A Bela e o Hipertricótico

Porque sob o olho clínico da FRONTAL não só buscamos o rigor científico em todas as coisas como não assumimos de antemão que a pilosidade moderada (ou assaz abundante) da hipertricose congénita generalizada seja responsável por um aspecto aterrorizador o suficiente que justifique a utilização do termo “monstro”. Ou pelo menos é com esta premissa que nos debruçamos sobre o casal da vida real que poderá ter sido a inspiração por detrás do conto de fadas francês.

Está aqui, olha, aqui – “hipertricose congénita hereditária”… Devias explorar mais a ala de literatura médica, Bela, a estante de Psiquiatria era capaz de te dar jeito por causa daquela, hum, questão da chaleira que fala…

Um mês volvido da estreia do remake da Disney de “A Bela e o Monstro”, o qual seguramente não passou despercebido a ninguém – ora não se tratasse de uma história ubíqua à infância da grande maioria (quer pelo conto quer pela versão animada de 1991, ou até pela versão francesa de 1946) -, desta feita protagonizada pela eterna Hermione Granger por Emma Watson (assegurando não só a curiosidade mas a atenção da grande franja de população acometida por laivos obsessivos, em alguns casos a roçar o patológico, no que à actriz se refere) e Dan Stevens (discutivelmente merecedor de menos interesse consoante o(a) leitor(a) possua antecedentes de visualização de séries de época que envolvam a aristocracia britânica e os seus first world problems no início do século XX), debruçamo-nos sobre o casal que poderá ter dado o mote para que Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve escrevesse, em 1740, La Belle et la Bête.

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O homem selvagem no “Monstrorum Historia”, de Ulisse Aldrovandi.

Recuemos então mais uns dois séculos e situemo-nos algures no século XVI, Tenerife, onde uma criança de seu nome Pedro Gonzalez causa alvoroço pelo seu aspecto inusitado. Pêlo comprido, sedoso, castanho-escuro recobre todo o seu corpo, adensando-se desde a face até à região supraclavicular, sendo o comprimento tal que lhe esconde os olhos e os meatos acústicos externos. O Selvagem das Canárias, como viria mais tarde a ser apelidado, padecia de uma doença até hoje parcamente documentada, com menos de cinquenta casos descritos na literatura – hipertricose congénita generalizada ou hipertricose congénita lanuginosa, ou ainda, no subtipo especificamente associado à família Gonsalvus, Síndrome de Ambras. Para os seus observadores, imbuídos de superstições remanescentes da Idade Média acerca do “homem selvagem”, consolidadas pela difusão de relatos fantasiosos associados às primeiras viagens para terras espacial e culturalmente longínquas do mundo ocidental, Pedro era a materialização desse ser exótico, metade homem, metade besta, sendo sem grandes demoras enclausurado e conduzido para a corte francesa como presente para o rei Henrique II. Após a análise cuidada do rei, dos seus académicos e conselheiros (e provavelmente dos meros curiosos que não perderam a oportunidade de espreitar tal singularidade), concluiu-se que Pedro (ou Petrus, já que viria doravante a ser denominado pela versão latina do seu nome) de místico nada tinha, sendo a sua farta pilosidade a única característica que o poderia aproximar da bestialidade que tão ardentemente se lhe queria impor.

A Hipertricose Congénita Generalizada ao EO

Folículos pilosos longos e finos cobrem todo o corpo do doente, à excepção das faces volares das mãos e pés, e mucosas.

Destacando-se dos outros tipos de hipertricose congénita, as regiões frontal, palpebral, nasal e pré-auricular são uniformemente cobertas de pêlos, os quais podem atingir vários decímetros de comprimento caso não sejam tricotomizados. O mesmo acontece ao nível do ouvido externo, com eventual protrusão dos longos folículos pilosos através do meato acústico externo. Podem ou não estar presentes traços de dismorfia facial, nos quais se podem incluir o aumento das distâncias interalares e intercantais, narinas antevertidas, ausência de sulco mentolabial e hipertrofia gengival.

Ainda assim, pelo exotismo e raridade da sua compleição –  ou não fosse uma tradição popularizada desde a Idade Média manter pessoas com acondroplasia ou outros tipos de nanismo, obesos, ou com condições físicas consideradas “excêntricas” para a época como coqueluches da corte –, Petrus Gonsalvus permaneceu na corte francesa, onde, como “experiência” do rei para o “converter” à civilização, foi educado como se de um nobre francês se tratasse. Anos mais tarde, após a morte do monarca, e tomando a fase final da “experiência” do marido para si, a viúva Catarina de Médicis organiza o casamento do outrora Selvagem das Canárias com uma jovem – Catarina Raffelini – filha de um dos seus súbditos fidalgos menores.

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Petrus e Catarina Golsalvus à esquerda, comparados com as versões ficcionais que inspiraram, à direita. Close enough, Disney, close enough.

Note-se que apesar de a bela Catarina não ter decidido permanecer com Petrus Gonsalvus para salvar o pai de uma vida de clausura, a versão de que reza a História não é mais simpática, acreditando-se que na sua busca pela noiva ideal, a monarca casamenteira [Catarina de Médicis] terá escondido até ao último instante a identidade (e o aspecto) do futuro cônjuge da nossa Bela quinhentista… Porém, e admitindo-se ou não a existência de alguma surpresa e reticência iniciais, a verdade é que a realidade do casal mimetiza a da ficção – com a diferença de que o amor de Catarina não terá conduzido a uma regressão espontânea do estado hipertricótico do seu esposo, aliás, segundo a bibliografia pesquisada, o mais provável é mesmo a densidade pilosa aumentar com o tempo –; o casal estabeleceu-se sob o jugo de um novo patrono, o Duque Renuccio Farnese, em Parma, Itália, viajando por algumas cortes europeias de tempos a tempos com alguns dos seus filhos. “Alguns dos seus filhos?”, questiona-se o(a) leitor(a) atento(a). Sim, porque dos sete filhos de Catarina e Petrus quatro partilhavam a doença do pai: Enrico, Maddalena, Francesca e Antonietta. Cruel mas previsivelmente, apenas estes eram fonte de interesse, o que se traduziu na multiplicidade de obras de arte que os retratam e, inevitavelmente, na sua “exportação” pelo duque de Parma para outras cortes, como foi o caso de Antonietta Gonsalvus, a filha mais nova, “oferecida” como sinal do seu apreço à sua amante Isabella Pallavicina, a Marquesa de Soragna.

Hipertricose Congénita Generalizada - a genética por detrás desta hairy situation

Apesar de existirem casos de hipertricose congénita associados a um padrão de transmissão X-linked, a afecção de filhos de ambos os sexos no caso da família Gonsalvus sugere um padrão de transmissão autossómico dominante, corroborado por estudos de FISH [em casos recentes de Síndrome de Ambras] que localizam a mutação ao braço longo do cromossoma 8 (8q22), insinuando-se a possibilidade de existir nesta região um gene associado à regulação do crescimento folicular.

Petrus e Catarina Gonsalvus, conquanto privados dos seus próprios filhos, conseguiram viver juntos em Capodimonte o restante dos quarenta anos de matrimónio que partilharam, remontando a última referência em vida de Petrus a 1617, quando foi autorizado a assistir ao baptizado de um dos seus netos. Dois anos mais tarde morre, com oitenta e um anos, em Capadimonte; no entanto, não se conhece o local exacto em que estará sepultado, uma vez que, por não ser considerado completamente humano, não lhe foi conferido o direito a ser enterrado segundo os rituais fúnebres cristãos nem a constar dos registos funerários da cidade. Catarina segue-lhe os passos, seis anos depois. Dos descendentes, sabe-se que pelo menos dois dos seus netos sofreriam também de hipertricose. Dos filhos, há relatos de que alguns se rebelaram contra a sua condição claustrofóbica entre o livre e o cativo que a sociedade lhes impunha, desvinculando-se da mera função de entretenimento da corte; outros, como foi o caso de Maddalena, sob a “protecção” do Duque de Farnese, permaneceriam como quase animais de estimação dos seus proprietários, tendo sido casada com um dos tratadores dos cães de caça dos Farnese (numa tentativa de acordo desumanamente divertido para o seu patrono?). A ausência progressiva de registos artísticos de hipertricose congénita nas gerações seguintes reflecte, felizmente, a gradual supressão desta pesada herança genética.

Embora não pautada pelo típico “felizes para sempre” a que Villeneuve e a Disney nos habituaram, não é descabido imaginar que esta história terá ecoado através dos anos e inspirado a autora francesa, até porque, face à realidade ficcional d’A Bela e o Monstro (e pedindo antecipadamente perdão pelo comentário potencialmente cheesy), tendo em conta os inegáveis laços de afecto que uniam Petrus e Catarina, uma versão ficcional do real nada lhe ficaria a haver.

Este artigo foi escrito segundo o antigo Acordo Ortográfico.

 

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Não, Bela. Este artigo não é sobre Síndrome de Estocolmo porque tu é que quiseste ficar no castelo (e regressar, dúvidas ainda houvesse), desculpa.

 

 

Para saber mais