As Escadinhas para o Céu

Disse Ernest Hemingway: Every man’s life ends the same way. It is only the details of how he lived and how he died that distinguish one man from another.

Se por um lado as formas de viver e de morrer são expressão de uma imagem individual, por outro podem também evidenciar tipicidades de diferentes grupos. O mundo da música é um exemplo paradigmático.

Assim, neste artigo, propomo-nos a explorar de que forma a música e os seus vários géneros podem estar associados a diferentes fatores de risco que influenciam o fatídico encontro com a Stairway to Heaven

Sugestão: ler o artigo e ir explorando a playlist que se encontra no final da página. 

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Alguns membros do Clube dos 27: Janis Joplin, Kurt Cobain, Brian Jones, Jimi Hendrix, Jim Morrison e Amy Winehouse

 

Atente-se no famoso “Clube dos 27”, uma trágica e famosa coincidência que assombra o mundo da música e de outras formas de arte. O “Clube dos 27” surgiu após a morte de Kurt Cobain, em 1994, com apenas 27 anos. Os fãs do rock começaram a constatar que outros artistas tinham falecido com a mesma idade, nomeadamente Jim Morrison, Janis Joplin, Brian Jones ou Jimi Hendrix. A entrada de Amy Winehouse para este clube, em 2011, voltou a chamar a atenção para o fenómeno. No mesmo ano, o British Medical Journal publicou uma análise estatística das mortes de vários músicos, com objetivo de investigar se a idade dos 27 anos constitui um fator de risco independente neste grupo. Concluiu que há uma maior prevalência de mortes precoces entre músicos mas que ter 27 anos de idade não confere em particular um risco acrescido de morte.

Existem outras perguntas que se podem colocar sobre a aparente relação entre morte e música. Se considerarmos que cada género musical tem um estilo de vida associado e que o estilo de vida tem um papel de relevo na causa de morte de um indivíduo, será que a diferentes géneros musicais podemos associar diferentes causas de morte?

Um estudo americano do recente- Life Expectancy and Cause of Death in Popular Musicians: Is the Popular Musician Lifestyle the Road to Ruin? procurou dar resposta a esta questão, analisando as causas de morte de músicos, famosos ou não, entre 1950 e 2015. Concluíram que existe uma maior prevalência de mortes acidentais nos músicos do que na população em geral, especialmente antes dos 25 anos de idade, e que a prevalência do tipo de morte acidental variava em função do género musical do artista. O suicídio revelou-se mais frequente no universo de artistas rock, metal e country. Já os artistas de hip-hop apresentavam uma maior prevalência de mortes por homicídio. As mortes por acidente de viação ou overdose eram prevalentes em géneros tão diversos como rock, punk, pop, metal, jazz, folk e country. Analisemos alguns exemplos: 

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Tupac Shakur foi assassinado em 1996

Tupac Shakur. Escassos 5 anos separam o lançamento do seu primeiro álbum e a sua morte. No dia 7 de setembro de 1996, o artista foi baleado múltiplas vezes após assistir a uma competição de box em Las Vegas. Seis dias depois faleceu com 25 anos de idade.

Tupac teve uma existência atribulada: era filho de membros do partido revolucionário Black Panthers (1966-1982), que lutava pelos direitos dos afro-americanos. Cresceu sem o seu pai, viveu sérias dificuldades financeiras e viu a mãe viciar-se em crack.

Ao mesmo tempo que a sua carreira progredia, também o cadastro aumentava. Os seus crimes estavam maioritariamente relacionados com situações de tiroteio, até que em 1994, foi acusado de abusar sexualmente de uma fã, acabando por ser preso. Com o álbum de 1995, Me Against The World ( que inclui a música If I die Young) tornou-se no primeiro artista a chegar ao número um das tabelas de vendas enquanto recluso. Tupac cumpriu apenas 8 meses da sua sentença, após pagar uma elevada fiança. Por esta altura estava envolvido na rivalidade entre os gangs East Coast e West Coast, que terá estado na origem da sua morte, apesar de nunca se ter apurado um culpado.

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John Lennon foi assassinado em 1980

Também do eterno Beatle John Lennon partiu precocemente. Faleceu em 1980, com 40 anos de idade, após ter sido baleado à porta de casa por um homem que, momentos antes, lhe tinha pedido um autógrafo.

O assassino mais tarde revelou que desejava que o seu nome atingisse a fama com o referido ato, desejo que não lhe vamos conceder . Várias fontes afirmam que no momento da morte de Lennon, já no hospital, começou a tocar na rádio a música All My Loving dos Beatles: “Close your eyes and I’ll kiss you / Tomorrow I’ll miss you”.

Sid Vicious suicidou-se recorrendo a uma dose letal de heroína em 1979

As mortes por overdose não são um fenómeno recente. Constituem uma causa comum de morte acidental e estão, muitas vezes, de “mãos dadas” com o suicídio. Os episódios aumentaram significativamente na década de 80, devido à maior disponibilidade e livre comercialização de algumas drogas.

São muitos e bem conhecidos os casos de mortes relacionadas com a  afamada heroína no mundo da música. A título de exemplo temos a perda demasiado precoce da estrela do Woodstock, Janis Joplin, em 1970, o poeta e líder dos “The Doors”, Jim Morrison, no ano seguinte e o ícone da cultura punk e baixista dos Sex Pistols, Sid Vicious, em 1979.

Acredita-se que Sid tinha um pacto de morte com a sua namorada Nancy , que a dose letal de heroína tenha sido roubada à própria mãe,  também ela escrava do mesmo vício e que após a morte do filho encontrou um bilhete que confessava o suicídio:

We had a death pact, and I have to keep my half of the bargain. Please bury me next to my baby in my leather jacket, jeans and motorcycle boots. Goodbye.

Apesar destes trágicos exemplos de mortes causadas pelas drogas ditas clássicas, neste novo século o paradigma tem assumido novos contornos, com o uso inadequado de fármacos sujeitos  a prescrição médica. Em 2013, no Reino Unido, a bombástica combinação cocaína-heroína provocou menos mortes quefármacos prescritos.

Corria o ano de 2009 quando 25mg intravenosos de propofol puseram termo à vida do, até então, Rei da Pop. Com apenas meio século de idade, estava dependente do fármaco, administrado pelo seu médico pessoal, o cardiologista Conrad Murray, para conseguir dormir. A morte do autor de “Thriller” constituiu um caso mediático que fomentou os primeiros alertas para as mortes por intoxicação por fármacos prescritos, como as benzodiazepinas.

Nascido no mesmo ano e sete anos mais tarde, no fatídico ano de 2016, Prince surpreende-nos com uma dose letal de fentanil, um fármaco aproximadamente 100 vezes mais potente do que a morfina, início de ação mais rápido e menor semi-vida, ideal para administração pelo próprio doente, em resposta às dores flutuantes da doença crónica. 

As overdoses relacionadas com este fármaco estão a aumentar, com mais de 700 mortes entre 2013 e 2014. É uma droga conhecida nas ruas como “China Branca”, sendo consumida muitas vezes sem se saber que se trata de fentanil, devido às suas semelhanças com a heroína e cocaína, o que aumenta o risco de sobredosagem.

Três décadas antes da sua repentina morte, teoriza-se que o ícone negro tenha profetizado a sua morte no tema  “Sometimes It Snows in April”, mês em que o artista foi encontrado sem vida no elevador da sua mansão, em Minneapolis.

Iniciava-se a década de 80 quando Ian Curtis, a voz dos Joy Division, cometeu suicídio num sítio tão pouco digno do seu génio como a cozinha, com apenas 23 anos. O “betinho” que durante algum tempo tentou conciliar o seu trabalho num centro de desemprego com a vida de palco foi oficialmente diagnosticado com epilepsia aos 21 anos, tendo-lhe sido prescrita uma mistura bombástica de fármacos, a maioria acabados em -ina, e que passamos a citar: carbamazepina, fenitoína, tiagabina, oxcarbazepina e fenobarbitona.

Numa altura em que a doença e respectivos tratamentos eram pouco entendidos, o cocktail prescrito provocou em Ian mudanças de humor e crises epilépticas cada vez mais frequentes, que inicialmente inspiraram as suas danças pouco convencionais durante os concertos, mas que terão, mais tarde, agravado a sua depressão e precipitado o suicídio.  Os New Order surgiram posteriormente do entendimento dos membros remanescentes dos Joy Division e o primeiro álbum apresenta um tema intitulado I.C.B, sigla para “Ian Curtis Burried”.

O ano de 2017 desenrolou-se com mais dois casos mediáticos que fazem questionar se a vida de fama e estrelato será assim tão cobiçável. Chris Cornell, a voz inconfundível das bandas de rock/grunge Soundgarden, Temple of Dog e Audioslave foi encontrado a 18 de maio no hotel onde se encontrava hospedado, após aparente enforcamento pelo próprio.

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Chris Cornell suicidou-se em 2017

A 26 de maio, Chester Bennington, vocalista dos Linkin Park, levou o tema Hallelujah de Leonard Cohen ao seu funeral. Dois meses mais tarde, a 20 de julho, foi ele o protagonista do mesmo cenário, um suicídio por enforcamento que surpreendeu todos os que cresceram a ouvir a sua música.  Um passado de álcool, drogas e abusos sexuais durante a infância estarão na base daquilo que terá sido uma vivência de tormentas, refugiada na música que inspirou toda uma geração.

A par do que tem acontecido com a população em geral, também os óbitos por cancro se têm tornado uma realidade cada vez mais frequente por entre os grandes nomes da música, estando associado a estilos mais antigos, como o folk e o jazz.

David Bowie deixou-nos dois dias após completar 69 anos e lançar um álbum pré-póstumo de despedida. Com Blackstar, um álbum intenso que, ao longo de sete faixas, alude à morte e ao adeus, Bowie conseguiu fazer da sua morte a sua magnum opus, mantendo até ao último suspiro o espírito enigmático e inovador com que sempre nos brindou e ensinando-nos que a música é intemporal e um grande génio nunca morre.

Idade de morte e género musical

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De facto, o mundo da música nunca deixará de ser imprevisível e de nos surpreender com fins, muitas vezes,  trágicos. Estes números representam uma combinação de factores inerentes ao estilo de vida na indústria musical, como a existência, quase omnipresente, de álcool e drogas, os horários irregulares e os elevados níveis de stress e ansiedade (podendo ainda correlacionar-se com as experiência traumáticas de infância que levam muitos artistas a enveredar pelo mundo da música.) A par disso, ainda se adicionam os valores e filosofias subculturais com que alguns meios musicais se identificam e que condicionam o estilo de vida.

Pedindo agora emprestadas as palavras de Arnold Schoenberg (1910): Art is a cry of distress from those who live out within themselves the destiny of humanity … Inside them turns the movement of the world; only an echo of it leaks out – the work of art.

Playlist:

(mas não é para ficarem deprimidos!) 

Bibliografia

https://theconversation.com/music-to-die-for-how-genre-affects-popular-musicians-life-expectancy-36660

Life Expectancy and Cause of Death in Popular Musicians: Is the Popular Musician Lifestyle the Road to Ruin?

Fontes das Imagens

https://witchlike.wordpress.com/2016/07/03/the-27-club/

http://sosoothe.com/happy-43rd-birthday-tupac-shakur/

https://www.ad.nl/muziek/gitaar-van-john-lennon-voor-2-4-miljoen-dollar-onder-de-hamer~a2f86fce/

https://www.biography.com/people/sid-vicious-246010

http://live105.ca/statue-chris-cornell-go-seattle/

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