Médicos Storytellers

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“Nestes dias assim de trabalho profissional intenso, cada sintoma pesado numa balança de precisão, cada golpe do bisturi na tangente do erro que o tornaria fatal, o poeta que dentro de mim não se resigna, nem se cala, acaba por me irritar como uma criança importuna e teimosa. (…) E nem a paz do dever cumprido saboreio quando dispo a bata. É como se um sacerdote acabasse de rezar uma missa em pecado mortal, com o diabo no corpo”

(Miguel Torga, Diário,10 de Novembro de 1955)

 

De bata vestida e o diabo no corpo. É assim que Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia Rocha, descreve um dia comum no casamento entre a sua profissão de médico e o ofício de escritor. A ideia que fica é que o génio, ou o que seja esse primo movens que reconhecemos em muitos artistas e pensadores, tem tantas vezes a virtude de dar a ver o imperceptível (daí que nos pareçam visionários), mas é amiúde desviante, como uma criança, uma brincadeira que distrai em momentos sérios.

O que se espera de um médico é só quase tudo. Que seja homem, mas máquina: já aqui explorámos esse binómio difícil – e é outro casamento no qual não nos queremos intrometer. Lembremo-nos apenas disto: que desejamos um médico disponível, que nos receba e dedique inteira atenção, como se fôssemos o seu primeiro doente num dia bom. Idílico. Mas na verdade, se nos concederem a oportunidade de assistir a um par de horas em urgência hospitalar, num dia daqueles, com uma sucessão de problemas e situações que nos parecem de um filme vivo em rodagem, compreendemos como pode ser difícil a relação médico-doente: do mais singular que se  pode conhecer.

 Um médico que escreva

Outra das coisas que se espera de um médico, é que saiba escrever. Não grosseiramente isso: um médico que saiba escrever histórias. Aparecendo desde cedo na sua formação, a história clínica é a pedra basilar em qualquer acto médico. Longe de ser um procedimento tipo pergunta-resposta, como num inquérito, é a arte de registar o importante, de forma concisa, certeira e inteligível, para a posteridade. Há quem diga que o estilo literário que mais se lhe assemelha é o policial, numa espécie de perseguição ao culpado – não o homem, mas a doença. O próprio modo como dizemos: “colher” uma história, como certos frutos no rodar das estações; o doente que “dá” história, como sendo afinal o doente o seu contador; ou mesmo “tirar” a história, e aqui a coisa ganha o tom de possessão. É também assim que Billy Collins descreve as tentativas de interpretação de um poema pelos seus alunos, em Introduction to Poetry: “mas tudo o que eles querem fazer / é amarrar o poema a uma cadeira / e torturá-lo para extrair uma confissão”. O doente senta-se e o médico começa.

Há quem diga que o estilo literário que mais se lhe assemelha é o policial, numa espécie de perseguição ao culpado – não o homem, mas a doença

Queimar depois de ler?

Romances inteiros em bases de dados hospitalares. Dispersos, aliás, entre os vários hospitais, centros de saúde, consultórios… Romances fragmentários, em acrescento perpétuo. Aqui o meu fígado, ali o meu olho direito conjuntivítico. É curioso que só excepcionalmente aqueles sobre quem se escreve alguma vez o lerão, mesmo que o requeiram, e por isso é com alguma desconfiança que às vezes perguntam “que está aí a escrever sobre mim?” ou “que escreveu aquele outro médico, Doutor?”.

Romances inteiros em bases de dados hospitalares. Dispersos entre os vários hospitais, centros de saúde, consultórios…

Estas são histórias de médicos para médicos. Nunca ninguém nos disse que esperava de nós, afinal, escritores-fantasma. Nunca ninguém nos disse que estas histórias não são gente.