Os Desafios dos Estudantes de Medicina

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Editorial

Mensagem de José Pedro de Abreu Mendes, Diretor da Revista FRONTAL

Somos médicos, dotados de uma capacidade intelectual reconhecida o suficiente para nos atribuírem a responsabilidade de tratar a vida humana. Todos temos uma opinião, uma visão, uma forma de compreender as questões com que nos deparamos e, por conseguinte, decidir o curso de vida daqueles que nos procuram auxílio. Embora ponderemos, inicialmente, em decisões diferentes, um de nós, eventualmente, munido de uma forma engenhosa de aliciar ou convencer os demais, tratará de fazer prevalecer um único pensamento e assegurar a sua perpetuação. Presume-se que serão os mais informados, conhecedores da estrutura do problema, com provas dadas de sucesso. No entanto, este dogma nem sempre é a verdade.

De forma complacente somos por vezes induzidos em erro por locutores natos munidos da arte da eloquência irrefutável. De forma teimosa (ou negligente) dá-se a desinformação. Quantas vezes somos abalroados por “factos” médicos baseados em mentiras convenientes, como um tratamento descabido que se mantêm prática habitual, ou as soluções políticas cuja base desconhecemos por completo, mas que apoiamos banalmente.

Um doente que por vezes está mais informado que o próprio médico pode ser o colapso de um estatuto de confiança. Temos, como profissionais de saúde, o dever de estar informados, e, mais que isso, ter noção sobre aquilo em que realmente temos informação suficiente para opinar. Há que identificar uma situação como um problema, porque eu o identifico – e não porque mo disseram. Como estudantes de Medicina, a nossa principal missão não deveria ser só o saber, mas também o duvidar. Duvidar denota não só o interesse, como é a primeira etapa da aprendizagem.

Como estudantes de Medicina, percorremos hospitais e observamos tudo desde a prática médica até à gestão do serviço em várias especialidades e hospitais. Uma posição privilegiada que nos permite ser os melhores avaliadores. As incongruências surgem em toda a parte sob as diversas formas e é precisamente nesse momento em que começamos a questionar sobre o nosso conhecimento e saber. É justamente aí que decidimos crescer, construir argumentos com bases sólidas. Tudo partindo da necessidade de nos informarmos.


Mensagem de Joana Moniz Dionísio, Editora-Chefe da Revista FRONTAL

Naquele que foi considerado o evento do ano e que conseguiu a proeza de quase transformar o Parque das Nações numa Silicon Valley provisória – Web Summit, a cimeira tecnológica mais in do momento – foi discutida a hipótese de, num espaço de vinte anos, os robots virem a desempenhar algumas das funções dos médicos. A resposta da audiência de mais de 10.000 participantes foi esmagadora: são muitos os que gostam de pensar que, em 2026, ainda serão vistos e tratados por humanos. A meu ver, há qualquer coisa de transcendente (e quase divino) neste querer tão veemente de ser atendido por um Médico-Homem e não por um Médico-Robot. No entanto, apesar de a inteligência artificial ser uma realidade cada vez mais próxima, de desenvolvermos máquinas cada vez mais sofisticadas e meios de diagnóstico cada vez mais eficientes e exatos, porquê continuar a preferir o Homem? Por que não escolher a Máquina? A Máquina, que não erra. A Máquina, respeitadora de horários e de listas. A Máquina, programável e infalível. A Máquina, súmula da exatidão e eficiência. Porquê escolher o toque quente e desagradável (por vezes rude) humano, quando se pode ter a suavidade fria de uma máquina?

A resposta continua a ser estranhamente simples. A Máquina não tem coração – ou o que quer que utilizemos como eufemismo para a capacidade de sentir empatia e compaixão pelo próximo. Teoricamente, a Máquina olha para os doentes como números, trata-os de acordo com algoritmos e protocolos e, no fim, emite pareceres. Na prática, o Homem faz isso também. Se não fizer mais do que isto, contudo, nada o diferencia da Máquina. E, se aquilo que nos une e move é a capacidade de sentir algo pelos nossos pares, claramente que os cuidados de saúde precisam de ter essa premissa.

Não acredito que o Médico do Futuro seja uma Máquina. Acredito que haja uma relação próxima entre Homem e Máquina na Medicina do Futuro: uma relação biónica, simbiótica. A Máquina como prótese do Homem, e não o Homem como complemento da Máquina.