Uso Medicinal de Canábis e Canabinoides

Em 2018, foi legalizada, com a Lei n.º 33/2018, de 18 de julho, a utilização para fins medicinais de medicamentos, preparações e substâncias à base da planta da canábis.[1]

Neste contexto, torna-se importante conhecer os potenciais benefícios do uso medicinal de canábis e canabinóides, bem como os seus possíveis riscos.


A planta Cannabis sativa

Antes de mais, falemos sobre aquela que é, das várias espécies de canábis, a mais utilizada: a Cannabis sativa.[2]

A Cannabis sativa possui mais de 500 compostos, dos quais aproximadamente 100 são canabinóides – neste caso, fitocanabinóides, uma vez que são produzidos por uma planta. De destacar o Δ9-tetrahidrocanabinol (THC), que é o principal composto psicoativo, e que atua como agonista parcial dos recetores canabinóides tipo 1 (CB1). De referir ainda o canabidiol (CBD), que é o principal constituinte não psicoativo. É modulador alostérico negativo dos recetores CB1, antagonizando os efeitos do THC.[2-4]

Os fitocanabinóides são produzidos em estruturas da planta chamadas tricomas (Figura 1), que são pequenos crescimentos que se pensa protegerem a planta dos predadores, da radiação UV e da desidratação.[2] Deste modo, plantas que crescem, por exemplo, em ambientes mais quentes produzirão uma quantidade superior de canabinóides comparativamente às que crescem em ambientes não tão quentes. E isto leva-nos a um dos principais problemas relacionados com a utilização de plantas para fins terapêuticos: a dificuldade no controlo da dose. No caso da Cannabis sativa, algumas plantas terão mais THC, outras terão menos, nomeadamente pelo facto de nem todas as plantas serem expostas às mesmas condições atmosféricas e de solo.

Figura 1 Tricomas. Pequenos crescimentos da Cannabis sativa onde os fitocanabinóides são produzidos, e que se pensa protegerem a planta dos predadores, da radiação UV e da desidratação.

Fonte: Gould, J. (2015). The cannabis crop. Nature, 525(7570), S2-3.

Na verdade, o próprio ser humano possui um sistema endocanabinóide, constituído por canabinóides endógenos (como a anandamida e o 2-araquidonilglicerol), que possuem um papel importante na modulação da libertação de neurotransmissores. E fazem-no de forma retrógrada, uma vez que são produzidos a nível pós-sináptico, e atuam a nível pré-sináptico[5,6] (Figura 2).

Figura 2 Mecanismo de neuromodulação por parte dos canabinóides. Os neurotransmissores, depois de libertados, ligam-se a recetores localizados na membrana pós-sináptica, levando, deste modo, a um aumento da atividade do neurónio pós-sináptico. Este aumento da atividade vai, por sua vez, estimular a produção de endocanabinóides a partir de fosfolípidos da membrana celular. Uma vez libertados na fenda sinápica, os endocanabinóides ligam-se aos recetores CB1, o que conduz a uma série de mecanismos que culminam na inibição da libertação de neurotransmissores. Fitocanabinóides como o THC, à semelhança dos endocanabinóides, ligam-se aos recetores CB1, conduzindo igualmente a uma inibição da libertação de neurotransmissores.

Adaptado de: Velasco, G., Sánchez, C., & Guzmán, M. (2012). Towards the use of cannabinoids as antitumour agentes. Nat Rev Cancer, 12(6), 436-44.

De referir que tanto os fito- como os endocanabinóides atuam na via dopaminérgica mesolímbica (envolvida nos circuitos de recompensa). E, ao inibirem a libertação de GABA, levam a uma maior libertação de dopamina, a qual é responsável por uma sensação de recompensa, prazer e euforia.[3,6]


A evidência atual relativamente ao uso medicinal de canábis e canabinóides

Existe um nível de evidência moderado relativamente ao uso de canábis e canabinóides para tratamento da espasticidade associada à esclerose múltipla, da dor crónica, e da epilepsia.[7] Outras indicações terapêuticas, mas cujo nível de evidência é inferior, são o tratamento de náuseas e vómitos associados a quimioterapia; estimulação do apetite nos cuidados paliativos de doentes sujeitos a tratamentos oncológicos ou com SIDA; síndrome de Gilles de la Tourette; e glaucoma resistente à terapêutica.[7,8]

Em Portugal, o único medicamento com canabinóides como princípio ativo comercializado neste momento é o Sativex®, sob a forma de solução para pulverização bucal. Está indicado na melhoria da espasticidade associada à esclerose múltipla refratária à terapêutica de primeira linha. E, tratando-se de um medicamento, a composição de THC e CBD é relativamente uniforme e controlável.[9]

Por outro lado, nas preparações e substâncias à base da planta da canábis, o teor em THC e CBD é difícil de precisar, por motivos como o facto de nem todas as plantas serem expostas às mesmas condições atmosféricas e de solo, já referido anteriormente. Além disso, estará a usar-se não apenas o THC e/ou o CBD, mas sim toda a planta, e, por conseguinte, todos os seus mais de 500 compostos, o que pode aumentar o risco de efeitos adversos. É também mais difícil determinar a relação risco-benefício das preparações e substâncias à base da planta da canábis pelo facto de a maioria dos ensaios clínicos serem conduzidos em medicamentos com canabinóides (ou seja, apenas com THC e/ou CBD), o que dificulta a extrapolação para os efeitos da planta como um todo.[9]

De facto, de acordo com o Infarmed, as preparações e substâncias à base da planta da canábis apenas devem ser utilizadas nos casos em que se determine que os tratamentos convencionais com medicamentos autorizados não estão a produzir os efeitos esperados, ou provocam efeitos adversos relevantes.[8]

Os efeitos adversos mais comummente reportados a curto prazo aquando do uso medicinal de canábis e canabinóides são: tonturas, boca seca, desorientação, náuseas, euforia, confusão e sonolência.[7] Parece haver também uma associação com indução de surto psicótico ou esquizofrenia, especialmente em indivíduos mais jovens e com uma certa vulnerabilidade genética.[9] É ainda possível o desenvolvimento de dependência. Contudo, é necessária investigação adicional para determinação dos riscos do uso medicinal de canábis e canabinóides, especialmente a longo prazo, em parte porque os estudos incidem essencialmente sobre o uso recreativo de canábis.[7]


Conclusões

Em suma, o uso medicinal de canábis e canabinóides pode ter uma relação risco-benefício positiva, particularmente quando falamos de medicamentos com canabinóides, cujo teor em THC e CBD é relativamente uniforme e controlável.

No entanto, os benefícios do uso medicinal de canábis e canabinóides acabam por se sobrepor aos riscos apenas em circunstâncias muito específicas, nomeadamente pela falta de evidência científica robusta relativamente à relação risco-benefício da utilização de preparações e substâncias à base da planta da canábis.


Bibliografia

  1. Lei n.º 33/2018, de 18 de julho. Diário da República n.º 137/2018 – I Série. Assembleia da República. Lisboa.
  2. Gould, J. (2015). The cannabis crop. Nature, 525(7570), S2-3.
  3. Golan, D.E., Tashjian, A.H., Armstrong, E.J., & Amstrong, A.W. (2012). Principles of pharmacology: the pathophysiologic basis of drug therapy (3rd edition). Philadelphia: Wolters Kluwer.
  4. Laprairie, R. B., Bagher, A. M., Kelly, M. E., & Denovan-Wright, E. M. (2015). Cannabidiol is a negative allosteric modulator of the cannabinoid CB1 receptor. British journal of pharmacology, 172(20), 4790–4805.
  5. Velasco, G., Sánchez, C., & Guzmán, M. (2012). Towards the use of cannabinoids as antitumour agentes. Nat Rev Cancer, 12(6), 436-44.
  6. Stahl, S.M. (2013). Stahl’s essential psychopharmacology: Neuroscientific basis and practical applications (4th edition). Cambridge: Cambridge University Press.
  7. European Monitoring Centre for Drugs and Drug Addiction (2018). Medical use of cannabis and cannabinoids: questions and answers for policymaking. Luxembourg: Pulications Office of the European Union.
  8. Infarmed (2019). Deliberação n.º 11/CD/2019 [acedido a 14 Mar. 2020].
  9. Fonseca, B.M., Filipe, H.D.M., Carvalho, F.D., & Campos, M.G. (2018). Parecer do Grupo de Trabalho da Ordem dos Farmacêuticos sobre a Utilização de Canábis com Fins Terapêuticos. Lisboa.

Miguel Anjos, o autor deste artigo, é colaborador do Departamento de Ciência e Investigação da AEFCM. 

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