Vacinação contra o HPV em rapazes: para quando?

A infeção pelo Vírus do Papiloma Humano (HPV) é considerada uma das mais frequentes doenças sexualmente transmissíveis em todo o mundo. O HPV, com mais de 200 variações, instala-se na pele e nas mucosas genitais. A associação desta infeção com o cancro do colo do útero valeu o Prémio Nobel da Medicina (2008) a Harald zur Hausen, e esta descoberta impulsionou a vacinação contra este vírus.
Vaccination

Existem mais de 200 tipos de HPV que afetam o tecido epitelial de muitas regiões anatómicas, dos quais cerca de 40 infetam o trato anogenital (vulva, vagina, colo do útero, pénis e áreas perianais). Estes são classificados de acordo com o seu potencial oncogénico em vírus de alto risco e baixo risco. Existem cerca de 15 tipos de HPV de alto risco, sendo os serotipos 16 e 18 responsáveis por 70 a 75 % dos casos de cancro do colo do útero. Os HPV’s de baixo risco geralmente associam-se ao desenvolvimento de verrugas genitais. Atualmente são comercializadas duas vacinas – uma bivalente, contemplando os serótipos 16 e 18, e outra tetravalente contendo, para além dos dois anteriores, os 6 e 11.

A vacina contra o HPV encontra-se implementada no Plano Nacional de Vacinação para raparigas a partir dos 10 anos de idade, como forma de prevenir eficazmente o carcinoma do colo do útero. Contudo, dados recentes sugerem que a infeção por HPV poderá levar a outros tipos de cancro, afetando também o sexo masculino: começa então a ser plausível a vacinação em rapazes se a prevenção for mesmo eficaz. Os números falam por si e merecem, no mínimo, atenção: 50% dos cancros no pénis, 90% dos cancros no ânus e 18% na orofaringe são causados pelo HPV. E mais: estima-se que cerca de 75 % dos homens e mulheres sexualmente ativos irão ter pelo menos uma infeção por HPV (sendo o seu pico após o início da vida sexual).

A maioria das infeções por HPV no homem são assintomáticas, sendo de difícil diagnóstico mesmo observando os genitais (geralmente recorre-se a uma genitoscopia para confirmação). Grande parte das lesões associadas encontram-se no prepúcio, glande, sulco balano-prepucial, uretra, rafe peniana, escroto e área perianal.

Porque é que ainda não foi implementada a vacinação contra o HPV em rapazes?

Sendo estas doenças associadas ao HPV altamente incapacitantes e potencialmente causadoras de morte, a questão sobre a vacinação em rapazes, defendida por Harald zur Hausen, anteriormente entrevistado pela FRONTAL – adquire agora especial importância. E já alguns avanços foram feitos: em Outubro de 2011, nos EUA, o Advisory Committee on Immunization Practices (ACIP) revê e aprova a vacinação universal contra o HPV para rapazes com a vacina quadrivalente, com idades entre os 11 e 12 anos; no mesmo ano, na Austrália, o Pharmaceutical Benefits Advisory Committee (PBAC) recomenda a vacinação contra o HPV para rapazes dos 12-13 anos; no Canadá, em Janeiro de 2012, o National Advisory Committee on Immunization (NACI) apoia a vacinação para rapazes com idade entre os 9-26 anos para “prevenção de lesões anais pré-cancerosas, cancro anal e condilomas genitais”. Esta recomendação visa proteger não só os rapazes, como as raparigas que têm vindo a ser vacinadas numa percentagem muito inferior à recomendada, devido a fatores como a má aceitação social (nas sociedades mais conservadoras) e consequente relutância dos pais em vacinar as suas filhas.

Indeed, it is an important aspect that this is a moment when cervical cancer, at least in theory, can be eradicated, probably not only by vaccinating young women, but also by vaccinating boys as well. This is because boys are very active transmitters of the virus and they also acquire later in their lives cancers linked to the same types of viruses like oropharyngeal cancer and anal cancer. In addition, genital warts, which occur relatively frequently in both genders, are very nasty problems. For all those reasons, it is important to get vaccinated and to vaccinate both genders.

Harald zur Hausen, at the iMed Conference® 5.0


Em Portugal, não existem ainda estudos oficiais sobre o assunto, ficando à responsabilidade de cada médico decidir ou não prescrever a dita vacina. Muitos especialistas, como pediatras, já recomendam a vacina tetravalente em indivíduos do sexo masculino. Contudo, o elevado custo de cada dose (150€) constitui uma grande desvantagem, dado não existir qualquer comparticipação… Considera-se, assim, que a implementação da vacinação nos rapazes portugueses terá ainda um longo caminho a percorrer, passando por persuadir a tutela da sua importância.

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