço, retal, da bexiga e da mama) verificou-se uma redução entre 10 a 20%.

O elo de ligação entre a atividade física e o aparecimento de cancro assenta em 3 sistemas de hormonas: insulina e fatores de crescimento insulina-like; Adipocinas; Hormonas Esteróides (estrogénios e androgénios). Num estudo levado a cabo em mulheres pós-menopausa, após um ano de exercício regular, verificou-se uma diminuição dos níveis de estradiol, potencial causador de carcinoma do endométrio e mamário, e ainda de insulina. Outros mecanismos não hormonais incluem a inflamação, stress oxidativo, função imunológica e redução do trânsito intestinal (para carcinoma do cólon). Estes últimos permitem explicar a associação com determinados carcinomas não dependentes de hormonas, como uma parte dos carcinomas da mama ER-negativos. Globalmente, estima-se que a prática regular de desporto decresça em 7% o risco de todos os cancros, o que é já significativo.

Contudo, nem tudo parece abonar a favor do desporto. Do outro lado da balança, a atividade física parece propiciar o aparecimento de carcinoma prostático e de melanoma maligno. Relativamente ao primeiro, a explicação não é consensual. Assume-se que um homem fisicamente ativo realiza exames de rotina com maior regularidade, nomeadamente a examinação retal e o doseamento do antigénio PSA, que poderão detetar carcinomas assintomáticos. Contudo, os dados não parecem significativos e podem ter sido influenciados por screening biases. Já o risco aumentado de melanoma apresenta uma explicação lógica – o aumento da atividade física, quando realizada ao ar livre, condiciona a exposição superior a radiação ultravioleta, o que propicia o surgimento de queimaduras e, consequentemente, de crescimento descontrolado das linhagens celulares. Este estudo explora também uma outra relação importante – outras publicações defendem a tese de que é a perda de peso e a redução de biomarcadores relacionados com cancro o elo principal de ligação entre o exercício físico e a diminuição de incidência de variados carcinomas. Contudo, os resultados apresentados contrariam esta via de pensamento – as associações encontradas são maioritariamente independentes do IMC (salvo exemplos de carcinomas relacionados com a obesidade, como o adenocarcinoma do esófago) e dos hábitos tabágicos.

Uma limitação importante de todo este estudo é, no entanto, a impossibilidade de excluir na totalidade fatores de risco como o tabaco e a dieta, que possam influenciar os resultados obtidos. Assim sendo, este assunto terá de ser sujeito a novas investigações e análises, embora já se tenham encontrado associações em “novas” neoplasias para além das já existentes. Independentemente dos resultados dos próximos estudos, já é claro que a promoção de um estilo de vida saudável, baseado na prática regular de exercício físico é fundamental e com benefícios amplamente reconhecidos. Juntando à diminuição do risco de inúmeros carcinomas, torna-se uma medida também preventiva a longo prazo, que deve ser fomentada por qualquer profissional de saúde.

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Francisco Vara Luiz é aluno do 4º ano da NOVA Medical School|Faculdade de Ciências Médicas, embora tenha frequentado um ano de Medicina na Universidade dos Açores…daí, guarda algumas das melhores memórias da sua vida. Agora, mantendo-se no curso que sempre desejou, tem a grande motivação de viver na “sua” cidade e de estar perto da família (amigos também são família!) e do seu clube (Sporting, what else??) . O desejo de pertencer a um grande projeto fê-lo ingressar na equipa da FRONTAL, em Dezembro de 2014. Pelo caminho, ingressou noutros projetos e atividades que espelham as suas motivações de vida - ser uma melhor pessoa e um melhor profissional.

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