Quimioterapia – até que a morte nos separe?

Existem benefícios na manutenção de quimioterapia paliativa? Poderá a quimioterapia dar aos doentes uma falsa esperança até ao fim da vida?

Com a colaboração da Doutora Sofia Braga (SB) – oncologista dos hospitais CUF (José de Mello Saúde) – a FRONTAL (F) responde a estas e outras perguntas!

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F: Quais os objetivos do seu projeto de investigação PIATI : Determinants and reasons for administering chemotherapy at the end of life in breast cancer patients?
SB: Na atual base de dados que engloba apenas doentes do Hospital Fernando Fonseca, temos 116 mulheres que morreram com cancro da mama. O uso de quimioterapia no fim de vida, ou seja, no último mês de vida, aparece em 30% das doentes. Apesar de ser um número alto, está de acordo com os dados que temos do outro hospital onde há dados já publicados. Com a ajuda das alunas da FCM-NOVA, o objetivo deste estudo é reanalisar estas doentes e as várias linhas de quimioterapia utilizadas, estendendo posteriormente esta amostra a outros hospitais, para a obtenção de resultados que respondam à questão colocada.

F: Na terapia dos carcinomas em geral, existem de facto benefícios na manutenção de quimioterapia paliativa?
SB: Sim, a quimioterapia prolonga o tempo de vida, temos é de ser criteriosos para perceber “que vida”, em termos de qualidade de vida, é que estamos a prolongar e com que custo económico e social.

No artigo Why do our patients get chemotherapy until the end of life?, publicado em 2011, a Doutora Sofia Braga explica: “Os médicos podem estimar a sobrevida do paciente de forma precisa? A maioria provavelmente não, todos os médicos, oncologistas em particular, tendem a superestimar a sobrevivência devido a várias razões: ligação emocional forte, complicações catastróficas subestimadas (…) Uma estratégia para superar esse problema é fazer reavaliações frequentes e pedir a colegas mais experientes que façam previsões mais precisas.

F: Poderá a manutenção da quimioterapia até ao fim da vida ser uma forma de atrasar o que é impreterível – a morte – dando aos doentes uma falsa  esperança?
SB: Isso depende do clínico, temos de informar a família que vamos tentar prolongar a vida com qualidade, isso não é falso. Sou mais cuidadosa na forma como devemos informar os doentes, pois considero que os devemos proteger um pouco.

No mesmo artigo, a Doutora refere ainda que “ (…) astenia, perda de peso (…), bem como as funções renal e hepática contribuem para a avaliação risco/benefício relativa ao uso da quimioterapia. Se a quimioterapia é aceite, esta decisão deve ser reavaliada com frequência. A pesagem cuidadosa riscos e benefícios clínicos é o cerne da questão: Primum non nocere.

E acrescenta ainda: “Os objetivos da quimioterapia paliativa diferem dos da quimioterapia curativa, porque os tumores sólidos metastáticos são geralmente incuráveis; o objetivo é aumentar a sobrevivência.

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F: Qual a sua opinião relativamente à utilidade terapêutica da descoberta recente realizada pela equipa da Professora Paula Videira na terapia do cancro da mama? (link para este artigo publicado anteriormente na Frontal)
SB: As terapêuticas dirigidas, que seletivamente atinjam as células de cancro, sem afetar as outras são sempre muito interessantes, são o futuro, e é isso que a Professora Paula descobriu em glícidos que aparecem especificamente nas células do cancro da mama.

Relativamente à justificação para a falta de investigações científicas no âmbito da quimioterapia e dos carcinomas terminais, a Doutora explica: “As investigações clínicas relativas ao Cancro respondem maioritariamente a questões derivadas de estudos clínicos farmacológicos. Até os estudos académicos liderados por instituições e grupos colaborativos são dependentes do financiamento da indústria farmacêutica. É extremamente difícil encontrar questões aplicadas à clínica oncológica que não envolvam fármacos, o que poderia ser um das razões pelas quais este tipo de investigação é menos atraente.

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Para mais informações sobre este tema poderás consultar outras publicações suas:

1. S Braga, Why do our patients get chemotherapy until the end of life? Annals of Oncology 2011 22(11): 2345-2348

2. Braga S, Miranda A, Fonseca R, Passos-Coelho JL, Fernandes A, Costa JD, Moreira A. The aggressiveness of cancer care in the last three months of life: a retrospective single centre analysis. Psychooncology. 2007 Sep;16(9):863-8.

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