Nem só de pão vive o Homem. Para além da fome, a carência alimentar

As dificuldades económicas, sentidas um pouco por toda a sociedade, vieram redefinir o conceito do “essencial” na alimentação. Até que ponto será possível optimizar o aporte nutricional com pouco dinheiro?

[IMAGEM DE CAPA] FoodRevolution-31_600

O contexto de crise económica global em que vivemos veio condicionar, em grande medida, a qualidade e o modo como a população portuguesa se alimenta. E não precisamos de estudos (embora existam) que atestem a verosimilhança do fenómeno, pois de algum modo já testemunhámos ou experimentámos algum tipo de restrição, em maior ou menor escala. As enfermarias hospitalares, por exemplo, oferecem uma amostra preocupante quer do estado nutricional, quer das consequências do seu depauperamento para a saúde e para a convalescença de outras condições patológicas. No internamento, e sobretudo entre os idosos, não é raro encontrar valores séricos de proteínas reduzidos, o que constitui risco aumentado de desenvolvimento das tão frequentes úlceras de pressão, bem como vêm comprometer os processos de cicatrização; por outro lado, sobre certos tipos de anemias se pode aferir um aporte nutricional deficiente (Ferro, Ácido Fólico, Vitamina B12). O leque é vasto, mas discreto. E poderíamos continuar.

Contudo, será a crise económica o primo movens dos desequilíbrios nutricionais que hoje testemunhamos, ou estaremos perante o final do paradigma das últimas décadas, sustentado no binómio marketing/oferta-procura? Segundo a Professora Doutora Isabel do Carmo, médica endocrinologista do Hospital de Santa Maria, que trabalha no âmbito da obesidade e comportamento alimentar, “Portugal come mal. E comer mal não é só não ter o que comer, mas também fazer más escolhas alimentares”.

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Back to the basics: a responsabilidade do marketing

A acompanhar as transformações nos hábitos da população, também a indústria começa a adaptar, se não os seus moldes de produção, seguramente os moldes de campanha. Um pouco por todo o lado se vai redefinindo o conceito de “essencial”, sugestionando assim uma hierarquia de prioridades no consumo alimentar, que nem sempre vai de encontro às reais necessidades das famílias: ficam de fora nutrientes cuja ausência crónica se prevê que tenha impactes na saúde; e incluem-se outros, excedentários, deixando a ilusão de suprimento e repleção. Analisemos alguns exemplos: uma conhecida cadeia de supermercados organiza uma campanha promocional com os produtos que, segundo a mesma, “não podem faltar à sua mesa”. Nesse catálogo encontramos, entre outras poucas coisas, arroz branco, massa e batata (a representar o núcleo energético de hidratos de carbono), pão branco, frango, peixe congelado, enlatado e ovos (secção mais proteica), legumes congelados e couve (a representar os hortícolas), óleo alimentar e azeite refinado (gorduras), salsichas e refrigerante.

O ciclo oferta-procura-oferta é complexo, mas se no lado da procura analisarmos os factores com maior influência na escolha alimentar, teremos um vislumbre de parte do problema. Foi o que fez o estudo “Alimentação e Estilos de Vida da População Portuguesa”, planeado e promovido pela Sociedade Portuguesa de Ciências da Nutrição e Alimentação (SPCNA), com o apoio da Nestlé, “no âmbito de um protocolo de mecenato científico entre as duas instituições”, que avaliou 3529 portugueses com mais de 18 anos. Quando inquiridos sobre os factores determinantes na dieta, surge à cabeça o “sabor dos alimentos” (53%), seguido a alguma distância por “preço” e “tentar fazer uma alimentação saudável” (este último de forma marcada no sexo feminino). Daqui se pode inferir a importância do prazer nas refeições, moderadamente espartilhada pela consciência do peso da alimentação no estado de saúde.

[imagem 1] Factores determinantes na escolha alimentar

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Campanhas de recolha de alimentos: o que doar?

Promovidas por vários movimentos mais ou menos organizados a nível local ou nacional, as campanhas de recolha de alimentos têm conhecido um reflorescimento, cumprindo o propósito de redistribuir os recursos e evitar o desperdício (re-food.org), ao fazer chegar os alimentos a quem deles precisa, e ao estimular a participação colectiva nas doações.

Um dos principais motores na área, o Banco Alimentar Contra a Fome, para além das grandes campanhas de recolha em supermercados realizadas duas vezes por ano, regista da sua última campanha online (alimentestaideia.net) a recolha de 113 toneladas de alimentos. Entre os donativos estão azeite, óleo, atum enlatado, leite, salsichas e açúcar branco. Sugerem-se também as farinhas lácteas para crianças e adultos, pela suplementação em vitaminas e minerais, e as leguminosas secas ou entaladas como feijão ou grão (pelo teor proteico e em fibras). As escolhas incidem, naturalmente, em produtos não perecíveis, de baixo custo, fácil acondicionamento e prazo de validade alargado, num complicado balanço entre o necessário e o possível. Poderá o possível ser melhor, gastando pouco?

[IMAGEM 2] banco alimentar contra a fome

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“Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe”

É mais difícil controlar o balanço de nutrientes que se ingere quando a oferta se resume, maioritariamente, a matérias sobreprocessadas. Razão pela qual pensamos nas coloridas prateleiras de cereais de pequeno-almoço quando nos perguntam “que cereais come?”, em leite e iogurtes quando se fala em cálcio, em carne para “não cair em anemia”, ou limitamos o potencial energético do nosso prato a uma de três escolhas: “arroz, massa ou batatinha?”.

Pensando nos cereais, sabe-se que foram desde muito cedo a base da alimentação. Quando deles se começaram a produzir farinhas, faziam-se as chamadas “papas” de milho, trigo, mandioca, arroz, entre muitos outros. Acontece que esses cereais eram consumidos na sua forma integral, isto é, sem a refinação que hoje industrialmente se faz para remoção das camadas mais externas, farelo e gérmen, onde se encontram as vitaminas (complexo B), minerais, fibra e ácidos gordos (ómegas 3-6), consumindo-se apenas o endosperma, meramente rico em hidratos de carbono. Quanto aos tais “cereais de pequeno-almoço”, como seria de esperar, sobre o risco-benefício as posições são controversas (afloc.eu) .

Também as leguminosas parecem ter um consumo aquém do recomendado (observatorioagricola.pt). Feijão, grão, lentilhas, favas ou ervilhas podem oferecer o complemento perfeito numa refeição, uma vez que constituem fonte não só de fibra como de proteína (aminoácido essencial lisina, que com o aminoácido essencial metionina, presente preferencialmente no arroz integral, constitui uma refeição mais completa de proteína).

Frutos e hortículas, que deveriam ser consumidos preferencialmente frescos, além de apresentarem uma redução no consumo, quando utilizados aparecem “mascarados” nos pratos, excessivamente cozinhados, com perdas vitamínicas importantes no processo de cozedura.

[IMAGEM 4] rodas dos alimentos portuguesas

Não nos querendo isolar na perspectiva nutricional, importa pensar nos custos que alterações como estas comportam. A oferta em alimentos integrais está à sombra dos refinados em quantidade e com algum agravamento no preço. Contudo, se pensarmos no preço ao quilo e no facto de um alimento mais completo dispensar outros acessórios, talvez faça sentido repensar a escolha. Quanto às leguminosas e aos vegetais, a tónica não parece ser tão justificada pelo preço como por uma certa ideia de os vegetais serem “figurantes” no prato.

No fim de contas, sempre podemos comer feijão com arroz como se fôssemos príncipes. E afinal nem estaremos assim tão mal servidos.

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