Entrevista com Bart Knols

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O Professor Bart Knols dedica a sua vida a lutar contra a sua maior paixão… E o seu maior inimigo: mosquitos. Tem um orgulho bastante intenso por ter descoberto que o queijo limburger atrai os mosquitos da malária, razão pela qual recebeu nada mais, nada menos, do que um Ig Nobel, em 2006. E esta relação amorosa entre queijo e mosquitos vai muito mais além do que um mero interesse gastronómico – marca o início da utilização de fungos contra esta pandemia.  Em 2007, o Professor Knols foi premiado com uma medalha Eijkman, o prémio mais honroso no campo da medicina tropical e da saúde internacional da Holanda.

Esta manhã, o Professor Knols explicou à Revista FRONTAL um pouco mais sobre o seu trabalho e, no meio de risadas e de piadas com mosquitos, percebe-se agora que o mundo da malária poderá estar um pouco mais perto do fim.


Dos vários métodos “fora da caixa” que o Professor investiga, a utilização de fungos, cães e comprimidos, qual deles acha, e porquê, mais próximo de se tornar uma realidade?

Existem vários métodos de que gostaria de explorar, mas explorar não significa que a ferramenta estará, na prática, no mundo real. Se me perguntarem agora qual o método que vejo com maior potencial, então seria a utilização de fungos. O controlo biológico dos mosquitos utilizando fungos é importante porque, se o fungo está a infectar o mosquito, está a produzir muitas toxinas, químicos diferentes: não é como um insecticida. Se temos um insecticida e o usamos contra o mosquito, então o mosquito morre, mas desenvolve resistência contra o insecticida muito rapidamente. Com fungos há um controlo biológico: ataca-se o mosquito com muitos compostos de uma só vez e, portanto, a probabilidade de se desenvolver uma resistência contra o fungo é muito, muito pequena. O desafio é garantir que o fungo sobreviva tempo suficiente na natureza enquanto o utilizamos para infectar os mosquitos. Assim que conseguirmos isso, assim que tivermos um fungo que dure seis meses ou mais, estamos bem.

Imagine um mundo livre de malária, doença do sono e dengue no futuro. Teriam emergido entretanto outras doenças infeciosas a grande escala, ou será que é possível estar um passo à frente da natureza e viver um mundo livre de epidemias?

Todos os dias na Europa, de manhã cedo, há 5000 aviões a levantar voo, 5000 aviões com cerca de 200 pessoas, todas as pessoas com 5 litros de sangue. São 5 milhões de litros de sangue a levantar voo, só na Europa, em cada dia do ano. Por todo o mundo, há uma piscina de sangue a 10 km de altitude que tem mais de 10 milhões de litros. E os patogéneos, vírus, bactérias, parasitas, qualquer coisa que nos possa infectar, estão a viajar à volta do mundo a uma velocidade sem precedentes. Portanto, um patogéneo que agora está algures numa caverna em Bornéu, escondido algures num lago, e que pode matar milhares de pessoas, pode sair dessa caverna, entrar num avião e, em pouco tempo, dar a volta ao mundo. É a sociedade moderna, é a globalização da doença. Não tenho dúvidas que haverá mais agentes infeciosos que ainda estão escondidos de nós e que irão emergir, adaptar-se a sobreviver em humanos ou nos nossos animais, “transbordar” e provocar doenças. Tomando o zika como exemplo, estava algures numa selva no Uganda em 1947 e quase 70 anos mais tarde estamos a lidar com uma pandemia que causa microcefalia em fetos, que está a causar enormes problemas. Não há dúvida de que iremos ver novas doenças a emergir no futuro.


Fotografia e Tradução: Marta Rodrigues

Gravação: Paulo Reisinho

Coordenação de Imagem: José Pedro Mendes