Quero Ser Menos Médico

QUERO SER MENOS MEDICO 1Texto vencedor da 2ª Edição do Concurso “O Melhor Artigo de Sempre”.

Quando este semestre acabar, terei passado três anos da minha vida na faculdade de medicina. Não é uma quantia desprezível; são anos em que a minha formação como cidadão está ainda a ser completada, havendo margem para tudo correr mal. Três penosos anos depois, estou cada vez mais perto de ser mestre em medicina, mas cada vez mais longe de ser médico.

Acredito no realismo indireto, isto é, que aquilo que nos chega pelos sentidos sofre uma modulação que, conforme o indivíduo, pode ser maior ou menor, mas que transforma uma mesma vivência em “realidades” diferentes. A minha realidade, doravante referida apenas como realidade, tem sido dolorosa. Cheguei a uma faculdade que é pouco diferente de uma escola secundária – tirem-lhe a maior carga burocrática e o custo das propinas e mal as distingo. A vontade de aprender dos meus pares é, na realidade, uma vontade de memorizar livros enormes que fizeram sentido para quem os escreveu, mas que, para eles, têm apenas de se enquadrar em boas mnemónicas. As tabelas e os tópicos podem não apresentar “porquês”, podem não fazer sentido, mas são muito mais amigos de quem prefere conjuntos de letras a conceitos. Se, na minha visão, quem tem aulas comigo são os meus colegas, outros veem nos colegas inimigos, possíveis adversários na hora de escolher uma especialidade que tem dez candidatos para duas vagas. Vale tudo para conseguir uma décima adicional ou para enriquecer um currículo. E, no entanto, a culpa não é deles.É difícil atribuir culpas quando se quer fazê-lo justamente. É difícil fazê-lo sobretudo se nos inserimos numa minoria.

Felizmente, é-me fácil ignorar estas duas dificuldades, que constroem tabus e garantem o status quo, e é conscientemente que culpo os médicos pelo meu desalento. Quando cheguei à faculdade levava comigo uma ideia muito diferente daquilo que iria encontrar, e o choque com a realidade foi muito duro. Julguei que iria inserir-me num meio onde o conhecimento e a cultura eram divindades, e onde a ignorância seria combatida mais ferozmente que qualquer célula tumoral. Acreditei piamente que, numa faculdade, o pensamento crítico e a criatividade seriam capacidades preditoras de sucesso académico. Como qualquer utópico, demorei bastante a recompor-me e a ganhar alento para enfrentar seis anos de fretes constantes. Só o tempo me permitiu voltar aos momentos iniciais para refletir acerca daquilo que me aconteceu, e aí tornou-se claro que não sou um exemplar único.

Somos muitos aqueles que chegam com grandes esperanças para a sua vida na faculdade. Estou certo que a maior parte dos colegas que se voluntariaram para esta aventura são pessoas interessantes e que tinham sonhos tão agradáveis como os meus. O grande problema é que, com o passar dos dias, das semanas, dos meses, das épocas de exame, torna-se mais fácil adaptarmo-nos do que batalharmos por melhores condições. É mais simples adaptarmo-nos à realidade do que procurar um equilíbrio dinâmico. E é assim que, aos poucos, nos vamos tornando médicos, muitas vezes sem sequer aprender medicina.

Como em qualquer processo de aprendizagem, num curso de medicina precisamos de adquirir muitos conhecimentos teóricos, mas precisamos sobretudo de adquirir a sensibilidade que nos permite lidar com o sofrimento dos outros sem o descartar, a capacidade de ouvir problemas e não ser capaz de lhes dar soluções satisfatórias, a humildade de aceitar os trajetos de vida dos outros e de lhes fornecer respostas que respeitam as suas escolhas. Nada disto se aprende em livros. Os tratados neuroanatómicos podem ensinar onde está a linguagem, onde estão as memórias e onde tomamos as decisões; ensinam a enfrentar um órgão, mas não nos dão ferramentas para cuidar de um organismo. Para aprendermos a ser bons médicos precisamos, sobretudo, de bons exemplos. Como animais miméticos que somos, o nosso comportamento em contexto clínico vai ser semelhante àquele que virmos os nossos professores terem, seja ele com os doentes ou simplesmente numa sala de aula.

Salvo raras exceções, que concordarão com este texto, os professores que encontrei só me ensinaram que tipo de médico eu não quero ser. Transmitiram-me informação, mas não me capacitaram para ser capaz de absorver conhecimento. Disseram-me aquilo que tenho de fazer, mas não o mostraram. Quiseram que eu fosse capaz de dar respostas a perguntas cujo sentido não me explicaram. Se o ensino da medicina fosse programação, teriam criado em mim um excelente autómato. Se o ensino da medicina fosse programação, o copy-paste e a produção em série seriam soluções douradas. Se o ensino da medicina fosse programação….

É difícil atribuir culpas quando se quer fazê-lo justamente. É difícil fazê-lo sobretudo se nos inserimos numa minoria. Felizmente, não somos uma minoria. Todos os anos entram nas faculdades de medicina jovens dispostos a aprender, a conjugarem as ciências e as humanidades para exercerem uma profissão que, até há bem pouco tempo, estava inserida nas artes, e não estava mal. Acredito que é possível conservar os seus espíritos alargando a quantidade de “mundo” que absorvem ao longo do seu trajeto. Para isso, basta que sejam menos médicos. Convivam com engenheiros e observem uma abordagem pragmática dos problemas. Convivam com psicólogos, economistas e sociólogos e percebam o impacto que podem ter numa sociedade. Falem com historiadores e filósofos e questionem-se acerca das perguntas, não se limitem a responder-lhes.

Se exercer medicina, quero exercê-la percebendo que não é uma profissão qualquer. Um profissional de saúde é um prestador de serviços que enfrenta um utente que está a viver uma fase má da sua vida e que exige muito mais qualidade do serviço – e que tem direito a exigi-la. O doente tem de voltar a ser o centro da medicina e, consequentemente, da sua aprendizagem também. Quando me perguntam que tipo de médico quero ser, não hesito: quero ser muito menos médico do que aqueles que, ao longo destes três anos, me rodearam. Quando o momento chegar, quero ser Médico.

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