A Farsa médica de Molière – os “génios” do século XVII

Molière: um nome do qual muitos já terão ouvido falar, mas que nunca decidiram explorar. É o pseudónimo do rei, dono, génio da comédia e da farsa e do homem que mais parecia odiar a medicina e os médicos. Mas será a aversão fundamentada? Ora vejamos…

 

Estamos no século XVII. Lucinde finge estar muda porque seu pai, Géronte, quer que ela se case com Horace, quando ela, na realidade, não quer dar a sua mão a outro homem que não Léandre. Géronte, preocupado com esta doença súbita, manda que lhe tragam um médico. E é aqui que surge Sganarelle, um bêbedo que, por força das circunstâncias, se vê obrigado a fingir que é médico.

Frontispice Le Médecin malgré lui
SGANARELLE. […] Eu digo que este impedimento da acção da […] língua é causado por certos humores, que entre nós sábios chamamos humores malignos; malignos, ou seja… humores malignos […]… Entendeis o latim?

GÉRONTE. De forma nenhuma.

SGANARELLE, levantando-se surpreendido. Não entendeis o latim? […] Cabricias, arci thuram, catalamus, singulariter, nominativo haec musa, “a Musa”, bonus, bona, bonum, Deus sanctus, estne oratio latinas? Etiam, “sim”. Quare?, “porquê”? Quia substantivo et adjectivum, concordat in generi, numerum et casus.

GÉRONTE. Ah! Que não estudei eu? […]

SGANARELLE. Ora, estes vapores de que vos falo, vindos a passar do lado esquerdo onde está o fígado, ao lado direito onde está o coração, acontece que o pulmão, que nós em latim chamamos armyam, tendo comunicação com o cérebro, que nós em grego denominamos nasmus, através da veia cava, que nós em hebreu chamamos cubile, encontra no seu caminho os ditos vapores que enchem os ventrículos da omoplata; e porque os ditos vapores… […] e porque os ditos vapores têm uma certa malignidade… […] têm uma certa malignidade que é causada… […] que é causada pela agrura dos humores engendrados na concavidade do diafragma, acontece que estes vapores… Ossabandus, nequeis, nequer, potarinum, quipsa, milus. E eis justamente o que faz com que vossa filha esteja muda.

in Le Médecin malgré lui, Acto II, Cena 4, 1666.

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Um burguês feito comediante

Jean-Baptiste Poquelin nasce em 1622, em Paris, filho de um casal burguês, filho de pai tapeceiro do Rei. Estuda no colégio jesuíta de Clermont (actualmente o liceu Louis-le-Grand), onde aprende o grego, o latim, a retórica e os dogmas eclesiásticos. É mais tarde aluno de Direito em Orléans, e tapeceiro a pedido do pai. E provavelmente assim permaneceria, advogado e tapeceiro, não tivesse ele conhecido a comediante Madeleine Béjart. É em 1643 que ele anuncia que abandona os estudos de Direito e o cargo de tapeceiro para se tornar comediante. Jean-Baptiste abandona o lar familiar e é acolhido pelos Béjart, que o convidam a entrar na troupe que desejam criar e que viria a nascer oficialmente no dia 16 de Junho de 1643. Em Julho de 1645, Jean-Baptiste Poquelin, entretanto eleito director da troupe, assina pela primeira vez um documento oficial com o nome de “Molière”, de origem não esclarecida. Entre 1646 e 1650, Molière faz a sua estreia no mundo da farsa e da crítica médica, com La Jalousie du Barbouillé e Le Médecin Volant, que inspirarão mais tarde L’Amour médecin e Le Médecin malgré lui.

Jean-Baptiste Poquelin

Há quem tenha realizado o inventário completo de todas as passagens que, de forma mais ou menos directa, tocam no tema da medicina. E, em trinta-e-três peças de teatro, conta-se uma boa quarentena; isto excluindo muitas das primeiras peças deste autor: L’Étourdi, Sganarelle, Les Précieuses Ridicules, L’École des Maris e L’École des Femmes, por exemplo, não contêm uma referência a esta arte de debelar ou atenuar doenças, o que fez alguns autores concluírem que este comediante apenas tardiamente declarou uma verdadeira guerra à medicina.

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Crítico com fundo de verdade ou dramaturgo desactualizado?

Um curioso informado

Há muito tempo que se diz mal e se censura a medicina. Contudo, e como apontou La Bruyère, “enquanto os homens poderão morrer e gostarem de viver, o médico será troçado e bem pago.” (Les Caractères ou les Mœurs de ce siècle, 1688). Autores clássicos como Montaigne e Boileau atacaram a classe médica, mas Molière distinguiu-se tanto pelo fundo, como pela forma, não fosse a paródia molieresca estranha e alarmantemente verosímil. Mas como pode um comediante, antigo estudante de Direito, ter acedido ao detalhe da teoria médica? No meio intelectual de Molière encontramos um bom número de médicos conhecidos. Segundo le Ménagiana, ele frequentava semanalmente o académico Habert de Montmaur, editor das obras de Gassendi, tal como Ménage, Segrais, Chapelain e Guy Patin. Molière conhecia igualmente o médico-viajante François Bernier, que voltou para Paris cerca de 1668, depois de uma estadia decenal no subcontinente indiano, onde foi médico do lendário Aureng-Zeb. Finalmente, um pormenor importante que não pode ser visto como uma bagatela é o facto de, aos 43 anos de idade, com apenas mais oito de vida,  Molière ter começado a sofrer de uma doença incurável que o viria a matar lentamente. Será então coincidência que justamente a partir de 1665 tenham começado a proliferar as críticas à medicina e surgido obras impregnadas de cepticismo agressivo como L’Amour médecin, Le Médecin malgré lui, Le Malade imaginaire? Molière foi durante longos anos doente do Dr. Armand (de) Mauvillain, filho de cirurgião e afilhado do cardeal Richelieu. Foi paciente de uma curiosa personagem controversa que provavelmente exerceu uma influência considerável, se bem que indirecta, sobre a sua obra. Não que Molière adoptasse uniformemente as opiniões de Mauvillain, nem que escrevesse o que este ditasse. Mas é certo que Mauvillain visitava frequentemente Molière e que as consultas e conversas eram longas. Enquanto doente, Molière tinha um interesse muito pessoal em aprofundar as questões médicas e fazia questão de receber as explicações técnicas da doença e dos sintomas que o afectavam. E foi infelizmente na própria pele que ele constatou a ineficácia dos remédios receitados. Era um observador nato e, graças a Mauvillain, conseguiu penetrar nos hábitos e costumes da sociedade médica do século XVII, conversando com ele sobre as normas de conduta profissional, sobre as disputas que existiam, sobre os incidentes e guerras internas da Faculdade de Medicina de Paris. Recolheu histórias e fixou traços de carácter que depois transpôs para as suas obras.

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Século XVII – a Era da Revolução científica

O fim do reino dos antigos

Arrêt burlesque

O século XVII constituiu uma importante reviravolta na História das ciências e, sobretudo, na História da medicina. Foi marcado, em particular, pelo advento da razão com o questionar de antigas crenças, a começar pelas teorias de Galeno, já postas em causa no século XIII por Ibn al Nafis e no século XVI por Michel Servet, perseguido e queimado pela Inquisição por ter afirmado que não existe comunicação directa entre os dois ventrículos cardíacos e que o sangue passa de um para o outro através dos pulmões. Meio século depois, em 1599, William Harvey demonstrava a veracidade das afirmações de Servet e, em 1628, expunha as suas conclusões na sua obra de dilatado título Exercitatio anatomica de motu cordis et sanguinis circulatione in animalibus, resolvendo finalmente grande parte do mistério da circulação sanguínea. O seu único erro foi pensar que os vasos linfáticos transportavam leite… mas os universitários usaram todos os meios para denegrir as ideias de Harvey. O já mencionado director da Faculdade de Medicina de Paris, Guy Patin, afirmava que “a circulação é paradoxal, inútil à medicina, falsa, impossível, ininteligível, absurda, nociva à vida do Homem.” Felizmente, Boileau fechou o assunto ridicularizando estes médicos com o seu Arrêt burlesque, onde a Corte chega a proibir o sangue de ser tão vagabundo e de circular e vaguear no corpo. Se Molière não concordava com as teorias de Harvey, pelo menos também não poupou escárnio àqueles que cegamente seguiam a opinião dos antigos:

O CAMPONÊS (ao médico). Ele não aguenta mais e diz que sente na cabeça as maiores dores deste mundo.
O MÉDICO. Esse doente é um tolo. Na doença de que sofre, não é a cabeça, segundo Galeno, mas sim o baço que lhe deve doer.

in Monsieur de Pourceaugnac, Acto I, Cena VIII, 1669.

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A observação acima da especulação

homunculiPara além da fisiologia, houve também um grande desenvolvimento da anatomia e da microscopia. Este foi o século dos nossos conhecidos Wharton, Malpighi, Glisson e de Niels Stensen, que provou que as lágrimas provêm das glândulas lacrimais e não do cérebro, como se pensava desde a Antiguidade. Anton Van Leeuwenhoek era um vendedor de tecido sem formação científica, que dedicou o seu tempo livre à exploração do mundo microscópico, através de microscópios que ele mesmo confeccionava. Teve a ideia de observar e analisar depósitos entre os seus dentes, água e o seu próprio esperma, onde descobriu que existiam “pequenos animais semelhantes a girinos”, denominados “vermes espermáticos”. Esta nova, para além de escandalizar a boa sociedade europeia, veio contrariar a teoria da geração espontânea e do preformismo, que dizia que havia “pequenos homens” pré-formados no sémen. Niklaas Hartsoeker, para além de supostamente os ter visto, publicou gravuras destes pequenos homunculi !

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Século XVII – Grandes teóricos, pequenos clínicos

O ensino médico

Ainda assim, o ensino da medicina neste século não era de boa qualidade. Limitava-se ao estudo sem reflexão nem crítica dos autores da Antiguidade e do mundo árabe. Considerava-se que cada órgão tinha uma faculdade que lhe dava a função que o caracterizava: se as artérias batiam, é porque possuiam uma virtude pulsátil; se o útero conseguia entesourar um feto durante nove meses, é porque gozava de uma propriedade retentora, que trocava por uma expulsiva na altura do parto. Esta tautologia, esta redundância escolástica foi necessariamente ludibriada, nomeadamente por Malebrauche, que começou a evocar uma virtude tractória para explicar como é que uma carruagem seguia os cavalos que lhe estavam atrelados.
Mas o ensino prático também falhava: dissecava-se muito pouco. Havia, na Faculdade de Medicina de Paris, apenas três ou quatro “anatomias” por ano. Um barbeiro-cirurgião segurava no bisturi e era ele quem dissecava, quem sujava as mãos, enquanto o médico apenas dissertava em latim. O evento era tão raro que o risível personagem Thomas Diafoirus decide convidar a bela Angélique a ir assistir à dissecção de uma mulher, durante a qual ele irá discursar! Ao que a criada Toinette responde:

TOINETTE. O divertimento será agradável. Há quem ofereça às amantes a comédia, mas oferecer uma dissecção é algo mais galante.

in Le Malade imaginaire, Acto II, Cena 5, 1673.

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Clysterium donare, postea seignare, ensuitta purgare!

No entanto, este século das Descobertas (científicas) não trouxe grandes repercussões no domínio da clínica: a terapêutica vigente e aplicada resultava ainda muito da doutrina dos temperamentos e do humorismo galénico, apesar do enriquecimento da farmacopeia. Usava-se e abusava-se dos purgativos: segundo Le Journal de la santé du roi Louis XIV, completado diariamente de 1652 a 1711, ficamos a saber que em 59 anos, o astronómico monarca tomou mais de 2000 purgativos, o que dá uma média de três por mês. Mas mais conhecida e inquietantemente usada em quase todas as situações era a sangria, de quem Guy Patin era um frenético adepto. Patin sangrou treze vezes num mês uma criança de sete anos e onze vezes em seis dias um homem de 81 anos. Sangrou um bebé de 11 meses e um recém-nascido de três dias! Mas também considerava a terapêutica benéfica para si mesmo e para os seus: submeteu-se sete vezes à flebotomia para curar uma constipação, sujeitou a mulher pneumónica a doze sangrias e lancetou vinte vezes o filho, quando este sofreu de febre tifóide. Mesmo Louis XIV, que não apreciava esta arte da flebotomia, foi cortado 38 vezes na sua vida.
Portanto, para muito médicos, a terapêutica disponível resumia-se a sangrar, purgar e a administrar clísteres. E, portanto, Molière está muito próximo de ou toca mesmo na verdade, quando uma das suas personagens atribui às mais variadas patologias o mesmo invariável tratamento:

BACHELIERUS. Clysterium donare,
Postea seignare,
Ensuitta purgare.»

E se tal não resultar?

« BACHELERIUS. Clysterium donare,
Postea seignare, 
Ensuitta purgare, reseignare, repurgare, et rechilitterisare.»

 

in Le Malade imaginaire, Acto III, Cena XIV, 1673.

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Le Chirurgien

 

No entanto, reconheçamos que, apesar de não-adeptos da palpação e da percussão, enfim, do exame objectivo rigoroso explorador de abdómenes suados e de cavidades naturais, os médicos da altura faziam um belo esforço no estudo minucioso de certos sinais, tal o pulso. Os tipos de pulso eram classificados e sub-classificados infindavelmente em: longus, latus, altus, magnus, brevis, angustus, humilis, mollis, durus, plenus, tardus, gracilis, capricans, dicrotus, undosus, vermicularis… para não citar nem metade. A importância atribuída a este sinal era de tal forma exagerada que tanto em L’Amour médecin como em Le Médecin malgré lui, Molière coloca um falso médico a palpar o pulso do pai para tirar conclusões sobre o estado de saúde da filha: “eis um pulso que marca que vossa filha está muda” (Le Médecin malgré lui, Acto II, Cena 4) !

 

A morte do génio

Frontispice Le Malade imaginaire.

Reconheçamos ainda e finalmente, desta vez sem ironia nem malícia, que o problema talvez fosse da medicina e não dos médicos, da teoria e não daqueles que a serviam. Molière admitiu-o e ouviu-o na pele da personagem Argan, o seu “doente imaginário”, ao dialogar com o irmão deste sobre os valores da medicina e do conhecido dramaturgo Jean-Baptiste Poquelin. Uma vez este Malade imaginaire representado, no final do dia 17 de Fevereiro de 1673, Molière incomodado e já muito doente volta para casa, na rue de Richelieu, onde, passadas poucas horas, por volta das dez da noite, viria a morrer, de forma violenta e de um mal ainda hoje não totalmente esclarecido.

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Inês Pereira tem 24 anos, é natural de Cascais e frequentou a FCM/NMS de 2010 a 2016. Mas, antes de enveredar pela via da Medicina, deambulou durante quinze anos pelo Liceu Francês Charles Lepierre de Lisboa, onde adquiriu um gosto particular pelas línguas. Fala fluentemente português, francês, inglês e alemão (quase...). Se lhe perguntarem que língua nova se segue, ela, muito aflita, vos dirá que ainda não sabe, que ainda não se decidiu. Italiano, polaco, grego, russo, árabe...? Enquanto não opta por um (ou dois...) partido(s) linguístico(s), vai lendo, ouvindo muita música e percorrendo os festivais de cinema que puder. A Mente no seu suporte cerebral e a Filosofia são duas paixões desta pequena cabeça, narcisicamente enamorada pelo Ser Humano.

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