O Prolongamento da Doença

RTEmagicC_paliativo_01.pngTexto vencedor da 2ª Edição do Concurso “O Melhor Artigo de Sempre”.

A aposta em ludibriações jornalísitcas impera por esses mass media numa tentativa de formatar as mentes, num estilo Huxleyano, daqueles que ainda conseguem comprar a cultura (ou a falta dela): são casos espicaçados até ao mais ínfimo pormenor, cheios de mentiras e meias verdades, cujo real concreto é ludibriado pelo abstracto de imaginações férteis…

Contudo, não consigo deixar de ficar com o pêlo eriçado quando vejo divulgado por esses senhores fluentes no bom uso da língua portuguesa (seja com ou sem o acordo ortográfico), a famosa expressão “morreu, vítima de doença prolongada”. Quando era mais novo, desconhecia o seu verdadeiro significado, até porque, para mim, todas as doenças eram demasiado duradouras para sequer existirem. Depois, percebi que era um eufemismo para a “famosa-temida-doença-de-que-ninguém-quer-falar” (penso que esta seria a forma como seria descrita, se vivêssemos no mundo do Voldemort)… qual, estão vocês ainda a perguntar? O cancro!

Se até há uns tempos tentava perceber este medo súbito de emitir essa vil palavra, com o passar da idade, cada vez menos, o consigo entender. Sim, é uma doença pelo processo destrutivo que incute no corpo, e, sim, é “prolongada” pela cronicidade paulatinamente conquistada, mas não devemos temer a sua expressão e promover a sua divulgação. Aliás, será através dela mesmo que poderemos conseguir obter melhores resultados quer em termos de mortalidade quer em termos de morbilidade nos estudos (de que poderíamos estar mais orgulhosos) e, assim, conseguirmos obter uma maior qualidade de vida para estes doentes. É preciso pois apostar em políticas preventivas para que o cancro caminhe não em frente mas para trás e necessárias se queremos melhorar algumas taxas vergonhosas, apresentadas por esses países que se dizem desenvolvidos. Mais ainda, quando, nos dias de hoje, existem livros, explicativos de variados conceitos oncológicos para os mais leigos, e associações, que tentam amenizar e até mesmo “brincar” com tudo o que esta doença tira e dá.

Se, por alguma razão, pensarmos chamar alguma doença de “doença prolongada”, seria a vida. Estão a pensar que estou embriagado por algum espírito antitético mas garanto-vos que estou de perfeita saúde (ou, assim, o penso). Segundo R. D. Laing

A vida é uma doença sexualmente transmissível e a taxa de mortalidade é de cem por cento

e, de facto, esta é a derradeira verdade que devemos encarar com a mais impávida tranquilidade para encararmos melhor a morte como parte integrante da caminhada e que é a vida. Porque ela, de facto, encerra em si uma morte, com uma velocidade variável mas não deixa nenhum sobrevivente e tem uma esperança média “devida” (e) apropriada, tão mais prolongada quanto maior a longevidade e persistência de cada um.

E, por isso, deixo desde já os meus mais sentidos pêsames a todos aqueles que padecemos dela (mas igualmente nos parabenizo, nesta minha bipolaridade a agravar)… não tenho é trocos para comprar um raminho de flores que se coadune à situação. O mais grave ocorre mesmo quando a esta doença se agregam outras, tais como, o próprio do cancro. E para que esta promiscuidade patológica possa diminuir a sua prevalência, é preciso apostar na divulgação!

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