Os limites do corpo humano

FINAL

Todos os dias assistimos a feitos notáveis realizados pelo ser humano. Desportistas batem recordes, surfistas enfrentam ondas gigantes. Homens atravessam desertos, executam saltos de alturas inacreditáveis e levantam pesos superiores ao seu próprio – caraterísticas sobre-humanas, no mínimo! Tempo para uma questão: afinal, quais são os limites do corpo humano? 

Stress, esse grande aliado

Mitos urbanos sobre pessoas que apresentam caraterísticas sobre-humanas em momentos de grande stress são comuns. Porém, a história que a seguir contamos é bem real: foi reportada no livro Extreme Fear, de Jeff Wise, e popularizada através da publicação American Scientific. Os seus contornos são, no mínimo, extraordinários.

Levantar um carro? Pff… isso é fácil!

O protagonista é Tom Boyle Jr, um americano comum de Tucson. Numa bela tarde de Verão, enquanto conduzia a sua carrinha pelas ruas da cidade, assiste a um terrível acidente. Atrás dele, um Camaro (seria amarelo?) atropela um jovem ciclista de 18 anos. O impacto terá sido aparatoso, com o jovem a ser arrastado por alguns metros e ficando irremediavelmente preso debaixo das rodas. Tom, acometido pelo espírito de ajuda ao próximo, correu para o local do acidente. Sangue no chão e gritos desesperados vinham debaixo da viatura. Sem ter tempo para pensar no que estava a fazer, simplesmente segurou na carroçaria do Camaro e elevou-a em relação ao solo – mais de 3 toneladas de metal – apenas o suficiente para que o condutor do carro envolvido no atropelamento fosse capaz de levar o jovem vitimado para um sítio seguro. Tudo está bem, quando acaba bem, não é assim?

O porquê de o ter feito não representa qualquer dúvida para o herói do dia; o como, contrariamente, é que o intriga: a ele e a qualquer pessoa que tenha conhecido o seu feito!

Depois disto, foi o festival apoteótico em honra de Tom Boyle Jr., com direito a notícias nos jornais, fanfarra na rua e uma condecoração pelo YMCA local. Unanimemente, foi considerado um herói. Contudo, Tom não ficou particularmente entusiasmado com este título. Segundo ele, apenas fez aquilo que qualquer outra pessoa faria: ajudar o próximo numa altura de perigo. O porquê de o ter feito não representa qualquer dúvida para o herói do dia; o como, contrariamente, é que o intriga: a ele e a qualquer pessoa que tenha conhecido o seu feito!

Tom Boyle Jr., ao contrário do Chewbacca, também teve direito a uma medalha

A ciência, como não podia deixar de ser, tem uma palavra a dizer sobre este mistério, e essa palavra é stress. A resposta do nosso organismo em situações extraordinárias, como a que acabámos de descrever, na qual é despoletado um intrincado sistema de libertação de neurotransmissores e hormonas dominado pelo sistema adrenérgico. É o famoso momento de fuga ou luta – Tom optou pelo segundo e levantou um peso muito superior àquele que qualquer homem é capaz de erguer.

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Antes de seguirmos com a discussão, é necessário ter uma palavra sobre o nosso protagonista. Tom não era propriamente um franganote, antes um halterofilista amador bem-treinado, que, pesando mais de 100 kg, era menino para fazer 300 kg em dead lift (elevação

a partir do solo de uma barra com pesos, movimento muito semelhante ao que terá efectuado no dia do acidente). Apesar deste ser um valor bastante respeitável (desafiando-se desde já qualquer um dos leitores a bater esta marca), está ainda bastante longe do peso que teve que suportar para salvar o ciclista. Acrescente-se que nem mesmo o recordista no mundo, em condições normais, seria capaz de fazer o que Tom fez naquela tarde de Verão…

Fernando Mamede, a excepção à regra. Nos JO de Los Angeles, Portugal esperava dele o Ouro, mas, na final, não resistiu à pressão e desistiu a meio da prova.

Vladimir Zatsiorsky, professor de cinesiologia, dá algumas pistas sobre o assunto. Este investigador explica que existe uma força máxima que os nossos músculos conseguem exercer (“força absoluta”), mas que desta apenas uma fracção pode ser atingida através da invocação consciente (“força máxima”). Um qualquer ser humano comum será capaz, numa sessão de treino, de utilizar 65% da “força absoluta”, enquanto um atleta treinado é capaz de elevar esta marca para 85%. Vladimir Zatsiorsky afirma, ainda, que a força de uma pessoa pode ser substancialmente aumentada em situações de competição, talvez até 12% acima daquilo que seria habitual.

Existe um limite para o quão rápidos ou fortes o stress nos pode tornar

A esta grandeza chamou de “força máxima competitiva”, o que explica o facto de a maioria dos records mundiais serem batidos em grandes provas, como nos Jogos Olímpicos (excepção para o nosso Fernando Mamede, que, apesar de ter detido o record dos 10. 000 metros entre 84 e 89, apenas conquistou uma medalha de bronze numa grande competição da modalidade).

Poderá a “força máxima competitiva” explicar o feito de Tom Boyle Jr.? É, sem dúvida alguma, um factor a considerar. Não obstante, temos que perceber que existe um limite para o quão rápidos ou fortes o stress nos pode tornar e que a elevação de 3 toneladas está  para lá da capacidade humana. Efetivamente, o americano não levantou todo o veículo, apenas a sua dianteira e, consecutivamente, uma pequena parcela do peso total do veículo. Para ajudá-lo nesta tarefa, terá tido, ainda, o apoio da analgesia induzida pelo stress, cujo mecanismo não é exatamente conhecido, mas cujo efeito qualquer um já testemunhou na primeira pessoa – o rapaz que joga futebol, torce o pé mas só se queixa umas horas depois é um exemplo claro disso mesmo.

Poderá, então, o stress levar à produção de super-heróis em cada bairro? Infelizmente, não; mas certamente ajuda a levar os limites do nosso organismo um bocadinho mais longe.

O homem mais forte do mundo

Brian Shaw é considerado o homem mais forte da História – por quem? Nestas coisas nunca se sabe muito bem, valendo mais aceitar-se o epíteto do que passar por ignorante. A sua estatura é impressionante e, apesar da baby face e voz suave, a impressão que causa no outro é de puro terror. Noutros tempos teria sido um guerreiro temível; hoje entretém multidões com os seus feitos.

 Será  Brian Shaw a antevisão de um futuro de homens super-humanos? Ou, pelo contrário, representará ele o limite máximo do nosso corpo no que toca ao domínio da força?

Um dos pontos mais altos da sua carreira foi a conquista da Strongam Competition, torneio que venceu por duas vezes consecutivas, proeza nunca antes conseguida. Igualmente, é o atual detentor do título de Homem Mais Forte do Mundo, prémio que venceu em 2013 e 2011. Esta competição está para o halterofilismo, como o decatlo para o atletismo: vence o concorrente mais completo, aquele que é capaz de demonstrar a sua força numa grande variedade de situações – desde elevar pneus dos jipes Hummer, a puxar camiões de várias toneladas – assim provando ser, de facto, o Homem Mais Forte do Mundo. Quem já ligou, por uma vez que seja, a Eurosport 2, certamente saberá do que estaremos a falar.

O homem mais forte do mundo pode ensinar -vos a tornarem-se tão fortes como ele… pelo menos, quase.

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Porém, o mais curioso não é existirem pessoas, como Brian Shaw, com capacidades extraordinárias – essas sempre existiram, provavelmente desde os tempos primordiais (os vikings mediam a sua força atirando troncos de madeira, os escoceses fardos de palha) – mas de os seus feitos se terem vindo a tornar cada vez mais inacreditáveis ao longo do tempo. Ora vejamos o seguinte exemplo:

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Em 1953, foi batido o record mundial de peso elevado em supino - 226 kg. O que na altura foi uma marca extraordinária, hoje é quase uma brincadeira de crianças. 500 kg é a marca record.

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Naturalmente, a evolução dos métodos de treino poderá explicar a extraordinária evolução da capacidade de elevação de pesos. No entanto, este record em particular duplicou em cinquenta anos; em que outros desportos ouvimos de uma transformação tão radical? Do mesmo modo, Brian Shaw é visto, não só como o mais forte do mundo, mas também como o mais forte de todos os tempos. A sua força, embora exponenciada através de trabalho de ginásio, é-lhe inata: ele apenas foi “descoberto” para o mundo dos Strongman quando tinha mais de vinte anos, idade na qual já demonstrava uma robustez extraordinária – um num milhão, portanto, talento raro, quase um Leonel Messi invertido. Mas será  Brian Shaw a antevisão de um futuro de homens super-humanos? Ou, pelo contrário, representará ele o limite máximo do nosso corpo no que toca ao domínio da força?

Limites?… Quais limites?

Lance Armstrong: de Deus   do desporto a vil ao universal.

Lance Armstrong: de Deus do desporto a vil
ao universal.

Havia quem o chamasse o melhor desportista do mundo; ou mesmo, porque não, o maior da história! O seu nome é reconhecido mundialmente, bem como os seus feitos extraordinários. Sete anos consecutivos conquistou a prova física e psicologicamente mais exigente. Escalou o Tourmalet, sprintou pela Riviera e cruzou a meta nos Campos Elísios, derrotando sempre a competição, a quem nunca deu qualquer hipótese. Tudo isto depois de ter vencido um cancro metastizado no sistema nervoso central… De quem é que estamos a falar? Lance Armstrong, naturalmente!

Se há menos de cinco anos o seu nome estaria associado ao Olimpo do desporto, hoje sabemos que significará para sempre uma coisa: doping. O desejo de vencer custe o que custar, de quebrar as barreiras estabelecidas pela fisiologia e chegar simplesmente um pouco mais longe. Sobre o Tour de France, a tal competição para sobre-humanos, disse ser impossível ganhar sem o recurso ao doping. “Esta é uma prova de resistência em que o oxigénio é a chave […]Eu não inventei o doping. Simplesmente participei no sistema”, referiu na famosa entrevista a Oprah Windfrey, durante a qual admitiu a sua fraude após anos e anos a recusar todas as acusações.

Do ciclismo ao atletismo, passando pelo inocente curling, quase todos os desportos existentes já tiveram o seu pequenino escândalo de dopagem

Lance Armstrong tornou-se, provavelmente, no mais claro representante da utilização de substâncias ilícitas para aumentar a capacidade desportiva (doping, ora essa!). Porém, ele é apenas um exemplo entre muitos. A começar no Tour de France, onde, entre 1996 e 2010, 12 vencedores, incluindo Amstrong, tiveram testes positivos ou assumiram a utilização de doping, passando pelo inocente curling e acabando no atletismo, quase todos os desportos existentes já tiveram o seu pequenino escândalo de dopagem (os fãs do futebol certamente lembrar-se-ão de Quim desculpando-se com o facto de ter comido leitão após testar positivo para nandrolona em 2002; ou, então dos comprimidos de dieta de Kenedy…)

Efetivamente, a relação entre desporto moderno e o doping vem desde os seus primórdios. Ora vejamos a seguinte história:

Ano de 1904, Jogos Olímpicos de Verão de Saint Louis, Estados Unidos da América. A prova é a final da maratona e o povo americano espera ansiosamente a chegada à meta dos atletas. Estamos ainda na era pré-televisão, os Jornais dominam o mundo da informação. Mais tarde, contariam que metade dos 31 atletas participantes sucumbiram ao duro calor de Agosto, desistindo. Esse não foi o caso de Fred Lorz, o primeiro a cortar a meta, recebendo aplausos da multidão e a coroa de louros da filha do Presidente Roosevelt. O problema? Este ardiloso corredor fez mais de 15 km à boleia no carro do treinador! O Comité Olímpico não ficou nada satisfeito com a brincadeira e acabou por decidir atribuir o primeiro lugar ao segundo classificado, Thomas Hicks. O assunto parecia ter assim ficado resolvido, mas algum tempo mais tarde o novo medalha de ouro admitiu ter sido injectado, a meio da corrida (!), com Estricnina. Vendo o seu atleta no beiral da desistência, o seu treinador optou por lhe administrar esta droga, juntamente com um copo cheio de bom brandy. Tudo a favor do desporto, claro! 

Em 1904, contudo, o doping ainda não era visto como um inimigo do Desporto, antes um seu aliado. O próprio relatório oficial da final da maratona terá referido que, havendo lição, do ponto de vista médico, a retirar da mesma, essa seria que fármacos podem ser muito úteis em corridas de grande distância!

Hicks e os seus apoiantes – aparentemente a maratona seria, em 1904, uma prova colectiva!

Eritropoitina, hormonas esteroides, beta bloqueantes… o número de compostos utilizados em competição é gigantesco. O controlo de substâncias dopantes nunca foi tão apertado, mas isso parece não impedir a existência de novos casos, cada vez em maior número e com um grau de sofisticação inaudito. Será este um reflexo da exigência que toda a sociedade impõe nos seus desportistas? Ou, simplesmente, a manutenção de uma caraterística milenar do ser humano – o desejo de fazer batota?

A cada dia, desejamos um novo herói, alguém que bata os seus antecessores, que seja ainda mais rápido, ainda mais alto e ainda mais forte! Jogos Olímpicos sem records batidos são de imediato considerados uma desilusão… E se um desportista pensa em abrandar o seu ritmo é logo achincalhado pela imprensa, torna-se uma deceção para os seus fãs. Eles são os nossos heróis, porque conseguem fazer o que nenhum homem é capaz – e, por vezes,  nem isso chega.