Serão as mulheres melhores médicos que os homens?

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Uma tese de mestrado, da autoria da canadiana Valerie Martel, veio lançar alguma controvérsia na comunidade médica internacional ao propor algumas conclusões arrojadas: nomeadamente, que os homens são médicos mais produtivos, mas que as mulheres prestam cuidados médicos de maior qualidade. Estas conclusões foram apresentadas no Congresso ADELF-SFSP Santé-Publique et Prévention, que decorreu em Bordéus, França (de 17 a 19 de Outubro). O trabalho da equipa da Universidade de Montreal, Canadá, foi já publicado num suplemento da edição de Outubro da Revue d’épidémiologie et de santé publique; uma publicação da Elsevier-Masson.

A “guerra dos sexos” é algo que extravasa a área médica, imiscuindo-se com maior ou menor conspicuidade em todo o quotidiano. As diferenças de competência entre os sexos são desde há muito matéria predilecta do grande público. Quem não ouviu já dizer que as mulheres conseguem fazer várias coisas simultaneamente, mas os homens não? Estes antagonismos e picardias são, obviamente, explorados pelos média. Daí não ser difícil de encontrarmos esta temática nos retratos televisivos ou cinematográficos da profissão médica.

Esta investigação – co-autorada e supervisionada por Roxane Borges da Silva (Professora na Faculdade de Enfermagem) e por Règis Blais (Professor de Saúde Pública na Faculdade de Medicina) – procurou afastar-se dos preconceitos e estereótipos e lançar alicerces científicos para a investigação de eventuais diferenças de desempenhos entre os sexos na profissão médica. Este trabalho de investigação consistiu na análise estatística dos dados relativos às consultas de 870 Médicos de Família do Quebec. Especificamente, foram avaliadas as consultas de acompanhamento de indivíduos com Diabetes Mellitus, com mais de 65 anos.

Para esta população específica, a Associação Canadiana de Diabetes (CDA) prevê nas suas guidelines os actos médicos que devem ser praticados: prescrição de tratamento farmacológico triplo – incluindo obrigatoriamente anti-diabéticos e estatinas –; reavaliação médica geral anual e reavaliação oftalmológica bianual. A qualidade do tratamento prestado foi assim avaliada consoante a conformidade da actuação dos Médicos de Família com o prescrito nas guidelines da CDA. A sua produtividade foi avaliada consoante o número de actos médicos praticados com estes doentes.

Da população de 870 Médicos de Família estudados, metade eram homens e metade mulheres. Os dados relativos às suas consultas foram obtidos através do registo do Instituto Púbico de Seguros de Saúde (Régie de l’assurance maladie du Québec), amiúde aclamado pelo seu rigor e onde cada procedimento e cada prescrição ficam registados.

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Universidade de Montreal, Canadá

Entre os resultados estatisticamente significativos apurados pela mestranda da Universidade de Montreal encontram-se diferenças entre homens e mulheres relativamente à conformidade com as guidelines: 75% das médicas encaminhavam os doentes para avaliação oftalmológica (contra 71% dos seus colegas homens); 71% das médicas prescrevia os fármacos previstos (contra 67% dos médicos) e 39% das médicas realizava a reavaliação médica geral (contra 33% da população médica masculina). Em suma, de uma forma global, as mulheres médicas da população estudada apresentaram uma práxis mais de acordo com o recomendado pelas guidelines. Não obstante, o estudo não consegue apresentar dados quanto à adesão à terapêutica, o que constitui uma limitação major do mesmo, como admitiu a Professora Borges da Silva.

Outro dado surpreendente foi a disparidade no número de actos médicos realizados entre as populações masculina e feminina: os homens realizaram em média mais 1000 actos médicos por ano que as mulheres. Segundo o Professor Règis Blais, este dado concretiza uma realidade já assumida na consciência colectiva: a de que as mulheres médicas são mais cuidadoras e investem mais tempo com cada doente. Contudo, o Professor chama a atenção para uma interpretação demasiado linear desta produtividade: “Os médicos que investem tempo a explicar as situações aos seus doentes podem evitar que esses mesmos doentes regressem à consulta um mês depois preocupados com o que não entenderam. Os médicos mais produtivos poderão afinal não ser aqueles que nós consideramos como tal.

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Um dado significativo é o de estas diferenças se acentuarem com a idade dos médicos avaliados. Ou, visto de outra forma, que quanto mais novos, mais esbatidas são as diferenças, fazendo adivinhar uma nova realidade nas gerações que saem das Escolas Médicas dos nossos dias. Valerie Martel confirmou-o numa conferência de imprensa: “Cada vez mais os homens estão a demorar-se com os seus doentes, à custa da produtividade, e cada vez mais as mulheres têm tendência a aumentar o número de procedimentos que efectuam”.

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