Uma simbiose para a vida – parte II

3Nos anos 1900, os cientistas descobriram que o ser humano apresentava um de quatro grupos sanguíneos: A, B, AB e O. Agora revelou-se uma nova forma de classificar a humanidade: através das bactérias. Todos nós somos hospedeiros de milhares de micróbios de espécies diferentes. No entanto, um grupo de cientistas denunciou a existência de três ecossistemas distintos de bactérias – enterótipos – nos intestinos dos indivíduos em estudo.

enterotipo

A equipa de investigação extraiu o DNA a partir das amostras fecais de um pequeno grupo, constituído por Europeus, Japoneses e Americanos. Descobriu-se que cada tipo de enterótipo, nomeado consoante a bactéria dominante, era composto por um equilíbrio único de espécies microbiais: Bacteroides – conhecido por quebrar os hidratos de carbono e por ser melhor na síntese de vitaminas B2, B5, C e H; Prevotella – cuja função é degradar o muco e produzir mais ácido fólico e vitamina B1; e por fim Ruminococcus – que ajuda as células absorverem os açúcares. Não foi encontrada nenhuma relação entre os enterótipos dos indivíduos e o peso, a etnia ou a localização geográfica destes. Peer Bork, líder da investigação no Laboratório Europeu de Biologia Molecular, Heidelberg, Alemanha, comenta que “Algumas coisas já são bastante óbvias. Os médicos serão capazes de adaptar as dietas ou as prescrições dos fármacos consoante os enterótipos das pessoas. Outra possibilidade seria a utilização dos enterótipos como alternativa aos antibióticos, que se estão a tornar cada vez mais ineficazes”.

A cada ano, o número total de mortes causado por resistência bacteriana aos antibióticos supera de longe o número causado por ataques terroristas. Por isso, a resistência aos antibióticos já não é um risco abstrato: agora é uma guerra. Nos últimos 100 anos, as nossas expectativas de vida e de sobrevivência mudaram drasticamente. No início do século XX, um terço da mortalidade infantil inferior aos 5 anos devia-se em grande parte às doenças infecciosas. Hoje em dia, em contrapartida, uma criança nascida no Reino Unido tem um quarto de probabilidade de chegar aos 100 anos – tudo graças não só ao sistema de saúde atual, às vacinas e aos antibióticos, mas também ao melhoramento das unidades de cuidado intensivo – local onde os organismos resistentes aos antibióticos são mais prevalentes.

nz083O equilíbrio a favor dos antibióticos tem mudado constantemente. Os médicos têm abusado dos fármacos eficazes contra as doenças infecciosas de uma forma indiscriminada. Porém, estes abusos não se têm limitado apenas aos cuidados de saúde, os antibióticos também têm sido introduzidos na cadeia alimentar, através da agricultura e indústria pecuária. Partiu-se do princípio de que a terapia antibiótica seria uma vantagem permanente e de que a indústria farmacêutica iria continuar eternamente como líder à frente do jogo. Nos anos 40, com o aumento da utilização dos antibióticos, emergiu a primeira evidência da existência de bactérias resistentes, que, na verdade, não passava de uma mera curiosidade. Hoje em dia, esta representa um facto da história médica.

É preciso que haja uma mudança cultural, tanto nos comportamentos de prescrição, como na contenção do uso dos antibióticos nos diversos processos agrícolas. As empresas farmacêuticas, que outrora tinham tido o poder absoluto sobre estes microrganismos de tamanho “inofensivo”, também devem ser estimuladas para desenvolver alguns fármacos que lhes são menos rentáveis. Caso contrário, teremos o início de uma nova guerra –  Homem VS Superbactéria, quem ganhará?

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