PLENÁRIA I: Curriculum Vitae em Medicina

Até recentemente, Medicina encabeçava a restrita lista de cursos aos quais se associava uma taxa de desemprego de 0%. Na conjuntura atual, porém, o ingresso na formação médica deixou de conferir aos recém-diplomados passaporte garantido para o mercado de trabalho, o que em parte se deve ao desadequamento do numerus clausus global. Assim, uma das formas de perspetivar o desemprego médico e maximizar as oportunidades de trabalho passa necessariamente por construir um curriculum plural e competitivo. Esta foi, de resto, a temática privilegiada para a Sessão Plenária I daquela que é a 4ª edição do CNEM. A Frontal esteve presente e dá-te a conhecer o que de mais relevante se debateu!

A primeira Sessão Plenária – “Curriculum Vitae em Medicina” – foi inaugurada pelo Dr. Miguel Pereira, que atribuiu a tónica da sua palestra ao papel da investigação no âmbito da formação médica pré-graduada, seja ela de cariz básico (bench), translacional (bench-to-bedside) ou clínico (bedside).

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Compatibilizar a prática de investigação científica com o curriculum médico constitui um desafio capaz de intimidar mesmo o mais entusiasmado e capacitado dos estudantes. Citando o Dr. Dan Rubin (MD, PhD):

there’s just one problem with doing research while in medical school: you’re in medical school

Não obstante, é evidente que o envolvimento em trabalhos de investigação contribui para valorizar diferencialmente o currículo académico, por razões que ultrapassam largamente o espetro da experiência cumulativa per se: desde a participação em cursos, seminários e/ou workshops ao incremento das chamadas soft skills – das quais a comunicação escrita e oral, por meio de publicações e apresentações científicas; a capacidade de resolução de problemas/concretização de ideias; o trabalho em equipa e a otimização na gestão do tempo. Ademais, o caminho para te tornares um physicianscientist pode estar à simples distância de um e-mail: com efeito, e à luz da sua própria experiência pessoal, o Dr. Miguel Pereira sugere que o estudante interessado em tal percurso comece por contactar via correio eletrónico os investigadores principais dos projetos, adiantando as suas expectativas e motivações. Por que não, afinal?

Integrares-te numa equipa de investigação, participares na organização de um congresso ou assumires cargos em associações diversas são atitudes que concorrem para tornar o teu CV exemplar, na medida em que fortalecem a tua experiência educacional/profissional e potenciam a aquisição de qualificações em múltiplos domínios. Funcionam, consequentemente, como fatores diferenciadores, cuja importância se engrandece ao considerar-se o tempo investido pelos recrutadores na primeira análise do CV.

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Pois bem: em média, quanto tempo crês que um entrevistador dispense a considerar uma dada candidatura? Alguns minutos, pelo menos… certo?

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A primeira análise quantitativa a dar uma resposta cientificamente válida à questão anterior foi publicada em 2012 pela TheLadders, um portal americano especializado no recrutamento online. Através de tecnologia “eye-tracking”, os autores deste artigo vieram a concluir que os empregadores demoram, na verdade, cerca de 6 segundos a avaliar o grau de interesse de cada résumé. Ora, o facto de o empregador estar apto a fazer uma das primeiras triagens do candidato em apenas 6 segundos atesta o quão determinantes para o sucesso podem ser as soft skills.

A Prof. Dra. Maria Amélia Ferreira, segunda interveniente na Sessão Plenária, começou por defender a necessidade de integrar as humanidades médicas no core curriculum com vista à «formação integral dos estudantes de Medicina». Com efeito, em paralelo às competências cognitivas e técnicas, o profissionalismo médico nas áreas clínicas deve ser regido pela «gestão adequada e ética do conhecimento», englobando os três instrumentos que já em 1984 W. W. Benjamin considerou sine qua non para a prestação de cuidados («the herb, the knife and the word»).

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De acordo com um dos estudos citados pela Professora, o racional para esta reforma curricular passa pela constatação de que «studying the human condition from the perspective of one of the arts or social sciences may lead students to a fuller understanding of their suffering patients» (Making room for medical humanities, 2002). Com base no exposto, a pirâmide de Miller originalmente proposta nos anos 90 foi sujeita a uma nova versão, na qual a sua porção apical é ocupada não pelo “saber fazer” mas pelo “ser”. Afinal de contas,

the fundamental uncertainties that underscore clinical decision making and the ambiguities that permeate medical practice require a professional presence that is best grounded in what one is rather than what one does (Amending Miller’s Pyramid to Include Professional Identity Formation, 2016).

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A capacidade de mudança e de adaptação à incerteza constituem outra das linhas de enfoque da apresentação da Professora Maria Amélia, que se suportou num estudo publicado no NEJM em 2016: «many current medical students, the digital natives, seek structure, efficiency, and predictability; they insist on knowing “the right answer” and are frustrated when one cannot be supplied» (Tolerating uncertainty: the next medical revolution). É, pois, de suma importância que a máxima do célebre William Osler«medicine is a science of uncertainty and an art of probability» esteja bem presente, não só entre a atual geração de centennials como também nos restantes elos da comunidade educativa.

Foi abordada, ainda, a importância inerente à «transformação do conhecimento em potencial de ensino/aprendizagem e em valor de mercado», com referência aos seis “C’s” que devem orientar a metodologia educativa em geral: colaboração, comunicação, conteúdo, crítica, criatividade e confiança. «After all» lê-se no artigo We Feel, Therefore We Learn (2007), de que António Damásio é coautor –, «we humans cannot divorce ourselves from our biology, nor can we ignore the high-level sociocultural and cognitive forces that make us special within the animal kingdom. When we educators fail to appreciate the importance of students’ emotions, we fail to appreciate a critical force in students’ learning. One could argue, in fact, that we fail to appreciate the very reason that students learn at all». Estaremos num período de evolução, de extinção ou de revolução do atual conceito de universidade? Uma certeza resta, pelo menos: a de que «whatever a university looks like today, it seems certain that the universities of 2030 will look very different» (como se pode ler no Editorial da edição de outubro de 2014 da Nature).

A Dra. Paula de Jesus, última palestrante daPlenária I, proferiu uma apresentação de cariz eminentemente pessoal, da qual concluiu que «criar o futuro e simultaneamente a realização profissional é o desafio». Citando Louis Menand:

The pursuit, production, dissemination, and preservation of knowledge are the central activities of a civilization. Knowledge is social memory, a connection to the past; and it is social hope, an investment in the future. The ability to create knowledge and put it to use is the adaptive characteristic of humans. It is how we reproduce ourselves as social beings and how we change—how we keep our feet on the ground and our heads in the clouds

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