A Síndrome de Harrison

Taquicardia. Palidez crónica. Profundas alterações do sono (se houver), com irritabilidade. Perda de memória. Atraso mental. Regressão de capacidades comunicativas básicas. Lentificação da compreensão. Hiperpigmentação infra-orbitária (aka olheiras bilaterais e constantes). Estes são sinais patognomónicos no exame físico. Casos de alucinações, em que o enfermo se imagina a ter acesso à especialidade dos seus sonhos, também se encontram bem documentados na literatura científica. Apesar de a TC-CE (ou RM) revelar, sem qualquer margem para dúvidas, vários fusíveis irreversivelmente queimados no lobo frontal, não é ainda inteiramente claro se a etiologia destas alucinações reside nos fenómenos de sobreaquecimento sináptico que condicionam os referidos achados imagiológicos ou se se tratam de síndromes confusionais, delírios ou mesmo quadros demenciais, com todo um padrão de sinalética neuronal muito recôndito e, como é característico da genialidade, incompreendido.
 
imagemfinal

Esta síndrome anda de mãos dadas com diversas co-morbilidades, entre elas, e merecendo especial destaque, a procrastinação crónica. São muitíssimo frequentes os episódios de descompensação desta patologia, durante os quais o enfermo se vê a dar largas à criatividade que os circuitos neuronais fritos lhe proporcionaram e arranjar tempo livre onde ele (não) existe de facto para vasculhar por todos os cantos da sua mente incansável e intrépida em busca das mais variadas temáticas, criando desafios e enigmas intelectuais com os quais ele próprio se tem de confrontar para se superar a si mesmo, na demanda constante pelo Conhecimento e Sabedoria Supremos, que mantém acesa a Chama Interior do Finalista do curso de Medicina. Os assuntos abrangidos neste processo cognitivo chegam a ser mais numerosos que os anos que vai levar até que o Sporting volte a ser campeão, podendo passar por:

  • Uma observação e sistematização calma e cuidada dos ricos e intrincados padrões visuais que se podem imaginar em toda a extensão das paredes da sala de estudo;
  • O ângulo que a luz do sol deveria fazer com a esplanada mesmo ali do outro lado da rua em que o enfermo gostaria de estar sentado para que a mesma ficasse à sombra;
  • A temperatura a que se saboreia melhor o café que o enfermo gostaria de estar a beber;
  • Que neurónios do seu sistema meso-límbico são accionados cada vez que desenterra lá bem do fundo do seu hipocampo o que resta das memórias já meio putrefactas dos remotos dias de praia, em que não tinha de passar dias inteiros com nistagmo e diplopia de tanto remexer com os olhos as linhas intermináveis de descrição de hemorróidas e gastro-enterites; Qual era exactamente aquela palavra, bem como o seu significado, começada por “F” e acabada em “S”, que descrevia um período que ia, mais coisa menos coisa, de Julho até meados de Setembro e que geralmente era quando ia à praia.
Ocasionalmente, a mente pode deambular até assuntos que se revestem de uma delicadeza mais peculiar, como:
  • Qual a roulotte de couratos com a vista mais agradável e consequentemente para onde ele gostaria de ir trabalhar caso, chegado o dia do Juízo Final, a doença de que padece seja declarada terminal;
  • Onde é que Nostradamus e os Maias tinham a cabeça quando disseram que o dia acima mencionado seria 21 de Dezembro de 2012 e não 20 de Novembro de 2014;
  • Qual a forma menos dolorosa de pôr termo à vida dos pobres dos doentes que se cruzem no seu caminho caso a doença de que padece não seja declarada terminal;
  • Qual a forma mais dolorosa de pôr termo à vida de quem escreveu, editou e publicou o livro que têm aberto à sua frente;
  • Que frustrações, ressentimentos ou outros sentimentos negativos as pessoas que escreveram, editaram e publicaram o referido livro nutriam pelos Finalistas do curso de Medicina;
  • De que forma os astros se alinharam nos anos anteriores para que tantos enfermos tenham conseguido sobreviver, tendo alguns dos quais até, surpreendentemente, entrado na especialidade que queriam;
  • De que forma os cérebros dos alegados sujeitos, já cheios de curtos-circuitos, aguentaram com a descarga de dopamina que se seguiu, manifestada clinicamente pela euforia;
  • De que forma todo o processo cognitivo pelo qual os enfermos estão a passar naquele preciso momento é de facto patológico e não será antes uma tentativa de alívio (ainda que momentâneo) dos sintomas psiquiátricos da síndrome de Harrison, de forma a maximizarem as hipóteses de sobreviverem ao Dia do Juízo Final e posteriormente poderem também gozar a sensação de estoirarem o que resta dos seus cérebros com a referida descarga de dopamina, ou de que forma os enfermos não estão apenas a tentar dissipar o sentimento de culpa que os rói por dentro ao enquadrarem o acto de procrastinar não no domínio do patológico mas sim numa componente fundamental de um esquema puramente terapêutico.
11785
Dia do Juízo Final – 20 de Novembro de 2014

Estão também reportados casos em que os enfermos, durante os episódios de procrastinação, ganham subitamente interesse por áreas que talvez anteriormente menosprezassem ou desvalorizassem e decidem varrer toda a internet e devorar de fio a pavio os mais diversos conteúdos das diferentes bibliotecas virtuais. Os temas vão desde as causas da decadência do Império Romano à descoberta do Bosão de Higgs e suas implicações na Física Quântica, passando pela aprendizagem do alfabeto cirílico, uma apreciação das obras de arte de Leonardo Da Vinci ou Miguel ângelo ou, em casos ainda mais infelizes, temas ainda mais desafiantes intelectualmente, como a biografia dos concorrentes da Casa dos Segredos com actualizações minuto a minuto, um levantamento exaustivo dos insultos com que uma bancada para-lamentar fustiga outra durante os plenários quinzenais da Assembleia da República ou uma análise sintática (e semântica) das declarações de Jorge Jesus.

A incapacidade de o enfermo transpor a força de vontade e o entusiasmo com que se dedica a estes assuntos ao estudo de colonoscopias e toques rectais é um sinal patognomónico de que se encontra num episódio de exacerbação de mandrionice crónica (também pode receber este nome).

É frequente também a associação desta síndrome com a síndrome de Estocolmo, bem patente nos momentos em que o enfermo se vê desesperado e precisa mesmo de esclarecer uma dúvida terrível sobre dispneias que o atormenta desde há dias e que tem mesmo de saber, para o bem dos seus futuros doentes, da sua consciência moral, assim como para que haja uma hipótese de ter sequer futuros doentes, antes de tudo. No entanto, não é possível separar um leopardo das suas pintas, e o enfermo sabe-o como ninguém. Se, por um lado, o livro que tem pela frente o ajuda em certos momentos de ansiedade e o enfermo se rende por completo à sabedoria impressa à frente dos seus olhos (chegando mesmo a sentir uma paixão por aquele amontoado de folhas de papel, momentânea mas acompanhada de um delírio e um ardor bem no fundo do seu ser, tão ou mais intensos que os de uma infecção urinária), o enfermo não esquece com facilidade a compulsão que sente não raras vezes para lançar esse mesmo amontoado de folhas na lareira e extasiar-se com a imagem de se ver a aplicar todos os métodos de tortura medievais alguma vez inventados ao autor.

O prognóstico desta síndrome é enevoado e misterioso. O controlo consciente da frequência cardíaca e da tensão arterial através da meditação e do poder da mente são medidas terapêuticas de grande eficácia, segundo estudos efectuados numa população de estudantes Hindus, mais que não seja para contrabalançar os efeitos nocivos do aumento do consumo de cafeína. Quanto à terapêutica farmacológica, jamais se deve descurar a toma do Xanax®, podendo ser necessário também, uma vez por outra, o Prozac®. Por fim, embora ainda não seja consensual, conforme já referido, se a criatividade empregue nos momentos de alienação é ou não um factor-chave para o (des)controlo da patologia a longo prazo com consequências sobre a sobrevida do enfermo, as guidelines actuais recomendam que a mesma seja exercitada, pelo seu efeito benéfico a curto prazo, também já mencionado, do ponto de vista sintomático. Se estas medidas forem seguidas com o mesmo rigor com que o Finalista se aplica na preparação para o Dia D, o prognóstico é bom, podendo comprometer, no entanto, os prognósticos dos futuros doentes.

Uma Origem Diabólica

T-R_Harrison
Tinsley Randolph Harrison. Nunca foi julgado pelos crimes que cometeu contra a Humanidade. As suas últimas palavras: “Não guardo remorsos… Apenas saudades.”

Esta doença foi criada por um médico denominado por Tinsley Randolph Harrison (18 de Março de 1900 – 4 de Agosto de 1978), residente em Birmingham, Alabama, quando decidiu escrever e ser chefe de redacção das primeiras cinco edições de um livro com o seu nome (“Harrison’s Principles of Infernal Medicine”), tendo a primeira sido lançada em 1950. Tinsley concluiu o liceu com 15 anos, tendo passado depois, na sua vida universitária, pela Universidade de Michigan, John’s Hopkins School of Medicine, Peter Bent Brigham Hospital e Universidade de Vanderbilt, tendo sido na última, em conjunto com a University of Alabama School of Medicine, que transmitiu os seus ensinamentos e manigâncias a um vasto grupo de acólitos. Detentor de um conhecimento infindável, Tinsley conhecia bem o ser humano por dentro, tendo perfeita noção de onde e como se podia provocar as dores mais excruciantes. Todo este intelecto combinado com uma perfídia e maquiavelismo irrerversivelmente entranhados no seu ser resultaram na escrita e publicação do livro acima mencionado, que se viria a tornar num pesadelo de referência mundial e que, mais tarde, deu mesmo origem a uma doença do foro psiquiátrico, a síndrome de Harrison, cumprindo assim o sonho de criança de Tinsley.

A doença assim criada vitimou incontáveis gerações de estudantes de Medicina um pouco por todo o mundo, constituindo uma pandemia que se tem vindo a revelar difícil de domar. Ao que tudo indica, Portugal encontrou, em 2014, um método de prevenção muito simples, em teoria tão eficaz na prevenção da mesma como a abstenção o é para a prevenção da gravidez. No entanto, como não há mundos perfeitos, há a necessidade de os estudantes utilizarem um outro livro para o exame final de admissão à especialidade, com a possbilidade de se gerar uma doença diferente, com nome ainda a designar mas cujas características, em princípio, podem não ser muito diferentes das da síndrome de Harrison. Há testes pré-clínicos agendados para 2017. Os mesmos têm por objectivo estudar os efeitos adversos e toxicidades do tratamento, de forma a compreender se os mesmos compensam a eficácia do tratamento.

Estudantes do 4º ano, a prepararem-se para os ensaios pré-clínicos de 2017.

A maioria das informações contidas neste artigo são puramente fantasiosas, salvo os dados biográficos do Dr. Harrison, que, de facto, existiu e deixou ao mundo um dos livros de medicina mais estudados do mundo – Harrison’s Principles of Internal Medicine. Só muitos anos mais tarde é que o nome Harrison veio a ser conotado com uma significância omniosa como o é actualmente para os finalistas de Medicina portugueses. Quem sabe se este (certamente) simpático médico alguma vez pensou que a sua existência poderia implicar tantas noites mal dormidas aos alunos de Medicina…

Artigo anteriorA doença e o vírus
Próximo artigoExercício da Medicina do exercício
As origens do Pedro Vazão Vasques remontam ao longínquo dia de 5 de Junho de 1993, dia em que infligiu os seus primeiros estragos nos tímpanos de um qualquer pobre coitado a estagiar no Hospital D. Estefânia em Pediatria (ele parte do princípio que os profissionais de saúde já não os teriam sequer e portanto não se incomodassem minimamente com os gritos de sofrimento - infligido, e com prazer - soltados pela amostra de ser humano que tinham perante si, mas refere não se lembrar muito bem). Lembra-se, no entanto, que desde pequeno que tem a mania de escrever textos cheios de parênteses, vírgulas e hífens que ficam muitíssimo - também costuma usar palavras acabadas em "íssimo", adjectivos principalmente (também palavras acabadas em "mente"), embora não neste caso - confusos e que precisam de ser lidos 3498498 vezes para se decifrar o que lá está realmente escrito - e ainda seria mais complicado se estivessem a tentar lê-lo não com a letra de computador mas sim com a sua caligrafia singular, que mesmo o próprio, por vezes, interpreta como uma sucessão bizarra de complexos QRS pleiomórficos. Metade de si é desastrada e esquecida, a outra foi entretanto derrubada ou perdida num qualquer canto da cidade de Lisboa, não se lembra bem qual. É garantido, no entanto, que a sua cabeça, neste preciso momento, andará a deambular algures pela Via Láctea, vindo algumas vezes à Terra para estabelecer contactos com a gente que por aqui anda, pôr conversas em dia e consumir as suas drogas preferidas, música e cinema.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here