Editorial: Quando a Máquina Gera Atrito

Hoje é o dia mais importante na vida de milhares de médicos, prontos a escolher a sua especialidade. São 1549 vagas em disputa num dos processos mais dramáticos dos últimos anos. A “sombra” do advento de médicos sem colocação – e portanto, sem especialidade – foi desvanecida in extremis com a publicação de uma nova lista de vagas a escassas dezoito horas do início das candidaturas. Mas, naturalmente, a polémica está muito longe de terminar. 

[Editorial]

A escolha de especialidade lida, invariavelmente, com muitas emoções. Acima de tudo, as dúvidas existentes nas mentes de todos os candidatos – «Deverei ir para Medicina Interna ou Gastro?» «Neurocirurgia ou Otorrino?» Depois, o medo de que a nota da Prova Nacional de Seriação não seja suficiente para arrebatar a vaga de sonho. Ou, no mínimo, a colocada em último lugar de uma lista pensada durante largos meses e refeita vezes sem conta antes do dia decisivo. Por fim, o momento de enfrentar a escolha, depois de esperar na fila atrás das poucas dezenas ou muitas centenas de candidatos seriados à nossa frente, que nos dirá finalmente os lugares disponíveis para realizar o Internato Médico.

E se acrescentarmos um fator externo a esta equação? Se, de ano para ano, permanecer a dúvida em relação a que hospitais e serviços terão vagas disponíveis? Ou mesmo se estas existirão de todo? Se, repetidamente, a publicação destas mesmas vagas se arrastarem até ao limite, não existindo uma data limite para a sua apresentação pública? Se, de repente, é novembro sem que os candidatos saibam se podem planear uma vida na Cirurgia Pediátrica no Porto ou Oftalmologia na Madeira?

É esta a tradição anual do processo de inscrição no Internato de Formação Específica: todos os médicos recém-formados sabem que esta é caótica e imprevisível. Nos últimos anos acabou por se tornar uma fase natural da entrada na especialidade, antecipada com nervosismo, mas aceite com a devida tolerância.

A inscrição para o Internato Médico que se inicia a 2 de janeiro de 2015 trouxe surpresas amargas aos candidatos. Tudo começou no início de novembro, com a publicação, pela Administração Central dos Sistema de Saúde (ACSS), de uma lista de vagas provisória que antecipou a não colocação de duzentos médicos na formação específica. Tal significaria uma situação inédita no nosso país, com o aparecimento de médicos num limbo legal no qual, não tendo autonomia no que toca ao ato médico, ficariam interditos de passar receitas, trabalhar em hospitais, realizar procedimentos, enfim exercer a profissão para a qual receberam formação. A ACSS prometeu a publicação de novas vagas no futuro, mas tal não impediu a antevisão da criação de médicos “indiferenciados”, tendo a Ordem dos Médicos proposto preventivamente uma alteração da legislação de forma a permitir o exercício da Medicina a todos aqueles que ficariam excluídos de uma vaga no Internato.

A primeira lista de vagas publicada antecipava o surgimento de médicos de médicos num limbo legal no qual, não tendo autonomia no que toca ao ato médico, ficariam interditos de exercer a profissão para a qual receberam formação.

Surpreendentemente – e quando já ninguém esperava novidades em relação a esta questão – a mesma ACSS emitiu uma nova lista com vagas extraordinárias de forma a absorver todos os médicos a terminar o Internato de Ano Comum. Poderia ter sido um momento de alívio para os candidatos, não fosse o facto de tal ter acontecido a 18 horas do início das inscrições. Muitos foram os que pediram o adiamento do início da seleção das vagas, incluindo a Ordem dos Médicos – respeitando, aliás, o estabelecido no Regulamento do Internato Médico, que prevê um período de reflexão de, pelo menos, 10 dias. O início do Internato Médico (previsto para 2 de janeiro) está igualmente a ser contestado, considerando o atraso no início das inscrições e posterior anúncio dos resultados, que poderá ocorrer já depois do Natal.

Vou ter dois minutos para decidir o resto da minha vida, assim definiu o jornal Expresso o paradoxismo da situação. A frase pode ser exagerada, considerando o contexto, mas reflete um pouco a importância da situação na qual centenas de jovens médicos se encontram atualmente. Até sexta-feira, 1584 candidatos vão escolher o local de trabalho para os próximos quatro a cinco anos e a especialidade que previsivelmente exercerão o resto da vida.

A ACSS defende a data tardia para o anúncio de novas vagas como um esforço para permitir a colocação de todos os candidatos. E confere parte da responsabilidade à própria Ordem dos Médicos – responsável pela atribuição de idoneidade formativa aos serviços responsáveis pela educação dos novos Internos. Tudo isto até pode ser verdade, mas não esconde as fragilidades de um processo de entrada no Internato Médico que há vários anos aparenta sinais de rutura. É uma situação difícil para todos os médicos que este ano escolhem a sua especialidade. Mas, muito mais do que isso, deve ser visto como sintomático de um modelo de formação médica que necessita imperativamente de ser revisto desde o seu início (o acesso ao ensino superior) até à sua conclusão (a entrada na especialdiade).

2017 é a data prevista para a realização da nova Prova de Seriação. Será certamente uma mudança radical, há muito antecipada pelos estudantes de Medicina. Mas não resolverá por si os problemas do acesso à especialidade. Este é o momento para refletirmos sobre todo este processo e chegarmos a uma nova realidade mais justa e equatitária para todos os envolvidos.

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O Luís Afonso nasceu em Coimbra, mas sempre sonhou ser de Mortágua. É estudante do 6º ano de Medicina, mas gostava era de ter um bar de praia em Copacabana e um canudo de Línguas Orientais na algibeira. Se o virem num concerto de Coldplay com ar aluado, provavelmente enganou-se no caminho ao sair de casa para comprar bolachas com chocolate, situação que, aliás, lhe acontece frequentemente. Quase ganhou o torneio de Trivial Pursuit da Queima das Fitas, só que errou a pergunta «Quantos dias sobrevivem os Glóbulos Vermelhos?». A partir daí a sua vida foi sempre a descer.

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