#8 MUSICOTERAPIA: The Black Angels – I Hear Colors (Chromaesthesia)

Se és como a equipa da Redação da FRONTAL e já especulaste, inúmeras vezes, ao ouvires uma determinada música, sobre a probabilidade da sua inspiração ter partido algures dos confins do mundo médico, esta rubrica é para ti. É, portanto, com enorme satisfação que te trazemos hoje a continuação da Musicoterapia – a nossa rubrica musical, onde exploramos possíveis correlações, das mais óbvias às mais rebuscadas, entre a música que não nos sai da cabeça e a Medicina.


The Black Angels

The Black Angels são uma banda de rock psicadélico e garage rock originária de Austin, Texas. O nome é inspirado na música “The Black Angel’s Death Song” da banda Velvet Underground, presente no álbum The Velvet Underground & Nico, de 1967.

A banda, constituída por Christian Bland (guitarra e sintetizador), Alex Maas (baixo, sintetizador e voz), Stephanie Bailey (bateria), Kyle Hunt (teclados, baixo e guitarra) e Jake Garcia (guitarra), encontra-se no ativo desde 2004, contando com 5 álbuns de estúdio. O seu EP de estreia, o autointitulado “The Black Angels” (2005), ganhou exposição internacional na rede MySpace e em fóruns de música, tornando-se bastante popular nos meios underground.

Se ainda não carregaste no botão play, peço-te que o faças. Fecha os olhos e escreve a cor que te vem à cabeça ao ouvires os primeiros acordes.


Sinestesia

I Hear Colors (Chromaesthesia)“, presente no álbum Indigo Meadow, o penúltimo da banda, lançado em 2013, não dá grande espaço a especulações acerca da inspiração para a música: fala sobre cromestesias, isto é, sinestesias em que um estímulo não-visual provoca a perceção de uma cor.

Mas o que é a sinestesia? Na escrita, a sinestesia é uma figura de estilo que corresponde à fusão de diferentes sensações. Em medicina, consiste num fenómeno perceptivo em que um estímulo despoleta experiências em dimensões sensoriais não estimuladas diretamente. As cromestesias constituem a variedade mais comum (até cerca de 95% dos casos), podendo estar muitas vezes associadas à perceção de cores e, simultaneamente, de texturas.

A sinestesia é frequentemente classificada como congénita ou adquirida, sendo a primeira a mais comum, com uma prevalência estimada de cerca de 4,4% na população em geral e uma prevalência ainda maior na população de pessoas com Perturbações do Espectro do Autismo. Apesar de ainda pouco estudada, está demonstrada a existência de transmissão familiar. No entanto, é interessante constatar que dentro da mesma família podem ser observadas diferentes formas de sinestesias em diferentes elementos e um único indivíduo pode experienciar também mais do que um tipo de sinestesia.

Relativamente às formas adquiridas, estas surgem principalmente associadas a problemas neurológicos ou na sequência do consumo de drogas psicoativas. Enquanto a sinestesia congénita parece provocar associações consistentes, ou seja, o mesmo som evoca sempre a mesma cor, a sinestesia adquirida não costuma apresentar estabilidade das associações, podendo variar.

A falta de testes que permitissem verificar a existência de sinestesias atrasou em vários anos o seu estudo. Como é que se pode comprovar a sua existência se são, à partida, um fenómeno subjetivo?

Falando especificamente das sinestesias congénitas, importa referir que, através de vários estudos, como Hubbard et al. (2012), foi possível concluir que os sinestésicos são consistentes relativamente às suas associações letra-cor ou som-cor durante um período de meses ou até anos. De facto, Baron-Cohen et al. (1993) demonstraram 92,3% de consistência após 1 ano. Em contraste, os controlos, que são incentivados a simular sinestesias, apresentam uma consistência de apenas 32%.

Cytowic et al. (2002) chegaram à conclusão de que os sinestéticos palavra-cor tinham uma maior atividade da área visual (V4), uma região especializada na perceção e processamento das cores. Esta ativação não era reproduzível nos controlos quando lhes era pedido que imaginassem cores ou memorizassem pares de letra-cor. Relativamente a achados neuroanatómicos, os sinestésicos apresentavam, em média, um maior volume, espessura e superfície cortical quando comparados com não sinestésicos, principalmente ao nível das porções anteriores do giro fusiforme.

Estas conclusões demonstraram que, em indivíduos sinestésicos, existe um aumento do crosstalk neural entre áreas envolvidas na representação de letras e palavras e áreas envolvidas no processamento da cor.

Como é que este aumento de crosstalk se proporciona? Existem duas hipóteses:

  • Hipótese 1: Aumento da conectividade.

Os recém-nascidos nascem com excesso de sinapses que, em condições normais, sofrem um processo de pruning (poda, em português) ao longo da infância e até à idade adulta. A designação deve-se ao facto de ser um processo bastante semelhante ao desbaste de árvores, através do corte de ramos que, neste caso, são os neurónios.

Esta hipótese sugere que, no cérebro dos sinestésicos, terá ocorrido um pruning insuficiente, permitindo que estas sinapses extra persistam até à idade adulta.

  • Hipótese 2: Diminuição da inibição. 

Esta hipótese, que parte do pressuposto de que a “conectividade” dos cérebros é igual entre não-sinestésicos e sinestésicos, afirma que, em cérebros ditos “normais”, a excitação é equilibrada pela inibição, enquanto nos sinestésicos a excitação consegue ultrapassar a inibição. Esta teoria parece ser suportada pelo facto de não-sinestésicos conseguirem ter experiências de sinestesia durante meditação, uso de drogas ou ao adormecer, atividades que parecem diminuir a inhibitory network.

Fonte: Eagleman DM, Goodale MA. Why color synesthesia involves more than color. Trends Cogn Sci. 2009;13(7):288-292.


Voltando ao meu pedido inicial, que cor é que os primeiros acordes evocaram na tua cabeça? No meu caso, foi azul esverdeado. 

Quer consigamos “ouvir” cores ou não, não é preciso ser-se sinestésico para apreciar música.

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