Natal para todos?

Dezembro: aquele mês. Aquele mês que em tempos significava que duas semanas inteiras de férias se aproximavam. Agora, as férias são uma miragem e começa a preparação para a época mais depressiva e menos esperada do ano lectivo: exames, exames, exames. Mas há sempre tempo para sonhar e para sentir.

As ruas enfeitadas de luzes aquecem os corações na noite fria que se faz sentir, ou não estivesse o Inverno pronto para bater à porta. As músicas natalícias surgem no ar, nos cafés, nos centros comerciais e enchem os corações de alegria e esperança. A vontade de ver filmes com uma manta e uma caneca de chá é maior do que nunca. Se ligarmos a televisão, provavelmente estará a dar o “Sozinho em casa”. As casas ganham novas decorações, aparecem chocolates e doces em todos os recantos e tudo grita: “O Natal está a chegar”.

Muito se fala sobre o sentido deturpado que tem o Natal nos dias de hoje. Como os valores estão trocados e o verdadeiro espírito se desvaneceu com o passar dos anos. Consumista ou oportunista, a verdade é que para muitos o Natal continua a reduzir-se apenas a uma palavra: FAMÍLIA. A véspera, com os adultos a contar histórias e os pequeninos a contar os minutos para abrirem os presentes. Muitos adormecem antes da meia-noite. O tio engraçado que se veste de Pai Natal para deleite de todos. A fila enorme de sobremesas quando se sabe que ninguém aguenta mais uma migalha. A lareira e a árvore de Natal como ambiente de fundo. Um ambiente de conforto e um sentimento de pertença, de partilha e de felicidade. O dia chega, mais comida e mais histórias. Mais família. Não é preciso ser-se criança para se gostar do Natal. Ou será que somos todos um pouco crianças – genuinamente felizes, quero dizer, nesta altura do ano?

Mas alguma vez parámos para pensar o que seria o Natal sem todas as tradições? Alguma vez parámos para pensar que o Natal faz tanto sentido porque é partilhado? Como todos os grandes momentos, na verdade. Alguma vez parámos para pensar nas pessoas que não têm essa oportunidade? Tantas, na verdade. É triste pensar nisto. Saber que pessoas encaram este dia como um mais um no meio de tantos outros, porque não têm família para o passar e para o tornar especial. Saber que pessoas estão longe do local onde realmente gostariam de estar. Saber que pessoas estão abandonadas, perdidas, sozinhas neste dia. E nós?

Medicina, que tantas horas tiras (e dás) às nossas vidas, não nos tires também estes momentos, não nos tires o Natal. Mas Medicina, que tanta responsabilidade trazes às nossas vidas, traz-nos também a compreensão e a sabedoria para aceitarmos. Aceitarmos que um dia seremos nós, no banco de dia 24 de Dezembro e na manhã de 25, quando a nossa família celebra sem nós, mas sempre connosco. Aceitarmos que um dia seremos nós, com o corpo encostado às paredes frias e solitárias da urgência, sabendo que a mente vagueia bem longe dali. Aceitarmos que um dia seremos nós a cumprir o calendário, porque a vida não tira folga nos feriados. Aceitarmos que um dia seremos nós a salvar uma vida e dar o melhor presente de todos a alguém. Alguém que nem conhecemos. E quem sabe, encontrar um sorriso que nos conforte e que nos faça lembrar que não há nada melhor que dar o nosso melhor ao outro, nada melhor que ser altruísta e dedicado. Porque esta época também é feita disto e de repente encontra-se um pedacinho de Natal, mesmo ali no corredor do hospital. Porque a Medicina é exactamente isto, encontrar pedacinhos de felicidade nas mais pequenas coisas, mas é isto o ano todo.

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