Suave Veneno

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O desenvolvimento da agricultura e da pastorícia marcaram o ponto de partida para a caminhada do Homem rumo ao domínio da arte de cultivar e criar o alimento de que necessita para sobreviver e perpetuar a espécie, abandonando a vida de caçador-recolector nómada e tornando-se independente da generosidade da natureza. Hoje, o crescimento populacional resulta numa progressiva intensificação da agricultura, que exige uma busca constante por formas de a tornar cada vez mais rentável. Mas a que preço? A FRONTAL leva-te a descobrir se a fórmula mágica para alimentar um número cada vez maior de bocas é a chave para o sucesso, ou um presente envenenado…

 

Peste e Sida?

Desde a pré-História que o Homem vem aos poucos ganhando terreno no combate às pragas com que se vê confrontado, que lhe destroem as culturas e os pastos, que lhe comprometem a viabilidade dos rebanhos. A sua principal arma são os pesticidas – produtos naturais ou fabricados em laboratório, usados para destruir pestes (entenda-se por “peste” qualquer animal, planta ou microrganismo que prolifere e viva onde não é desejado pelo Homem).

Existem vários tipos de pesticidas, dos quais são exemplos:
1. BACTERICIDAS para controlo de doenças causadas por bactérias;
2. HERBICIDAS para impedir o crescimento descontrolado de ervas daninhas;
3. FUNGICIDAS para evitar doenças causadas por fungos;
4. INSECTICIDAS para inibir a propagação de insectos.

Os argumentos a favor do uso de pesticidas na agricultura são de fácil compreensão: optimizam os processos produtivos, minimizam as perdas agrícolas devidas a pragas, pestes e doenças e, consequentemente, permitem baixar o preço dos produtos agrícolas, para além de garantirem aos consumidores produtos de alta qualidade, com melhores propriedades nutritivas, sem defeitos nem contaminação por microrganismos, fungos ou insectos. Compreendem-se menos os riscos para o consumidor, que se arrisca a ingerir um produto transformado numa verdadeira esponja de pesticidas.
Um dos fenómenos que tem suscitado algumas reservas junto dos consumidores é o efeito de bioacumulação ao longo da cadeia alimentar, que consiste no percurso do pesticida desde a planta por ele tratada, ao animal que da planta se alimenta diariamente (ingerindo doses cumulativas de pesticidas), até ao consumidor final, sob a forma de um produto alimentar desse animal derivado. Uma vez no interior do organismo humano, há ainda o risco de que a degradação do composto origine uma série de metabolitos tóxicos. Perante a inevitável presença de pesticidas, foram definidos limites máximos de resíduos (LMRs) nos alimentos, abaixo dos quais o risco para a saúde dos consumidores não é significativo. Acima dos limites discriminados os pesticidas podem ser tóxicos, corrosivos, sensibilizantes e irritantes. A toxicidade pode ser aguda (irritação oral, ocular,…) e pode ocorrer sensibilização cutânea por absorção através da pele, genotoxidade, toxidade a longo prazo/carcinogénica, infertilidade, alterações metabólicas, neurotoxidade tardia, entre outras.

consumidor arrisca ingerir uma verdadeira esponja de pesticidas

 

Alimentos geneticamente modificados

Consideram-se geneticamente modificados alimentos que contenham, ou sejam produzidos a partir de Organismos Geneticamente Modificados (OGMs). Entende-se por OGM todo o organismo cujo material genético (ADN ou ARN) tenha sido manipulado de forma a favorecer uma característica pretendida, isto é, deliberadamente alterado através de técnicas de biotecnologia. Quando essa alteração consiste na introdução de parte do material genético de uma espécie alheia transportado, por exemplo, por intermédio de bactérias e vírus, o OGM é transgénico. Dito isto, todos os transgénicos são OGMs, mas um OGM não é obrigatoriamente um transgénico. Na maior parte dos casos, os OGMs são plantas concebidas para produzir o seu próprio insecticida/fungicida ou para serem tolerantes a um herbicida, podendo dele receber doses maciças sem morrerem, ao contrário de todas as ervas daninhas. Por detrás da aprovação destes produtos estão argumentos como a possibilidade de desenvolver alimentos que actuem como vacinas ou suplementos nutricionais ou de reduzir a utilização de adubos, pesticidas e herbicidas, com as vantagens para a saúde humana que daí advêm. Contudo, não se conhecem, na verdade as consequências do consumo destes alimentos na medida em que permanecem inúmeras incógnitas acerca dos reveses da manipulação genética.

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Em Setembro de 2012 foram divulgadas as conclusões de um estudo sobre alimentação transgénica, levado a cabo pelo CRIIGEN (Committee for Research and Independent Information on Genetic Engineering) e liderado pelo professor Gilles-Eric Séralini, da Universidade de Caen, na França. A novidade assentou em dois aspectos fundamentais: em primeiro lugar foi o mais longo estudo até então realizado em torno dos efeitos secundários de OGMs e pesticidas presentes nos produtos alimentares. Em segundo lugar, foi o primeiro estudo a analisar separadamente os efeitos dos OGM e dos pesticidas a eles associados. O trabalho desenvolvido durante cerca de dois anos, testou um OGM e, em simultâneo, o principal pesticida no mercado, um herbicida pertencente à principal categoria utilizada na cultura do milho (glifosato), para distinguir se os eventuais efeitos adversos se deviam ao OGM ou ao pesticida. Até então todos os estudos em torno destes compostos tinham tido uma duração de três meses, altura antes da qual não são evidentes problemas ou interferências na taxa de mortalidade – os primeiros problemas aparecem a partir do quarto mês, inclusive.

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Ratos alimentados com OGMs

As amostras de OGM e herbicida foram colhidas a partir de sementes de milho transgénico – o NK 603 e os resultados puseram a claro o impacto do mesmo sobre a saúde dos cobaias: todos os ratos alimentados com OGM (associado ou não ao pesticida) c, sendo que a maior diferença na taxa de mortalidade foi encontrada na amostra de fêmeas alimentadas com OGM, que morreram seis vezes mais que os respectivos controlos. O facto de o número de tumores palpáveis ter sido muito maior nas fêmeas do que nos machos e de, ainda, o facto de a grande maioria destes tumores ser do tipo mamário, mesmo nos machos, sugere que haja não só um efeito carcinogénico como também hormonal por detrás destes achados. A surpresa do estudo foi constatar que a doença e mortalidade dos ratos estavam associadas sobretudo à própria transgénese e não apenas ao excesso de pesticida. Isto significa que o simples facto de intervir sobre o genoma de uma planta para o modificar pode ter consequências nefastas, embora ainda não se tenha deslindado o mecanismo: se a interferência numa via metabólica, se a má inserção do gene na planta. Contudo, é prematuro concluir que pelo facto de um OGM ter um determinado efeito que todos o terão, em maior ou menor grau.

ratos alimentados com OGM morreram mais e mais depressa que os controlos

Outros estudos investigaram a segurança do uso alimentar do milho geneticamente modificado, tendo este sido relacionado com reacções imunológicas anómalas em ratos, compatíveis com estados alérgicos, infecciosos e inflamatórios que por norma se verificam em doenças como artrite, esclerose múltipla, asma, e danos hepáticos e renais., pelo que são necessárias pesquisas profundas sobre o impacto em humanos.

Hormonas de crescimento

É do geral conhecimento o recurso a hormonas para fazer os animais jovens ganharem peso depressa, reduzir o tempo de criação e a quantidade de comida necessária para alimentar cada animal ou aumentar a produção de leite. Estas são essencialmente as hormonas esteróides sintéticas amiúde associadas ao risco de desenvolvimento de certos tumores após uma exposição prolongada.
Existem seis hormonas esteróides aprovadas pela FDA para uso na criação de gado bovino e ovino (esteróides naturais como o estradiol, a testosterona e a progesterona e esteróides sintetizados a partir de compostos de estrogénio, androgénio e progestina) e ainda a hormona rbGH para incrementar a produção de leite para a indústria de lacticínios. Uma vez que não é possível diferenciar entre as hormonas naturalmente produzidas pelo animal das exógenas é difícil determinar com exactidão quanto das últimas permanece na carne ou no leite, embora se reúnam cada vez mais esforços para criar testes cada vez mais sensíveis de medição de resíduos hormonais presentes nos alimentos de origem animal. tamanho-frango
Não há, para já, evidência científica consistente para estabelecer uma associação entre a ingestão de hormonas esteróides e a promoção de tumores mamários. O mesmo se passa em relação à hormona rbGH (Recombinant Bovine Growth Hormone) presente em lacticínios provenientes de animais tratados com a mesma, a qual, por ser digerida em pequenos péptidos e aminoácidos o que a impede de ser reconhecida como hormona pelas células humanas pelo que é pouco claro se esta poderá ou não ser responsável por efeitos indirectos, nomeadamente por estimular a produção de factores de crescimento como IGF-1 (Insulin-like growth factor 1), frequentemente associados a vários tumores. No que diz respeito a reacções alérgicas às rbGH e IGF-1 absorvidas no tubo digestivo, a FDA chegou à conclusão de que estas apenas ocorrem sob quantidades de hormonas que não é expectável que se encontrem no leite.

“Que o teu alimento seja o teu remédio…”

A utilização de antibióticos na indústria alimentar é um tema pouco consensual dada a emergência de espécies resistentes ou com resposta inadequada às doses terapêuticas habitualmente estipuladas. Poderá esta resistência ter algo a ver com a carne que consumimos? A verdade é que se reconhece o risco de transferência da resistência a antibióticos destinados a microorganismos patogénicos para os humanos, com aumento da incidência de alergias e fracasso de futuros tratamentos. Tal ocorre devido à conjugação do material genético de diferentes organismos. De facto, genes antibiótico-resistentes contidos nos alimentos transgénicos podem passar a sua característica de resistência para o consumidor, comprometendo a eficácia do tratamento de doenças para as quais a abordagem terapêutica seja o antibiótico em questão.

images-2Existe ainda longo caminho a percorrer até que toda a controvérsia em torno de pesticidas, OGM, antibióticos e hormonas de crescimento seja ultrapassada uma vez que muitos dos estudos até hoje realizados ou usam doses que dificilmente correspondem às que realmente se encontram nos alimentos, ou são realizados num período de tempo demasiado curto para uma correcta simulação dos efeitos a longo prazo da exposição prolongada a estes compostos.

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