Miguel Fernandes, o Homem de Ferro

Miguel Fernandes é aluno do 4º ano na FCM e triatleta desde os 12 anos de idade. No dia 6 de Outubro de 2013, realizou em Barcelona uma prova denominada Ironman, conhecida pelo seu elevado nível de exigência. Como se estudar Medicina não bastasse – e todos sabemos que esta requer uma enorme capacidade de auto-disciplina e de empenho -, o Miguel decidiu desafiar-se a ele próprio a nível físico (e até mental), e com bons resultados! Estão explicados os motivos pelos quais a FRONTAL decidiu ir ao encontro deste aluno-desportista, um exemplo de que, com dedicação e amor à camisola, é possível chegar longe a vários níveis.

Fotos por Armando Fernandes e marathon-photos

Fotografias por Armando Fernandes e marathon-photos

1 | TRIATLO

FRONTAL (F): Olá Miguel! Podias-nos explicar assim muito rapidamente o que é o triatlo para quem não sabe?

Miguel Fernandes (MF): O triatlo não tem nada que saber! Natação, ciclismo e corrida! Com duas transições entre os percursos, a prova é feita sem paragens. Há várias distâncias, desde os super-sprint ao Ironman! A prova Olímpica é disputada no formato com o mesmo nome, cujas distâncias são 1,5-40-10 (km).

F: Sendo o triatlo composto por 3 modalidades diferentes já praticavas alguma antes de te iniciares no triatlo? Com que idade começaste a praticar triatlo? E porquê?

MF: Desde cedo que os meus pais me atiraram para a piscina a ver se eu me afogava. Tal não aconteceu e desde os 3 que lá comecei a chapinhar, até que no Ensino Básico comecei a treinar 6 vezes por semana, já numa vertente de competição. Fui a alguns torneios e nacionais, ganhei algumas medalhas e no meio disto tudo, em 2004, fiz um aquatlo, por iniciativa do meu clube de natação, e ganhei. Fiquei motivado e interessado e decidi inscrever-me na Federação. Treinava natação todo o ano, nas férias fazia sempre um mês de bicicleta, ganhava os corta-matos na escola, e pensei: porque não entrar numa modalidade que conciliasse os 3 desportos? Assim foi e até 2007 só treinava natação e fazia provas de triatlo por diversão. Como era bom no triatlo e na natação, começava a “sofrer” por ter entrado nesta modalidade, pelo que decidi fazer o salto e começar a treinar as 3 vertentes.

F: Das 3 modalidades do triatlo há alguma que gostes mais?

MF: O bom do triatlo é que nunca chegamos à fase de nos cansarmos de uma modalidade. No entanto, agora acho que prefiro o ciclismo. Gosto de ir pedalar num grupo animado e acho que é a disciplina em que conseguimos sofrer mais e ir até ao limite, que muito provavelmente é o vício de qualquer triatleta!

Fotografias por Armando Fernandes e marathon-photos

“O bom do triatlo é que nunca chegamos à fase de nos cansarmos de uma modalidade. No entanto, agora acho que prefiro o ciclismo.”

F: Tens experiência no duatlo ou no aquatlo? O que é que nos podes dizer acerca destas modalidades?

MF: Sim, estas vertentes são muito importantes principalmente para o desenvolvimento da modalidade, dado serem mais acessíveis fisicamente que o triatlo. O aquatlo consiste em natação e corrida, sendo umas das provas mais rápidas e melhor adequadas a nadadores e bastante importante na iniciação dos jovens à modalidade. Já o duatlo (correr, pedalar, correr) é ótimo para quem não sabe nadar e quer começar a dar os primeiros passos na modalidade! São vertentes não Olímpicas do Triatlo, mas têm Campeonatos do Mundo, nos quais Portugal se costuma bater muito bem, tendo já inúmeros títulos conquistados. Da minha experiência, cheguei a ser Campeão Nacional de Aquatlo Júnior e Absoluto duas vezes e fui também Campeão Nacional Júnior de Duatlo. Como o meu background era de nadador, quando era mais novo o aquatlo era onde era mais forte!

F: Alguma vez sentiste que era difícil conciliar os treinos com os estudos?

MF: No Secundário, que foi quando comecei o triatlo, não era muito difícil porque também não era preciso estudar muito! No entanto, a minha família fazia um esforço enorme para conciliar tudo. A minha mãe ia-me levar ao Jamor às 6 da manhã, de seguida o meu pai às 8 ia-me buscar para ir para a escola e depois à tarde, se além do ciclismo tivesse de correr, a minha mãe lá tinha de me levar outra vez. Na faculdade tudo mudou. É uma vida nova e quem quer treinar para ganhar não consegue, nem pode, estar concentrado em duas coisas ao mesmo tempo. Desde cedo me apercebi disso e soube que rapidamente tinha de tomar uma decisão sobre o que realmente queria e acabou por vencer os estudos, depois de todas as variáveis terem sido equacionadas.

“Na faculdade tudo mudou. É uma vida nova e quem quer treinar para ganhar não consegue, nem pode, estar concentrado em duas coisas ao mesmo tempo.”

F: Queres-nos explicar um dia normal de treino? Onde treinas? E o teu plano de treinos sofre alterações ao longo do ano consoante a época de exames?

MF: Neste momento só faço ginásio! Depois do Ironman perdi 8kg e está na altura de os repor. No entanto, quando treinava a sério, há 2 anos, um dia normal seria nadar às 6 da manhã cerca de 5/6km, ir às aulas, almoçar, pedalar 2/2.30h e correr 1h ou ginásio. Alguns dias só fazia dois treinos, se fossem mais intensos. Durante a época de exames era para esquecer. Não havia ordem para nada, era fazer o que desse! Para o Ironamn treinei irregularmente. Fazia basicamente o que me apetecia. Tanto passei dias em que não saía de casa, como noutros treinava 8 horas.

F: Dos títulos da tua carreira quais são aqueles de que te orgulhas mais?

MF: Claramente ter feito parte dos Jogos Olímpicos da Juventude em Singapura que foi a melhor experiência que alguma vez vivi e da qual guardo as melhores recordações, quer pelo que presenciei, quer, claro, pelo meu 4ºlugar individual e pela medalha de ouro por equipas que trouxe para casa. De resto, orgulho-me, também, das minhas participações em campeonatos da Europa e do Mundo, principalmente a minha primeira, em Pulpi, Espanha, em que a prova era coletiva e ainda era juvenil. Nunca vivi um espírito de equipa tão forte, de camaradismo, amizade e competitividade como nessa prova! Ter ganho três taças de Portugal em Absolutos e ter recebido o Prémio Juventude pelo COP foram também momentos de orgulho.

Fotografias por Armando Fernandes e marathon-photos

“Claramente ter feito parte dos Jogos Olímpicos da Juventude em Singapura que foi a melhor experiência que alguma vez vivi e da qual guardo as melhores recordações, quer pelo que presenciei, quer, claro, pela medalha de ouro que trouxe para casa.”

2 | IRONMAN

F: Agora vamo-nos debruçar sobre o Ironman. Antes de mais muitos parabéns pela excelente prestação no Challenge de Barcelona-Maresme! Para quem não sabe, no que consiste uma prova Ironman?

MF: Obrigado! Um Ironman é nada mais nada menos que 4km a nadar 180km de ciclismo e 42,195 km de corrida, sem parar desde o tiro de partida.

F: Quando é que começaste a ter a ideia de fazer um Ironman?

MF: Um Ironman é algo que vinha pensado desde o meu primeiro dia no triatlo. Antes de sonhos de Jogos Olímpicos veio uma vontade enorme de poder fazer esta prova mítica para todos os triatletas. A decisão final veio antes dos exames do 3ºano da faculdade. Sabia que era agora ou nunca, basicamente. Ou aproveitava o que me restava de forma física e fazia um Ironman, ou mais tarde não teria nem tempo nem cabeça para o fazer! Despachei todos os exames da faculdade logo na 1ª fase e, no mesmo dia em que soube a última nota, inscrevi-me no Ironman!

“Um Ironman é algo que vinha pensado desde o meu primeiro dia no triatlo. Antes de sonhos de Jogos Olímpicos veio uma vontade enorme de poder fazer esta prova mítica para todos os triatletas.”

F: Quanto tempo treinaste? Quão diferentes eram esses treinos dos de um triatlo dito normal?

MF: Não treinei muito tempo, mas felizmente ainda tinha na “bagagem” muitas horas e muitos quilómetros de anos anteriores. Comecei a treinar no final dos exames. Foram mais de três meses, em que tive de começar devagar por não ter treinado durante o ano anterior. Eram treinos bem diferentes dos de um triatlo normal, onde se tem de ser rápido. Só fiz resistência. Na gíria desportiva, o que fiz foi “meter quilómetros”. Para isso, fiz treinos mais longos mas menos intensos do que aqueles a que estava habituado.

F: Para além de um plano de treinos também tiveste algum cuidado com a tua alimentação?

MF: Não me preocupei muito com a minha alimentação durante os treinos. Comia o que havia, mas claro que também não fiz grandes abusos em termos de gorduras, mas nada diferente do que faço no dia-a-dia. Imprescindível para o meu bem-estar são uns American Donuts. Sem isso torna-se difícil (risos). Além do mais, quase nem suplementos alimentares tomei. O objetivo era fazer um Ironman na “desportiva” e assim foi!

F: Nos dias antes da prova sentias-te bem preparado?

MF: Nos dias antes, como é normal, comecei a duvidar. Não fiz um treino certo e regular ao longo destes meses, com pausas grandes para férias e não sabia bem o que esperar. Mas também não havia muito a fazer. A inscrição estava paga, o alojamento tratado, o material a postos, só tinha de ir e divertir-me!

F: Durante a prova em si, que cuidados tiveste com o teu corpo? Isto é, falo de alimentação e hidratação.

MF: Durante a prova, como são muitas horas em esforço, é imperativo e fundamental estar sempre a comer e a beber. A organização tinha sempre postos de apoio com bidões de água e bebida isotónica, barras e géis energéticos, assim como comida e eu tirei sempre o máximo possível. Talvez tenha bebido à volta de 7 litros e comi à vontade 20 géis e barras e ainda alguma fruta.

Fotografias por Armando Fernandes e marathon-photos

F: Quais foram os teus pensamentos no decorrer da prova? Alguma vez quiseste desistir a meio?

MF: Antes do tiro de partida só pensava no que me tinha metido, mas depois foi como se tudo passasse. Concentrei-me no que tinha de fazer, não entrei em exageros e as 9 horas pareceram mais curtas que muitos treinos de corrida de hora e meia! Aproveitei todos os momentos em que estive em esforço e, por mais estranho que pareça para muitos, quanto mais avançava e mais entrava em sofrimento, mais me sentia feliz pelo que estava a fazer. Desistir e parar nunca me passaram pela cabeça! Só via a meta à minha frente!

“Aproveitei todos os momentos em que estive em esforço e, por mais estranho que pareça para muitos, quanto mais avançava e mais entrava em sofrimento, mais me sentia feliz pelo que estava a fazer.”

F: Depois de 9 horas e 15 minutos finalmente cortaste a meta! 47º na geral e 2º do escalão numa prova com mais de 1000 inscritos! Qual foi a sensação de terminar uma prova duríssima como esta e com um resultado destes?

MF: Foi incrível! Senti que finalmente era um TRIATLETA ao ter feito a prova-mãe! Além do mais, foi um tempo excecional, independentemente do treino que tenha feito. Foi uma vitória pessoal e um fechar de um ciclo como desportista. Senti finalmente que tinha feito tudo o que havia a fazer nesta modalidade e que podia, finalmente, dedicar-me ao que quisesse, sem ter de pensar que ainda havia alguma coisa no triatlo para mim.

Fotografias por Armando Fernandes e marathon-photos

“Foi incrível! Senti que finalmente era um TRIATLETA ao ter feito a prova-mãe!”

F: E como foi a recuperação nos dias a seguir?

MF: Mal acabei a prova não conseguia andar e essa situação arrastou-se até ao dia seguinte. Durante uma semana não consegui subir escadas de maneira normal, mas passado isso lá voltei ao normal e a poder treinar à vontade!

3 | FINAL

F: Tens algumas dicas para alguém que já faça uma das 3 modalidades e tenha vontade de fazer um triatlo?

MF: Se souber nadar é experimentar logo um triatlo! Todos sabemos correr e andar de bicicleta é fácil. O problema é o tempo que se dispõe para treinar, mas muitas vezes o que custa mesmo é sair de casa! Há distâncias curtas como o super-sprint (0,4-10-2,5km) que mesmo assim são bastante desafiantes e são ótimas para a iniciação. Não há nada como experimentar! Para quem corre ou gosta de ciclismo de estrada ou BTT, o duatlo é a vertente mais apropriada! Também existe em distâncias curtas, adequadas a todos. Para aqueles que quiserem evoluir, aí a modalidade já começa também a exigir um esforço financeiro para a compra dos materiais necessários para provas maiores como, por exemplo, fato isotérmico para nadar e uma bicicleta de estrada.

F: Agora uma pergunta que muitos queremos ver respondida: vamos ter o prazer de te poder apoiar nos JO no Rio de Janeiro em 2016?

MF: Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro só se for na PlayStation! Já há mais de um ano que decidi não me dedicar ao triatlo e não é por esta prova, por melhor que tenha corrido e muita gente que me tenha pedido para voltar, que isso vai mudar. A decisão foi tomada e se foi a melhor ou não, também não vou perder tempo com isso. O meu percurso agora é outro. De resto, o Triatlo está-me no sangue e será para sempre parte de mim e da pessoa que sou.

“O meu percurso agora é outro. De resto, o Triatlo está-me no sangue e será para sempre parte de mim e da pessoa que sou.”

F: Obrigado pela entrevista, Miguel!

Fotografias por Armando Fernandes e marathon-photos