Nem Só de Pão Vive o Homem. Comer para Crer

Todos os que andam atentos às recentes publicações nas revistas científicas repararam, certamente, que entre os temas mais frequentemente abordados se encontra o das incríveis descobertas de propriedades, até há pouco tempo inexplicadas, de alimentos que consumimos diariamente. Afinal, poderá estar o futuro da farmacologia e terapêutica entre talheres?

[IMAGEM DE CAPA] FoodRevolution-31_600

Segundo um artigo publicado na Revista CiênciaHoje, a descoberta realizada por uma equipa de investigadores da Universidade de Jilin, na China, poderá agitar a abordagem terapêutica realizada a indivíduos com hipertensão arterial. Segundo este mesmo artigo, a existência de um peptídeo RVPSL na clara de ovo mimetiza, de acordo com este estudo, a função de um dos grupos de fármacos mais relevantes e frequentemente utilizados na terapêutica da hipertensão arterial, os Inibidores da Enzima de Conversão da Angiotensina (IECAs). Este peptídeo, que poderá ser isolado e futuramente utilizado na constituição de novos fármacos, ao inibir a enzima conversora da angiotensina tem um importante papel na redução da pressão arterial e portanto relevância na melhoria da qualidade de vida dos doentes e na sua mortalidade a longo prazo.

Focando a atenção na terapia neoplásica, uma equipa de investigadores da Universidade Estatal de Ohio comprovou recentemente o efeito da Vitamina E (presente em inúmeros alimentos como cereais integrais, gema de ovo e fígado, entre outros), mais precisamente na sua forma gama-tocoferol, na prevenção e tratamento deste grupo de patologias. Poderíamos pensar, desta forma, nos suplementos de Vitamina E, acessíveis em formato de venda livre e frequentemente disponíveis, como uma revolução para a terapêutica neoplásica, como linha terapêutica ou abordagem complementar. Segundo o investigador Ching-Shih Chen, responsável por este grupo de investigadores, ainda não existe comercialização da fórmula que possui estes efeitos benéficos em pequena dose. Seria necessário o consumo de uma grande quantidade destes suplementos, ou de uma versão concentrada do seu metabolito ativo, para conseguir alcançar o mesmo efeito benéfico da fórmula recentemente encontrada e que promete revolucionar a atual terapêutica anticancerígena.

O consumo de sal e o seu importante papel no perfil tensional dos indivíduos é, desde há algumas décadas, um dado concreto e indiscutível. A Revista Nature, traz-nos no entanto uma área patológica dramaticamente diferente, na qual o sal parece desempenhar um importante papel: três trabalhos de investigação corroboram a inesperada relação entre o consumo de sal e o surgimento de doenças autoimunes. Através da experimentação em ratinhos, estes estudos demonstraram que o sal potencia a produção de linfócitos T. Enquanto população de alimentação tipicamente mediterrânica, este conceito poderá ser uma importante evolução científica, permitindo explicar o aumento do número de doenças auto-imunes relatado pelo director executivo da Associação Americana de Doenças Auto-imunes, referindo-se essencialmente às doenças que apresentaram um maior crescimento, nomeadamente a Doença celíaca, o Lúpus e a Diabetes Tipo 1. O factor alimentar poderá, eventualmente, contribuir para a ocorrência destas patologias, mas não actua sozinho – segundo Vijay Kuchroo, do Instituto de Broad – pois a genética possui um papel imprescindível.

De acordo com os dados deste estudo ainda é cedo de mais para para permitir justificar a evicção de sal na alimentação como profilaxia para o surgimento de Doenças Auto-Imunes uma vez que este estudo ainda tem de ser realizado em humanos, mas a perspectiva futura poderá passar por este aqui, particularmente em famílias nas quais exista um fundo genético favorável ao desenvolvimento destas patologias.

Na época da farmacogenómica, da engenharia molecular e do design inovador de fármacos a partir de novos princípios ativos, estabelecendo novas fronteiras, até agora inexploradas, na oferta e forma de responder às recentes necessidades terapêuticas, estes artigos, e o entusiasmo aos mesmos atribuível, leva-nos de volta a um caminho já percorrido. Voltamos a olhar para a comida na sua forma mais simplista como fonte de saúde, após décadas de pesticidas e opções de antibioterapia na pecuária, a procurar na sua estrutura os elementos mais unitários que permitam esclarecer os seus inúmeros e inesperados benefícios. Estamos, de certa forma, a procurar pacientemente com um nano-microscópio a sabedoria nas frases das gerações que nos antecederam – uma espera que valerá certamente a pena.

[hr]

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here