Este mundo em que vivemos

Mais cedo ou mais tarde, vamos depararmo-nos com más notícias. Quando o momento chegar, tão importante é saber dá-las como aprender a recebê-las. 

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Fotografia: Pedro Monteiro Palma

Todos os dias, no comboio, vejo o mar. Com mais ou menos sono, mais ou menos atenção, a vasta massa de água, ondulando serenamente com a ponte ao fundo da paisagem, nunca deixa de me surpreender. A natureza tem destas coisas.

Mais um ano que começa e com ele regressa a rotina dos estágios, dos trabalhos, das avaliações. Nada parece perturbar este quotidiano que, embora atarefado, não tarda em tornar-se monotonamente aborrecido.

Até que chega um dia em que tudo muda. Inevitavelmente, surgem acontecimentos que põem em causa tudo aquilo que conhecemos e a bolha em que vivíamos rebenta. Como médicos, somos obrigados a lidar com más notícias. E como correm depressa as más notícias… A comunicação social (uns mais do que outros) alimenta-se de más notícias. A tragédia alheia é noticiada com o furor dos repórteres no local e o choque das testemunhas. A frequência destas notícias torna-as banais para o anónimo que as lê e o sensacionalismo desvirtua a realidade. Não nos esqueçamos de que, por detrás das letras garrafais que fazem manchete, estão pessoas em sofrimento. Pessoas que merecem respeito porque o inimaginável aconteceu e o inacreditável é real.

Em Medicina, as más notícias são de outra índole. Os avanços científicos e tecnológicos são tais que, quando a doença surge, é rara a situação em que não há nada que se possa oferecer. Mas também aqui surgem surpresas devastadoras e também aqui as más notícias correm depressa. O anónimo reage: “Que chatice… Muito, muito chato.” Uma unha encravada que teima em inflamar, chateia. Pernas cansadas ao final do dia por válvulas venosas defeituosas, isso é chato. Um tumor oclusivo do cólon numa jovem de 30 anos, recém-casada, que tem de adiar a lua-de-mel para ser operada de urgência não encaixa propriamente na minha definição de “chato”. Estas notícias são verdadeiros terramotos para o doente e para os familiares. Porquê a mim? Porquê agora? Nada do que se possa dizer altera a realidade. Enquanto médicos, é-nos exigida atenção e empatia, que sejamos um pilar de segurança num mundo que desaba. E alento, mantendo a expectativa de que, um dia, a bolha irá reconstituir-se e a monotonia regressará.

Entretanto, no comboio, olho para o mar e sorrio.

(Qualquer semelhança com a realidade, não é mera coincidência.)

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