Dar à Luz na Idade das Trevas

Dar a luz na idade das trevas 2

A Idade Média estendeu-se por quase um milénio. Nesse tempo a Medicina resumia-se quase exclusivamente à análise de manuscritos hipocráticos ao invés do estudo de doentes in vivo. Era exigido aos médicos europeus e árabes o conhecimento teórico obstétrico-ginecológico. Todavia a inspeção das “partes vitais femininas” era-lhes deontologicamente interdita. Excetuavam-se os partos na alta sociedade, em que era concedida a presença do médico, embora este tivesse que aguardar fora do quarto pelo final do procedimento realizado pela parteira. Os livros médico-cirúrgicos da época refletem precisamente esta evidência, pois as poucas recomendações existentes para o parto resumem-se apenas àquilo que a parteira deveria realizar numa ou outra situação.

À época já se dedicava atenção ao cuidado pré-natal. Sendo então a obstetrícia de carácter mágico, considerava-se que o recém-nascido seria deformado se a mulher grávida blasfemasse ou rogasse pragas. A feitiçaria era efetivamente um traço dominante. [pullquote]Acreditava-se (…) que a cura de certas patologias era a prática sexual per se[/pullquote]Acreditava-se que era a histeria feminina que mantinha o útero in situ (útero é uma palavra latina com raiz grega: hystera; pensava-se que era esta a sede dos chamados traços de personalidade histéricos femininos) e que a cura de certas patologias era a prática sexual per se. Até a infertilidade era já alvo de reflexão: sugeria comummente a parteira que se envolvesse sementes de farelo em dois vasos e que a mulher urinasse num deles e o homem no outro. Se ambas as sementes se desenvolvessem, ambos eram férteis e a parteira procedia ao desenvolvimento de poções.

Séculos passados, à época do Santo Ofício e por práticas semelhantes, muitas parteiras foram acusadas de bruxaria e condenadas à morte. No início do século XVII, graças ao britânico W. Smellie, houve uma inversão histórica com a sua dedicação à obstetrícia através do estudo de mulheres de baixo estrato social (que atraiu inúmeros discípulos), tendo a sua devoção culminado com a construção da primeira enfermaria obstétrica inglesa em 1739.

[pullquote align=”right”]A mortalidade infantil (…) afirmou-se como a exceção e não a regra deste intrigante processo que é, e sempre foi, dar à luz.[/pullquote]Graças a este primeiro passo vemos hoje em dia o predomínio da ciência e da evidência como bases da arte que continua a ser a obstetrícia. Vivemos uma nova era, onde a mortalidade maternoinfantil atinge valores cada vez mais reduzidos. Em certas áreas afirmou-se como a exceção e não a regra deste intrigante processo que é, e sempre foi, dar à luz.

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João Borba Martins é aluno do 4.º ano da FCM-NOVA. Nascido em Lisboa, cresceu no concelho de Oeiras e ingressa no ensino superior em 2009, no Mestrado Integrado em Medicina da Faculdade de Ciências Médicas. Colabora atualmente com o Departamento Universitário de Anatomia. A seu cargo está a secção de Política Médica da FRONTAL online, bem como a secção Temporal, onde reflecte sobre a evolução do conhecimento médico com a abordagem de curiosidades históricas. Os seus interesses pessoais, além da leitura, História e Política, abrangem o Futebol, o Cinema e a Música, nomeadamente o estudo do piano.

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