CAPA 5

A palavra escrita é saber, experiência e história, mas também entretenimento, prazer, viajar e, em última análise, uma arma.

Escrever é materializar o pensamento e o trabalho, colocar num papel o fruto de horas de solidão, imprescindível na receita da creatividade. Escrever bem é difícil, redigir é arriscado, compor uma obra literária um trabalho herculano. Muitos afogam-se num denso mar de palavras e de ideias que não conseguem aliar de forma harmoniosa: e vai mais um sinónimo, troca a ordem das palavras, tira ritmo, dá cadência, faz uma piada, fala sério… e está tudo mal. E lá vai mais um papel amarfanhado aterrar levemente no chão da sala de trabalho do escritor frustrado. Aqueles que sobrevivem ao processo criativo conseguem testemunhar o perigo desta agitação mental e deste caos de incertezas: o de não criar nada. Portanto há que admirar aqueles que criam e, sobretudo, aplaudir aqueles que criam bem.

Hoje, dia 23 do mês 4, celebra-se o Dia Internacional do Livro, porque foi a 23 de Abril que Cervantes, Shakespeare e Inca Garcilaso de la Vega morreram. É também a data de nascimento ou de morte de muitos outros autores, de tal forma que será pertinente colocarmo-nos duas questões: se não terá sido, afinal, 23 a conta que Deus fez e se, da mesma forma que falamos em Clube dos 27 para músicos, não deveríamos criar outro para homens e mulheres de Letras. Mas enfim, reflexões e divagações à parte, é uma data para assinalar e, por isso mesmo, a secção da Cultura traz hoje uma lista de sugestões de leitura de acordo com o ano de curso de Medicina, para que os alunos entendam que livros não são sinónimo de estudo, que o silêncio de uma biblioteca não tem de ser opressor, que existe muito mais para além da realidade do Aqui e do Agora.

Boas viagens!

 

1º

Stiff de Mary Roach

“Se conseguires ver sangue sem te sentires mal, podes ir para Medicina.” Certo?… Errado. O verdadeiro baptismo é outro e, se não envolve fogo, é de facto algo inflamável. Os preparativos parecem simples: vestir uma bata, atar o cabelo, usar sapatos fechados, comprar “o kit e, para os mais prevenidos, untar levemente as narinas com Vicks® para não sucumbir aos cheiros penetrantes e experiências etéreas provocadas pelos vapores alcóolicos que envolvem um local que nunca ninguém entenderá por que razão se chama Teatro, como se de repente os corpos se fossem erguer do Além para representar uma última cena em vida. Agora sim, quem consegue manipular um cadáver, quem se confronta com a Morte sem demasiado desconforto, quem interioriza que o Saber, antes de se deitar nas páginas de um livro, teve que ser extraído de matéria ex-viva, esses podem continuar a estudar arduamente. Mas basta, chega de egocentrismos: enquanto dissecamos, estamos tão determinados a transformar aquele indivíduo num objecto de estudo, que nos esquecemos de louvar estas pessoas que se entregam às nossas mãos, muitas vezes sem saber exactamente a que é que se estão a candidatar. E é também sobre as experiências que lhes são infligidas, algumas óbvias, outras bizarras, que Mary Roach decide escrever. Stiff: the curious lives of human cadavers é um livro surpreendente, um trigger de risos involuntários e descontrolados entre arrepios de nojo, um tratado sobre o estoicismo heróico de milhares sem nome. Em suma: divertido, informativo e inteligente.

Esperemos que o primeiro parágrafo do livro convença os mais cépticos:

The way I see it, being dead is not terribly far off from being on a cruise ship. Most of your time is spent lying on your back. The brain has shut down. The flesh begins to soften. Nothing much new happens, and nothing is expected of you.”

― Mary Roach, Stiff: the curious lives of human cadavers

 

2º ANO

O século é o décimo sétimo, e Robinson Crusoe, recentemente naufragado na costa deRobinson Crusoe de Daniel Defoe Trinidad, tenta desesperadamente salvar dos escombros do navio toda a carga que lhe possa garantir o mínimo sustento alimentar. O século é o vigésimo primeiro, e os alunos do segundo ano, recentemente naufragados na época de exames do primeiro semestre, (embora não apoquentados com o sustento alimentar, aprovisionados que estão, geralmente, com um carregamento naval de itens bombasticamente calóricos), tentam desesperadamente salvar dos cadernos e livros qualquer resquício de matéria que lhes possa garantir o mínimo sustento académico.

Daniel Defoe (1660-1731) baseou Robinson Crusoe nas suas próprias viagens como comerciante. O seu gosto por viajar reflecte-se na sua ficção: as suas personagens beneficiam invariavelmente de uma mudança drástica no curso da sua vida quando decidem afastar-se da Inglaterra nativa, e a riqueza descritiva das peripécias marítimas advindas pressupõe contacto directo com algumas delas. Basicamente, lê-se Robinson Crusoe quando o objectivo é trocar a enchente da biblioteca por uma ilha inabitada, o ar saturado pelo cheiro a maresia de um convés, ou a monotonia de 400 páginas lidas e relidas por uma espingarda, um restolhar de folhas secas e um segundo para distinguir entre o reflexo da lua e um par de olhos nos arbustos.

Robinson Crusoe vive, em cerca de 300 páginas, desde aventuras farmacológicas envolvendo a auto-prescrição de uma mistura de tabaco e rum (culminando num inesperado efeito adverso do foro alucinogénio), à construção de uma canoa de proporções gigantescas no meio da floresta, apenas para se deparar com a impossibilidade de a mover até ao mar (e simpatizarão com Robinson todos aqueles que tiverem lidado com a frustração de mover setas num mapa de fisiopatologia), passando pela famosa amizade com “Sexta-feira” (esta última comum a todo o estudante universitário). O título original do livro, The Life and Strange Surprizing Adventures of Robinson Crusoe, Of York, Mariner: Who lived Eight and Twenty Years, all alone in an un-inhabited Island on the Coast of America, near the Mouth of the Great River of Oroonoque; Having been cast on Shore by Shipwreck, wherein all the Men perished but himself. With An Account how he was at last as strangely deliver’d by Pyrates, diminuto (tal como o de outra obra analisada recentemente) , poderá ser visto como uma referência directa à extensão do conteúdo de uma outra publicação, que partilha com o nome “Robinson” as primeiras letras (mais um “b”), e que merece do segundanista, no mínimo, um carinho especial.

 

3º

Sou, antes de tudo, solidário do homem comum. Amanhã o mundo poderá romper-se em pedaços. Há uma lição de verdade nessa ameaça que paira sobre nossas cabeças.”

― Albert Camus, A Peste

La Peste de Albert Camus

Citação pertinente para introduzir a terceira sugestão. A Peste, publicada pela primeira vez em 1947, obra do escritor franco-argelino Albert Camus, Prémio Nobel da Literatura em 1957, é a crónica de uma praga, o relato imparcial da epidemia que invade Oran, pequena cidade Argelina, então território francês, que se confronta e muda, individual e colectivamente, perante a vida e a morte. Obra de sentido alegórico, apresenta no centro do cenário descritivo o Dr. Bernard Rieux que, conduzindo o nosso olhar, descreve a sua visão da cidade, presa na sua própria liberdade, obrigada a confrontar-se com a realidade, com o absurdo. É a descrição de uma batalha inglória, cujo inimigo muito mais poderoso obriga o definir de uma resposta absurda perante o absurdo, a de continuar, e em que o confronto permanente entre dúvidas e certezas relembra a nossa própria condição.

O isolamento imposto pela ocupação nazi em França, entre 1940 a 1944, foi decisivo para inspirar Camus a escrever um clássico que negou ser realista, mas real, tão só. A escolha da sugestão é não apenas justificada pelas muitas descrições semiológicas da peste bubónica, no ano em que são introduzidas as bases teóricas de microbiologia, imunologia e saúde pública, mas também pela necessidade de pensar para além do óbvio, numa leitura que não queremos que seja pesada, mas apenas diferente.

 

4ºO 4º ano… a missão impossível. Por estes dias, quem encontra um colega do 4º ano nos corThe Eleventh Commandment de Jeffrey Archerredores da faculdade, pergunta-se de quem essa pessoa estará a fugir. Sim, porque eles andam sempre a correr.

A pensar nessa falta de tempo crónica, aliada ao cansaço que lhe vem indubitavelmente associado, a escolha de um livro para recomendar a estes colegas teria de passar por um produto de consumo fácil. Traçando um paralelo com outros vícios, deixamos para outros anos o belo, envolvente, ainda que pesado, tinto alentejano – o que este pessoal precisa é de um verdinho que escorregue bem.

É nessa ordem de pensamentos que O 11º mandamento: Não te deixarás apanhar de Jeffrey Archer é adequado para a função. Está longe de ser uma obra-prima premiada da literatura, mas garante entretenimento. Neste livro, Jeffrey Archer narra a história de Connor Fitzgerald, um espião da CIA na sua última missão antes da reforma. Profissional exemplar, dedicou a sua vida à agência. Contudo um espião reformado deixa de beneficiar a instituição e passa a ser um potencial ponto fraco, pelo que, na sua última missão, Connor terá que cumprir a tarefa quase impossível de que foi incumbido e, simultaneamente, sobreviver às tentativas da sua agência para se livrar dele. Pelo meio, tem de jogar o derby do “desporto” político internacional: a guerra da informação Estados Unidos vs. Rússia. Assim, temos um David contra dois Golias, as páginas vão-se virando, e o leitor perde a noção do tempo, até chegar ao desfecho.

Acreditamos que os colegas do 4º ano se possam identificar com uma personagem que se dedica ferozmente à sua profissão, e passa o livro todo a fugir pela vida. Para quem quiser descobrir este livro deixamos por desvendar: será que o nosso espião sobrevive à sua fuga no final? Será que ele se deixará apanhar?

 

5ºBreakfast of Champions de Kurt VonnegutA julgar pelo nível de algumas ilustrações, dir-se-ia que Kurt Vonnegut estava a atravessar uma crise de meia-idade quando escreveu este livro. Não é um qualquer autor que, aos 50 anos, se deita a desenhar esquematicamente partes de períneo num romance sobre dois homens solitários: um apenas excêntrico, outro mentalmente perturbado e à beira de um treco. O primeiro é Kilgore Trout, escritor de ficção científica, sem um tostão e que diz que espelhos são fendas (para outra dimensão). O segundo é Dwayne Hoover, um revendedor de carros Pontiac muito well-to-do (ou seja, abastado), mas vítima das suas reacções químicas cerebrais pouco saudáveis. O tom é escandaloso e humorístico, com uma pesada feição irónica. Simplista também, por vezes tão simples e leve, que o leitor se poderá sentir como que tratado de “ignorante”, quando se apercebe que Vonnegut está mesmo a explicar (e a desenhar para que fique claro!) o que é uma maçã, uma ervilha ou um dinossauro. O cepticismo torna-se quase que palpável, tal é a desilusão do autor com a sociedade norte-americana e com o país do plástico e do descartável, onde por vezes certas coisas são aceites, não porque façam sentido, mas porque soam bem.

Uma grande moca (com todo o devido respeito), perfeita para quem se anda a dedicar a assuntos mais psiquiátricos.

 

6º

The House of God de Samuel ShemFinalmente, a pôr termo às nossas escolhas de catarse, sugerimos, aos nossos colegas do sexto ano (para ler nos raros momentos em que um certo livro não esteja a pressionar as suas palavras para dentro de todo e qualquer vestígio de massa cinzenta que, no seu ócio distraído, esperava passar despercebida e incólume), uma obra peculiar, satírica nos seus melhores momentos e um vislumbre do internato que, infalivelmente, vos espera ao virar da esquina. Um livro para respirar, rir e distrair quando mais precisarem.

Publicado em 1978, foi empregue com ímpeto para várias alterações ao sistema de internato dos EUA. Contudo, a sua contínua circulação em trinta e sete anos, apesar da sua desactualização face ao paradigma actual do internato que iremos enfrentar, é um indício que a natureza da mensagem da obra é clara e contemporânea dos nossos tempos.

A Casa dos Deuses de Samuel Shem (pseudónimo do psiquiatra Stephen Bergman) é uma obra cáustica e mordaz que reconta e reconstrói as vivências autênticas do trauma psicológico vivido pelos médicos internistas nos anos idos de 1970. Nas suas páginas, conhecemos o Dr. Roy Basch, brilhante estudante mas um inevitável ingénuo e jovem internista que inicia o seu internato no hospital House of God após completar os seus estudos na BMS (Best Medical School). Com ele cinco colegas, também eles ávidos de conhecimento e reconhecimento, são emparelhados com o mais “iluminado” e instruídos dos especialistas, o iconoclasta Fat Man.

Este enigmático e no mínimo controverso médico especialista inicia as nossas personagens às “Leis da Casa dos Deuses”, um conjunto de sabedoria que irá permitir aos nossos jovens internos sustentarem-se na sua luta de subsistência e permanecerem com a sua sanidade mental intacta, tanto nas entranhas dos serviços de urgência, como na experiência completa que é a vida de um médico.

Law XIII: The delivery of medical care is to do as much nothing as possible.”

― Samuel Shem, The House of God