Uma carga (de)pressão

Estar deprimido é um fenómeno civilizacional, podendo até considerar-se “um mecanismo de defesa adaptativo”. É uma patologia que tanto se pode manifestar como um sintoma de outra patologia como uma entidade clínica própria. Esta perturbação psiquiátrica, da ordem das perturbações do humor (como a doença bipolar), é um problema grave de saúde pública, atingindo cerca de 340 milhões de indivíduos um pouco por todo o mundo, sendo que a sua prevalência é maior nos países desenvolvidos onde se trata da 4ª causa de morbilidade e perda de qualidade de vida.

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Do princípio do século XX até aos nossos dias, a expectativa de vida aumentou dos 49 anos para mais de 70 anos, mudando desta forma o enfoque que anteriormente era do “quanto” se vive com depressão, para ser actualmente o “como” se vive com esta perturbação psiquiátrica.

A depressão assume, nas suas várias formas de apresentação, hoje em dia, proporções inimagináveis. No último relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS), a depressão assume a quarta causa de incapacidade entre todas as doenças, e prevê-se que em 2020 estará em segundo lugar. A nível global apenas será ultrapassada pela doença isquémica cardíaca. Assim, a importância de identificar e solucionar os sintomas depressivos torna-se crescente e até mesmo uma necessidade mundial.

Doença moderna ou atemporal?

A Depressão tem sido mencionada desde a antiguidade. No Antigo Testamento, a narrativa do Rei Saúl, assim como a narrativa do suicídio de Ajax, na Ilíada de Homero, descrevem um síndrome depressivo.

Hipócrates, um dos primeiros a referir-se ao tema, usou as definições “mania” e “melancolia” para perturbações mentais. Já no ano 30, Celsus descreve a melancolia como uma depressão causada pela “bile negra”. Esta nomenclatura continuou a ser usada por outros médicos, incluindo Arateus (120-180 a.C.), Galeno (129-199 a.C.) e Alexandre de Tralles, no século VI. No século XII, o judeu, Maimonides, conceptualizou a melancolia como uma entidade patológica dissemelhante. Nos finais do século XVII, Bobet descreveu uma doença mental à qual chamou de “maniaco-melancholicus”.

Em 1854, Falret descreveu uma condição chamada de “folie circulaire”, na qual o paciente alterna entre episódios de depressão e mania. Por volta da mesma época, outro psiquiatra francês, Jules Baillarger, descreveu a condição folie à double forme, na qual os pacientes tornam-se de tal modo deprimidos que entram num estado de estupor do qual se podem recuperar eventualmente. Em 1882, o psiquiatra alemão Kahlbaum, usando o termo “ciclotimia“, descreveu a mania e a depressão como fases da mesma doença. Sete anos mais tarde, Kraepelin descreveu uma psicose maníaco-depressiva, que já abrangia a maior parte dos critérios usados atualmente pelos psiquiatras.

Foi na era da Revolução Francesa e com o valioso contributo de Pinel que a Medicina começou a dar maior importância às doenças mentais, entre elas a Depressão. No início do século XX, a teoria do inconsciente proposta por Freud pôs em causa muitas conceptualizações preexistentes e idealizou a doença mental como um processo dinâmico e individualizado.

O que se sente?

A sintomatologia das perturbações depressivas centra-se nas alterações do humor, embora frequentemente coexistam também alterações do pensamento e ainda sintomatologia orgânica. As manifestações são muito variáveis de pessoa para pessoa, em número, em intensidade e em duração ao longo do tempo, sendo os mais frequentes:

Sintomas frequentes
  • Sintomas afectivos: tristeza, desânimo, ansiedade, irritabilidade, apatia, anedonia;
  • Sintomas cognitivos: lentificação, carácter negativo, perda de auto-estima, ideação de culpa, ideação suicida;
  • Sintomas somáticos: astenia, insónia/hipersónia, alterações do apetite e peso, queixas álgicas, perturbações gastrointestinais e disfunção sexual;
  • Sintomas motores e comportamentais: alterações psico-motoras, isolamento social, tentativas de suicídio.

Porquê?

A fisiopatologia de base desta doença não está totalmente esclarecida. Actualmente a evidência aponta para uma interacção complexa entre a disponibilidade de neurotransmissores e a regulação dos seus receptores. Alguns estudos, clínicos e pré-clínicos, sugerem que uma alteração no sistema nervoso central ao nível da actividade serotoninérgica é um factor importante, sendo que também se fala noutros neurotransmissores implicados como a norepinefrina, a dopamina, o glutamato e o factor neurotrófico derivado do cérebro. No entanto, as drogas que produzem um aumento agudo da disponibilidade destes neurotransmissores, como a cocaína e as anfetaminas, não parecem ter eficácia a longo prazo, ao contrário dos antidepressivos.

O que se espera e o que fazer?

Desde ligeiro a grave, um episódio depressivo tem um potencial significativo de morbilidade e até de mortalidade, uma vez que contribui grandemente para as taxas de suicídio, para a maior incidência de diversas doenças e suas complicações, para a disrupção das relações interpessoais, para o abuso de substâncias e para a incapacidade de trabalho.

E muitas vezes, quer pelo próprio que se entrega à tristeza, quer pelo outro que se legitima pela incompreensão, esta é uma patologia carregada de estigma, e para isto contribuem especialmente os profissionais de saúde, caracteristicamente pouco sensíveis a esta temática e à área da Saúde Mental em geral. No entanto, com uma abordagem terapêutica correcta cerca de 70-80% dos indivíduos com depressão podem alcançar uma redução significativa nos sintomas, e muitas vezes promover a melhoria do prognóstico das possíveis co-morbilidades.

A educação tem um papel importante no sucesso do tratamento. Ao longo do tempo os doentes podem tornar-se mais críticos e atentos aos sinais depressivos e podem procurar ajuda mais precocemente, o que também se traduz numa melhor adesão terapêutica. Os familiares devem ser envolvidos no processo, de acordo com a natureza da doença e especialmente nos extremos da idade, para além de que são fontes de informação importantes, podem ajudar no cumprimento terapêutico e acima de tudo são elementos essenciais para encorajar o doente a alterar os comportamentos que perpetuam a depressão.

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Como lidar?

A medicação farmacológica pode ser uma grande ajuda em fases mais agudas ou mais graves da doença, no entanto, é importante desmascarar a causa que poderá estar na base da sintomatologia depressiva e para isso serve essencialmente a conversa. Conversar, quer em regime de psicoterapia quer com amigos, familiares e colegas, é muitas vezes a melhor forma de aliviar a carga de tristeza que assombra uma pessoa e de chegar ao cerne do problema. A partir daí, com o fio condutor encontrado, o caminho a percorrer avista-se menos enevoado e as estratégias tornam-se mais praticáveis.

Outras tácticas igualmente importantes são a prática de algum tipo de exercício – aeróbico, força ou flexibilidade, tanto correr, levantar pesos ou fazer yoga – e comer bem – praticar uma alimentação saudável, entenda-se equilibrada – contribuem para uma mente sã.

Como ultrapassar a depressão de forma 'natural'?

Uma vida depressiva

My Depression, um filme de Robert Marianeti, lançado em 2014, retrata, em formato de animação, a história da vida de uma mulher com depressão e as dificuldades consequentes.