Mudam-se os tempos, mudam-se as dietas

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Se colocados em discussão os argumentos éticos a favor da instituição do vegetarianismo como regime alimentar, um ponto da conversa em redor deste tema fica arrumado. À parte a questão moral, há a parte nutricional, que facilmente é fonte de polémica, uma vez que, por natureza, a dieta aqui referida tem como elemento básico de sustentação a exclusão de carne, peixe ou derivados do plano dietético do Homem, desde sempre conhecido como pertencente à classe dos “omnívoros”.

Depois de anos de discussão e investigação, várias foram as sociedades a desenvolver pareceres sobre o risco-benefício de tal opção. A FRONTAL simplifica algumas das ideias-chave e tantas vezes controversas.

A fundamentação que faltava

A Sociedade Dietética Americana defende que, “desde que equilibrada e bem planeada, a dieta vegetariana é apropriada para o ser humano em qualquer fase da sua vida”. Segundo esta organização (e com base em evidência científica devidamente suportada), a dieta vegetariana pode mesmo conter um grande potencial benéfico a vários níveis, não só de prevenção primária, como secundária e terciária, isto é, com fins terapêuticos.

Por dieta vegetariana entende-se toda aquela que exclui peixe, carne e produtos derivados destes ou que, na sua composição, incluam elementos de origem animal. No entanto, o padrão do vegetarianismo é móbil, daí advindo variantes, como o lacto-vegetarianismo ou o ovo-lacto-vegetarianismo, de tal modo que se pode definir ainda uma classe vegan, de onde se exclui totalmente da dieta a presença de carne, peixe ou derivados.

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Em termos de percentagem relativa, sabe-se que aproximadamente 2,3% da população norte-americana, em 2006, seguia uma dieta deste tipo; isto corresponde, em números absolutos, a cerca de 4,9 milhões de pessoas, ou seja, uma parcela relevante da população que deverá ser adaptada ao contexto mundial. O interesse no vegetarianismo tem vindo a crescer ao longo dos anos, quer por causa de uma maior globalização, que permite o fluxo cultural e de ideologias livre e a disseminação de hábitos gastronómicos, com a emergência de cursos de culinária vegetariana, divulgação rápida de novas receitas, etc, quer por causa da aquisição de uma atitude pública, por parte do Homem, de respeito pelos Direitos dos Animais.

Adaptação a uma nova realidade

Este movimento trouxe uma resposta óbvia (e, de resto, massiva) por parte da Indústria Alimentar e do negócio envolvendo a Restauração: criação de novos menus, inclusão de saladas diversificadas e consistentes, substituição da carne por seus análogos; no fundo, tornar o vegetarianismo uma opção que permita ao cliente sentar-se e aproveitar a oferta como qualquer outro, sem ter de simplesmente restringir-se ao acompanhamento ou acreditar que nenhum derivado animal lhe foi “por acidente” habitar o prato.

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A Indústria atuou ainda de forma direta nos alimentos, tendo apostado no reforço nutricional de vários deles. Leite de soja, arroz ou amêndoa suplementado com cálcio, vulgares cereais de pequeno-almoço ricos em vitaminas diversas, já para não falar dos suplementos alimentares puros: misturas de vitaminas e outros nutrientes essenciais que se compreendem numa única pílula tornam possível prescindir da carne e do peixe sem perder os seus benefícios nutricionais.

Mais vegetais, menos carne… mais saúde?

É sabido que à dieta vegetariana se associa uma redução da pressão arterial e manutenção dos níveis de colesterol em valores tidos como normais num adulto saudável, há menor risco de desenvolvimento de diabetes mellitus tipo 2 e menor índice de massa corporal; no conjunto, falamos de um menor risco cardiovascular global. Isto tudo porque uma dieta vegetariana bem planeada trará à pessoa que a pratica uma mais baixa ingestão de alimentos ricos em gorduras saturadas e colesterol, sendo, pelo contrário, rica em fibras, magnésio, potássio e vitaminas C e E, além de folato, carotenóides e flavonóides. Comprovado está ainda o benefício a nível da prevenção de doença renal, cancro e osteoporose.

Apesar de apresentar diversos benefícios para a saúde, a dieta vegetariana poderá acarretar falhas graves de vitamina B12, D, zinco, cálcio e ácidos gordos de cadeia longa que não podem ser ignoradas

No entanto, apesar de todos os pontos favoráveis à manutenção de um bom estado de saúde que diversas sociedades dietéticas e científicas têm apresentado, o ceticismo em redor do vegetarianismo permanece. É, como tal, muito importante ressalvar neste ponto que sem a suplementação e gestão adequadas, esta opção nutricional poderá acarretar falhas graves de vitamina B12, D, zinco, cálcio e ácidos gordos de cadeia longa que não podem ser ignoradas; também se questionam os efeitos que a diminuição de proteína animal pode ter no organismo humano.

  • Proteínas – devido à sua grande variedade a nível vegetal, podem substituir as de origem animal sem prejuízo para o consumidor; o que nos diz a ciência é que o organismo não dará pela ausência de proteína animal desde que grandes porções de proteína vegetal sejam consumidas ao longo do dia. Ou seja, nas frutas e legumes encontram-se praticamente todos os aminoácidos essenciais necessários à manutenção de um estado de saúde adequado. Além disso, a necessidade de suplementação depende também do “grau de vegetarianismo” da pessoa, significando isto que o lacto-vegetariano ou ovo-lacto-vegetariano dificilmente sofrerá de carência protéica.
  • Ácidos gordos ómega-3 – têm uma história diferente: embora as dietas vegetarianas se caracterizem por níveis relativamente elevados de ómega-6, a exclusão de peixe e ovos acarretará com certeza uma falha grave de ómega-3, conhecido pelo seu benefício a nível cardiovascular, oftálmico e central. Felizmente, vegetarianos e veganos podem encontrar no mercado produtos – como leite de soja – fortificados com ácido docosahexaenóico.
  • Ferro, zinco e iodo – apesar de poderem faltar, podem igualmente ser encontrados em suplementos (sal iodado é um exemplo).
  • Vitamina B12 – o seu défice só é verdadeiramente apreciável em veganos, pois os ovos conseguem fornecer as quantidades diárias recomendadas desta vitamina a um lacto-ovo-vegetariano. Contudo, é crucial não ignorar a possibilidade de haver deficiência de cobalamina, pois é de conhecimento geral que, apesar do nulo aporte de B12, a dieta vegetariana é extremamente rica em folato; isto traduz-se na mimetização do défice da primeira até ao momento em que aparecem as primeiras sequelas neurológicas e sintomas de gravidade da situação, uma vez que o folato consegue evitar as alterações hematológicas características do défice de vitamina B12.

Os mitos do desenvolvimento psicomotor de crianças vegetarianas

Quando todas as dúvidas nutricionais para adultos estão devidamente esclarecidas, eis que as surgem dirigidas às crianças: então e o seu desenvolvimento psicomotor não fica afetado? Ceticismo à parte, o facto é que não – e a resposta não podia ser mais categórica. Os vegetarianos life-long apresentam, na idade adulta, peso, altura e IMC em tudo semelhantes ao de adultos que nunca prescindiram de carne ou peixe ao longo da vida. Encontra-se, pelo contrário, provado que a estas crianças e adolescentes um maior consumo de vegetais e frutas, acompanhado de ingestão diminuída de gorduras saturadas e colesterol, traz uma considerável vantagem nutricional.

 "Só te levantas da mesa quando acabares de comer a sopa" é a frase mais ouvida em mesas de todo o mundo. E se apenas houvesse verduras para o almoço, como cresceriam as crianças?

“Só te levantas da mesa quando acabares de comer a sopa” é a frase mais ouvida em mesas de todo o mundo. E se apenas houvesse verduras para o almoço, como cresceriam as crianças?

No que diz respeito às mulheres grávidas ou a amamentar, os dados disponíveis mostram, tão-simplesmente, que as vegetarianas têm as mesmas necessidades de suplementação que as não-vegetarianas; exceção para o ferro, cujo aporte extra se recomenda ser maior nas do primeiro grupo. As dietas vegetarianas podem (e devem, sempre que necessário) ser adaptadas para as necessidades de uma mulher que esteja grávida ou em período de amamentação.

As grávidas vegetarianas têm as mesmas necessidades de suplementação que as não-vegetarianas

Com base em toda esta informação, parece de facto que a evidência científica atualmente disponível não só indica uma dieta vegetariana como sendo uma opção saudável, como ainda capaz de trazer benefício suplementar à saúde do indivíduo. Tendo em conta as carências nutricionais associadas principalmente ao veganismo, os praticantes deste tipo de dieta devem, porém, ter o cuidado de prover substitutos viáveis para nutrientes como a vitamina B12 ou o ferro.

Tudo somado, não existe uma indicação médica para a prescrição de uma dieta vegetariana,  podendo ser facilmente alcançados os seus benefícios através de uma dieta tradicional, desde que equilibrada e, claro está, aliada à boa velha prática de exercício físico. A decisão de “ingressar” no vegetarianismo deve por isso ser tomada individualmente e sem pressão externa, sempre tendo por base um suporte informativo de confiança para que a nova opção seja o mais completa e segura possível.

Assim sendo, no fim do dia, são as questões éticas que vão acabar por ser o ponto fundamental para muitos dos que se decidem tornar vegetarianos. Questões a debater num próximo artigo, portanto…

 

MUDAM-SE OS TEMPOS, MUDAM-SE AS DIETAS – O vegetarianismo visto pela Lupa da FRONTAL

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Animais Humanos e não-Humanos

O Homem é um animal omnívero, assim aprendemos na escola primária. A sua dieta é variada e consiste em carne, peixe, frutas e vegetais – mas terá mesmo que ser assim? Um detalhado ensaio da autoria de Diogo Duarte que pretende questionar este centenário adagio e traça um retrato preciso sobre o significado ético de se ser vegetariano.