Scientific Lectures | Entrevista com Ivanka Savic-Berglund MD, PhD

A Professora Ivanka Savic-Berglund  lecciona neurologia no Instituto Karolinska, onde também frequentou o curso de medicina e completou o seu doutoramento. Os seus estudos mais recentes trouxeram-na às Scientific Lectures da iMed Conference 9.0 sobre Sexologia médica para apresentar uma teoria inovadora sobre a neurobiologia da disforia de género.

DSC_0494


Na sua palestra, referiu que existiam dúvidas quanto ao aumento da espessura cortical de determinadas regiões do encéfalo, mais especificamente se este seria uma causa ou efeito da patologia. Pode elaborar um pouco no que toca aos próximos passos necessários para esclarecer, nomeadamente ensaios com cross-sex hormonal treatment?

Sim, esse é o próximo passo e é o que estamos a fazer agora, que é olhar para os efeitos no cérebro com este tratamento, cross sex hormonal treatment, o que é muito interessante porque uma das formas de olhar para isso é que a testosterona e o estrogénio ativam o cérebro, e como consequência há esta alteração de conteúdo. No entanto, a outra forma de pensar é que a testosterona e o estrogénio alteram o corpo e devido a essa mudança na direção da perceção do próprio género poderá haver um efeito secundário no cérebro.

Isto mostra de novo esta dinâmica e, na verdade, ambas podem estar corretas. Estamos a tentar perceber o que é causado pelo efeito das hormonas sexuais diretamente no cérebro e o que é causado pelo efeito indirecto através da mudança na fisionomia. Ao fazer esta distinção, podemos estar mais próximos de saber o que é a causa e o que é o efeito.

A minha ideia é que o cross-sex hormonal tratment leva a algumas mudanças no cérebro que são no sentido da percepção do próprio corpo, mas algumas delas não estão lá e portanto isto poderia significar que há aspectos de desenvolvimento e também de plasticidade envolvidos.

No que diz respeito aos resultados dos seus estudos, acha que têm implicações no tratamento destes pacientes?

Acho que têm implicações no tratamento, sim, e essa é uma das razões pelas quais os pacientes ficam muito felizes por contribuir para o estudo. Isto porque se alguém vai fazer este tratamento [hormonal] durante toda a sua vida, certamente irá querer saber que efeitos tem. Portanto, isto tem também implicações clínicas directas. Existe ainda um grupo de pacientes que não responde a este tratamento e gostaríamos de perceber porquê, de forma a podemos perceber melhor esta condição.

Os resultados do seu estudo poderiam também influenciar o grupo de pacientes que não responde?

Certo. O estudo poderia ser importante para perceber porque há este grupo que não responde ao tratamento, se estamos perante uma subpopulação diferente que deveria ser tratada de uma forma diferente. Isto, sem dúvida, aumenta o conhecimento.

E no que toca à constante discriminação que estes doentes enfrentam, quer por parte de indivíduos, quer, por vezes, sob a forma de leis ou proibições a nível nacional? Considera que o seu trabalho pode ter um impacto nesta questão também?

Sim, sem dúvida que há situações horríveis… É por isso que este trabalho é uma das minhas paixões.

É a mesma coisa com a orientação sexual. É parte de nós e cada um de nós pode ser diferente e não há razão para julgar. As pessoas transgénero são igualmente pessoas, apenas percepcionam o seu próprio corpo de forma diferente.


Interviewer: Margarida Vieira Lisboa

Transcription: Rita Rodrigues

Revision: Rita Amador