Diagnosticar Alzheimer antes que os sintomas o façam

A doença de Alzheimer, para além de ser extremamente devastadora a nível familiar e social,também é uma doença com uma progressão muito lenta, estimando-se que demore cerca de 10 anos até que surjam os primeiros sintomas. É com base nesta premissa que novos estudos têm sido realizados, pretendendo alcançar métodos de diagnóstico mais precoces, de forma a que a terapêutica possa ser instituída antes de qualquer dano neuronal.

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A doença de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa cujo sintoma mais comum é a perda de memória. Estimativas da OMS indicam que em 2012 cerca de 36 milhões de pessoas foram afetadas e calcula-se que este número venha a duplicar ate 2020, sendo por isso já considerada um emergente problema de saúde pública. A doença está associada a idades mais avançadas e afeta não só a memória, como também a linguagem e a perceção temporal e espacial. Inevitavelmente a doença termina com dependência total e consequências sociais, emocionais e económicas tanto para as famílias como para a sociedade. Com a população mundial a aumentar cada vez mais e com a esperança média de vida crescente que se tem verificado nas últimas décadas, torna-se crucial encontrar algum tipo tratamento mais eficaz. Apesar desta tarefa não ter sido fácil, a comunidade científica tem feito grandes esforços nesse sentido.

Uma equipa da Hertie Institute for Clinical Brain Research em Tübingen, Alemanha, juntamente com uma equipa do Hospital de Santo António – CHP, no Porto, associaram alterações na composição do líquido cefalo-raquidiano (LCR) à evolução da doença. Para o estudo têm sido utilizados modelos animais e têm sido pesquisados os efeitos do tratamento em vários estádios da doença, incluindo o pré-clínico, ou seja, quando os sintomas ainda não se encontram presentes.

Copper-Implicated-as-a-Possible-Cause-of-Alzheimer’s-DiseaseNa observação verificou-se uma diminuição do péptido β-amilóide e um aumento da proteína Tau no LCR destes indivíduos em relação às pessoas sem doença. Isto pode ser explicado pelo aumento das placas β-amilóide, que vão sendo progressivamente formadas no sistema nervoso, deixando menos péptido disponível no LCR. Por outro lado, o aumento da proteína Tau reflete o aumento progressivo dos tangles neurofibrilhares e a destruição das células nervosas, ficando assim mais disponível no LCR. O mais entusiasmante deste estudo foi comprovar que o aumento destas proteínas no LCR começa a alterar-se mesmo antes do aparecimento das placas de β-amilóide, dos tangles neurofibrilhares ou da destruição neuronal. Deste modo, estes resultados podem ser utilizados para monitorizar a doença na ausência dos sintomas, e identificá-la mais precocemente.

Do outro lado do Atlântico, na Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, uma outra equipa liderada por Richard Axel, Prémio Nobel da Medicina em 2004 pelas suas descobertas sobre o funcionamento das vias olfativas, defende que a perda deste sentido é um dos primeiros sintomas de doenças neurológicas graves como o Alzheimer.

Sabe-se que para a maioria dos animais, o olfato é um dos sentidos mais primários e importantes, aquele que é necessário para identificar alimentos, predadores e também companheiros. No ser humano é um sentido com menos funções, mas não menos importante. A equipa defende que os neurónios das vias olfativas são muito sensíveis a distúrbios, assim as alterações podem ser observadas em fases muito precoces das doenças neurológicas. No caso da doença de Alzheimer, sabe-se que normalmente, na fase pré-clínica da doença, o que acontece em primeiro é uma perda do sentido olfativo. Deste modo, com base nesta informação, a equipa espera contribuir para o desenvolvimento de novos testes de diagnóstico feitos com base neste sentido.

Em ambos os casos o objetivo primordial é detetar a doença mais precocemente, para que o tratamento deixe de ser sintomático, ou seja, apenas quando os sintomas já estão presentes e já há alguma destruição neuronal. Assim, a terapêutica passaria a ser preventiva, de forma a atrasar o aparecimento dos sintomas e evitar, o maior tempo possível, a destruição neuronal. As incógnitas vão sendo reveladas, apesar de ainda haver muitas por descobrir, mas caminhamos certamente para um shift na forma de ver e tratar esta doença.

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