Por falar em Alimentação: Universidade, um ponto de viragem na alimentação?

Na terceira crónica da série sobre alimentação debruçamo-nos sobre os hábitos alimentares dos universitários. Há cada vez mais jovens portugueses a ingressar no ensino superior. A nova realidade que enfrentam favorece, muitas vezes, uma mudança repentina nos seus estilos de vida e hábitos alimentares. A caricatura da refeição típica do estudante universitário é um prato de massa com atum. Mas será a alimentação dos universitários de facto desadequada?

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Nos últimos 20 anos, verificou-se um grande aumento no número de estudantes nas universidades portuguesas, com 45 032 novos alunos a matricularem-se no ensino superior só em 2016.

A entrada para a faculdade é, portanto, uma etapa comum a grande parte dos jovens e está muitas vezes associada a uma mudança repentina no estilo de vida. Esta acompanha-se por alterações significativas nos hábitos alimentares que merecem atenção, uma vez que uma alimentação adequada nesta fase é crucial não só para satisfazer a elevada necessidade de nutrientes na reta final do crescimento, mas também à manutenção da saúde física, à promoção de uma trajectória de peso saudável e à potenciação do sucesso escolar.

A estas razões acrescenta-se o facto dos padrões alimentares estabelecidos durante o início da vida adulta serem usualmente mantidos para o resto da vida. Tal toma especial relevância pois, de acordo com a Organização Mundial de Saúde, 80% dos casos de doenças cardiovasculares, 90% dos casos de Diabetes Mellitus tipo 2 e 33% dos casos de todos os tipos de cancro poderiam ser evitados pela adoção de estilos de vida saudáveis, nomeadamente através do consumo regular de alimentos com baixa densidade energética e ricos em micronutrientes. 

Ou seja, as escolhas alimentares dos estudantes universitários podem influenciar a sua futura qualidade de vida.

A vida universitária parece propiciar, contudo, uma alimentação instável, desequilibrada e pouco variada. De facto, um estudo do Instituto Politécnico de Viseu (IPV) mostrou que o padrão alimentar dos estudantes universitários caracteriza-se por um consumo predominante de carne, cereais, gorduras e açúcar. Outro, conduzido pela Universidade do Porto (UP), completa a lista com bolachas e fast food.

Ambos revelaram que a ingestão de produtos lácteos, fruta, hortícolas e leguminosas por parte dos alunos destas instituições não satisfaz as recomendações das porções diárias para cada grupo de alimentos da Nova Roda dos Alimentos Portuguesa, que preconiza que a ingestão de fruta deve corresponder a 3 – 5 porções diárias (uma porção equivale aproximadamente a uma peça de fruta de tamanho médio – 160g), de leguminosas a 1 – 2 porções diárias (aproximadamente 180g após confeção), 2 – 3 porções de produtos lácteos e para as hortícolas 5 porções diárias ou aproximadamente 700g se cozinhadas.

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Há também evidência de que os maus hábitos alimentares tendem a agravar com a permanência no ensino superior, sendo frequente a falta de variedade dos alimentos ingeridos, a ingestão de snacks fora das refeições ou a omissão destas.

Importa salientar que, embora o IPV tivesse concluído que a maioria dos estudantes é normoponderal, as alterações alimentares que se verificam nalguns indivíduos condicionam ganho de peso corporal. Por sua vez, o excesso de peso aos 18 anos encontra-se fortemente associado ao aumento do risco de excesso de peso na vida adulta.

Percebeu-se ainda que a presença da família é, possivelmente, uma influência positiva nos hábitos alimentares e alimentos consumidos, uma vez que os inquiridos que não residem com a família têm um consumo mais frequente de alguns alimentos mais fáceis de preparar, na sua maioria de baixo valor nutricional, como peixe de conserva, croquetes, rissóis, bolinhos de bacalhau e maionese.

Outra conclusão do estudo da UP foi a de que os estudantes que regularmente preparam as suas refeições em casa com os ingredientes por eles comprados têm uma alimentação de qualidade superior, bem como uma menor ingestão de refeições tipo fast food.

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Posto isto, o IPV explica os resultados obtidos pelas alterações comportamentais associadas à transição entre a adolescência e a idade adulta, mas também pela maior independência face à família que o ingresso no ensino superior frequentemente facilita. Aliás, este fator é preponderante, uma vez que obriga muitos jovens a seleccionar autonomamente os alimentos no supermercado e a preparar as suas refeições, apesar das fracas aptidões para o fazer e do pouco tempo disponível para cozinhar, dando-lhes ainda liberdade para definir os horários das refeições. As restantes determinantes para o padrão alimentar do jovem adulto universitário são, entre outras, a procura de conveniência, a influência de amigos e o ambiente envolvente.

O dado mais surpreendente surge na constatação de que a maioria dos universitários considera seguir o que entende como uma “dieta saudável”, isto é: equilibrada, variada e que inclui mais frutos e hortícolas, menos carne, mais peixe e menor quantidade de gordura. Porém, tal não se encontra de acordo com o consumo alimentar observado nestes estudos.

Resumindo, os estudantes universitários portugueses têm uma alimentação inadequada, em que predominam alimentos ricos em gorduras e proteínas e a ingestão deficitária de frutas, hortícolas, leguminosas e produtos lácteos, consequência do estilo de vida que adotam durante a permanência no ensino superior.

Confirma-se, assim, que a vida universitária contribui para o afastamento progressivo dos princípios básicos de uma alimentação saudável que se tem vindo a verificar na dieta portuguesa, o que tem um impacto negativo na saúde pública, pelo que se torna mandatória a implementação de estratégias a este nível.

Por um lado, as universidades, enquanto meios de interligação entre o conhecimento e os estudantes, devem encorajar a realização de escolhas alimentares adequadas e estilos de vida saudáveis. Por outro, as unidades de alimentação universitárias têm uma responsabilidade acrescida, uma vez que o número de estudantes que realiza as suas refeições nestes locais é cada vez maior.

A oferta de ementas equilibradas, variadas e apelativas permite uma correta adequação nutricional aos seus utilizadores, podendo ainda funcionar como veículo de educação alimentar para quem as frequenta.

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Em conclusão, os hábitos alimentares dos universitários portugueses são influenciados por inúmeros fatores que decorrem da tumultuosa transição para a vida do ensino superior, muitos destes externos aos próprios estudantes. No entanto, a alimentação é uma opção pessoal de cada um, sendo responsabilidade do próprio zelar pela sua saúde. Alertar para a existência de um problema nesta população, que considera ter uma alimentação equilibrada, é o primeiro passo para que os intervenientes possam agir de modo a causar um impacto positivo, tanto no seu bem-estar como na sua saúde.

Bibliografia
  • Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto, Instituto do Consumidor. A NOVA RODA DOS ALIMENTOS… um guia para a escolha alimentar diária! [folheto explicativo]. Porto:Garra 2003. Disponível em https://www.dgs.pt/promocao-da-saude/educacao-para-a-saude/areas-de-intervencao/alimentacao.aspx  [consultado a 13 de abril de 2017] 
  • Guo SS, Roche AF, Chumlea WC, Gardner JD, Siervogel RM. The predictive value of childhood body mass index values for overweight at age 35 y. Am J Clin Nutr 1994;59:810–9.
  • Martins, M. J. R. L. Hábitos alimentares de estudantes universitários. Porto: Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto; 2009.
  • Rodrigues, T. H. Avaliação dos Hábitos Alimentares de Estudantes do Ensino Superior. Viseu: Escola Superior Agrária de Viseu do Instituto Politécnico de Viseu; 2012. 

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