Devemos realmente parar de comer carne?

Fará a carne tão mal como dizem? Até que ponto a sua ingestão poderá ser nefasta? É preciso pesar os prós e contras do seu consumo. Se por um lado nos fornece um bom aporte de ferro e de nutrientes, por outro é-nos dito que o consumo deste tão afamado alimento pode ser cancerígeno. Afinal, em que ficamos?

 

Meat consumption is just as dangerous to public health as tobacco use… It’s time we looked into holding the meat producers and fast-food outlets legally accountable.

Neal Barnard, médico e investigador na área da nutrição (1999)

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Desde quando comemos carne?

Não é possível determinar o momento preciso em que o homem passou a ingerir carne. Segundo a antropologia, contudo, é presumível que os nossos antepassados tenham começado a ingerir este tipo de alimento há, pelo menos dois milhões de anos. Se imaginarmos os nossos ancestrais, pelos documentários que passam rotineiramente na televisão e nos livros que fizeram parte do nosso percurso académico, facilmente nos surge na memória que estes possuíam dentes muito mais fortes e afiados comparativamente ao ser humano atual, de modo a facilitar a ingestão de carne não cozinhada, entre outros alimentos mais duros.

De facto, a carne teve um papel fulcral na evolução da espécie humana. Os seres humanos descendem dos primatas que se nutriam essencialmente de folhas e frutos. Há quatro milhões de anos atrás, o aquecimento global reduziu parte das florestas e savanas espalhadas um pouco por todo o planeta, levando a uma maior distância entre a flora existente e à necessidade dos nossos antepassados percorrerem distâncias colossais pelo solo. Tal mudança no habitat conduziu ao bipedismo e à necessidade de busca por novas fontes de alimentos, nomeadamente da carne.

O consumo dos produtos de origem animal pode ter contribuído para o crescimento acelerado da massa cerebral humana, devido à grande quantidade de nutrientes e proteínas que continha. Porém, atualmente a carne não é fundamental à espécie, uma vez que podemos obter uma alimentação rica em proteína a partir de fontes não animais, sendo que tal facto só se tornou possível após a revolução agrícola (9000 e 7000 a.C.).

O ser humano possui um sistema digestivo omnívoro, em termos evolutivos posicionado entre o sistema do leão e o da vaca, sendo apto a digerir e absorver os produtos da carne com bastante rendimento. Por outro lado, ele é capaz de se adaptar a uma dieta vegetariana, com restrição de carne. Citando o Harrison Principles of Internal Medicine:

A margem entre a quantidade de ferro disponível para absorção e a necessidade do elemento em lactentes e mulheres adultas é estreita. Esta margem limitada é responsável pela grande prevalência da carência de ferro no mundo inteiro – estimada em meio bilião de pessoas. O ferro-heme é o mais rapidamente absorvido (encontrado na carne vermelha). Um indivíduo com deficiência de ferro pode aumentar a absorção do elemento em cerca de 20% de ferro presente numa dieta que contenha carne, mas apenas 5 a 10% numa dieta vegetariana.

Deste modo, existe uma base científica que apoia o consumo de carne e, com efeito, não podemos olvidar o facto de que esta ocupa uma posição primordial na cultura ocidental entre os demais alimentos, sendo o seu consumo francamente associado aos momentos festivos e à prosperidade das nações.

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O que se passa actualmente com a carne?

Pelo facto de os media nos bombardearem com informações relativas a este assunto, quer pelo culto do corpo, quer pela sociedade do século XXI se importar realmente mais com a saúde e, ainda, pelo facto da comunidade vegetariana estar em voga, torna-se importante esclarecer alguns aspectos acerca da carcinogenicidade do consumo de carnes vermelhas e processadas. Foi neste contexto que, em Outubro do corrente ano, se reuniram 22 cientistas de 10 países na Agência Internacional para Pesquisa de Cancro (IARC) em Lyon, França, com o propósito de estimar o potencial cancerígeno do consumo de carne vermelha e carnes processadas.

O que são carnes vermelhas?

O processamento de carnes, tal como a cura e a defumação, pode resultar na formação de substâncias químicas cancerígenas, incluindo compostos nitrogenados (NOC) e hidrocarbonetos aromáticos policíclicos (HAP). Cozinhar este alimento melhora a digestibilidade e o sabor, mas também pode produzir aminas heterocíclicas (HAA) e HAP, que são potenciais carcinogénicos. Cozinhar a temperaturas altas, fritar e grelhar geralmente produz maior quantidade destes compostos químicos.

A média de ingestão de carne vermelha por aqueles que a consomem é cerca de 50 a 100 gramas por pessoa por dia, enquanto o valor aproximado de consumo de carnes processadas é menos consensual por falta de informação disponível.

Mais informações sobre o estudo

Tendo em conta a grande quantidade de dados e as associações consistentes de cancro colo-rectal com o consumo de carnes processadas em diferentes estudos em diferentes populações, com possibilidade de existirem vieses, concluiu-se que há provas suficientes em seres humanos para a carcinogenicidade do consumo de carnes processadas. Porém, o acaso e os vieses não podem ser de igual forma descartados no que concerne às carnes vermelhas. Sendo assim, os investigadores concluiram que existem evidências limitadas da carcinogenicidade do consumo de carne vermelha.

Uma meta-análise publicada em 2013 reportou uma modesta, mas estatisticamente significativa associação entre o consumo de carne vermelha ou processada e adenomas (lesões pré-neoplásicas) colorrectais. Em seres humanos, dados observacionais mostraram associações ligeiras, mas estatisticamente significantes com mutação do gene APC, ou do promotor de metilação, que foram identificados em 75 (43%) e 41 (23%) das 185 amostras de cancro colorrectal, respectivamente. Foi também descrito que o consumo de carne vermelha, após exceder o tempo habitual de cozedura, aumenta a mutagenicidade bacteriana da urina humana.

Que o consumo de carne vermelha e carnes processadas pelo Homem induz formação de compostos nitrogenados no cólon não é novidade para a comunidade científica. Com este estudo reforçou-se também a ideia de que um consumo excessivo de carne vermelha (300 ou 420 g/dia) aumenta os níveis de aductos ADN (formas de DNA que resultam de uma exposição a carcinogénios). O ferro-heme medeia a formação de NOC e produtos da oxidação de lípidos no trato digestivo dos seres humanos e roedores. Sabe-se também que carne cozinhada a uma temperatura elevada retém HAA. Os HAA apresentam toxicidade genética, e o grau de conversão de HAA a genotoxicidade dos metabolitos é maior no Homem do que em roedores. As carnes fumadas ou cozidas sobre uma superfície aquecida ou com chamas contém HAP. Estes produtos químicos causam danos no DNA, mas existe pouca evidência direta que isso ocorre após consumo de carne continuada.

O que se conclui?

Em suma, estes grupo de investigadores refere que existe evidência de que o consumo de carnes processadas seja um “potencial cancerígeno para os seres humanos” (Grupo I) com base em elementos suficientes para provar nomeadamente a ligação ao cancro colo-rectal e cancro gástrico. Relativamente à carne vermelha, propõem que a carne vermelha é “possivelmente cancerígena para os seres humanos” (Grupo 2A) tendo em consideração todos os dados relevantes, incluindo os importantes dados epidemiológicos, que mostram uma associação positiva entre carne vermelha e cancro colorrectal e de cancro do pâncreas e cancro de próstata.

Todavia é necessário um equilíbrio – quanto ao consumo de carne, mais do que nunca, este deve ser respeitado:

The only secret to food combination is a balance of protein, carbs and fat – they all play a key role in our health.

Jorge Cruise, autor de livros sobre nutrição (2011)

A man can live and be healthy without killing animals for food; therefore, if he eats meat, he participates in taking animal life merely for the sake of his appetite.

Leo Tolstoy, autor russo (1889)

Bibliografia