Silêncios

No primeiro dia do Pride Month de 2021, publicamos um texto de opinião da autoria da Inês Lemos Fernandes, estudante da FCM | NMS. Fonte da capa: New York Times.

Nos silêncios do dia a dia, há vozes que falam bem alto.

Sentada no comboio, olho quem passa. Pessoas com mais ou menos pressa para os seus afazeres, com uma gargalhada mais fácil ou uma lágrima escondida, com cabelos pretos, castanhos, louros, ruivos, azuis e rosa. Centenas de pessoas ordeiramente arrumadas: a única coisa que têm em comum, para além de estarem comigo no comboio, é o facto de serem pessoas.

Olho em frente, para um senhor mais velho, que segura um jornal aberto. Por entre as rugas que lhe esculpem a cara, traçam-se linhas de histórias de quem já muito viveu. Olha o jornal de sobrancelha franzida, pelo que leio a manchete e não consigo evitar perder um pouco de esperança num mundo melhor. O assassinato de uma pessoa trans enche em letras gordas a primeira página, no mesmo sítio onde no dia seguinte estará o resultado do Benfica-Porto.

Em páginas a preto e branco de jornal, contam-se histórias de todas as cores, mas esta era uma que eu preferia que não tivesse sequer de ser escrita.

Ao lado do velhote, senta-se uma jovem, que olha a notícia como se se tratasse da confirmação de todos os seus medos. A discriminação que sente diariamente, em casa, no trabalho, quando procura aconselhamento médico, ensinou-a a guardar para si as suas inseguranças. E assim, sem querer, apresenta relutância em partilhar detalhes importantes da sua vida perante profissionais de saúde, mesmo quando o tema poderia ser relevante para efeitos de diagnóstico.

Agito-me no lugar, quero dizer que está tudo bem, que a próxima geração de profissionais de saúde vai ser melhor, menos discriminatória e mais informada, quero dizer que o acesso aos cuidados de saúde é para todos. Mas não se diz isso num comboio e não tenho tanta certeza assim de que será verdade. As estatísticas de hoje revelam uma ciclicidade entre a discriminação sentida por pessoas LGBTQIA+ nas instituições de saúde, outcomes médicos menos positivos e consequente perpetuação das dificuldades encontradas por estas pessoas no seu dia a dia, reforçando o estigma.

Este ciclo é agravado por barreiras encontradas no acesso aos cuidados de saúde, nomeadamente a recusa da prestação de cuidados, discriminação ou receio de que esta aconteça e a falta de conhecimento por parte das entidades prestadoras de cuidados (potenciada pela falta de material científico dedicado). Onde se interrompe o ciclo? No meu silêncio, berro alto respostas, na esperança que alguém me ouça.

Nesta carruagem que frequento, espero que me ouça o futuro médico que um dia poderá exercer livre de estigma e discriminação, aliado da ciência. Espero que me ouça o professor de medicina, que procure informar-se e ensinar de raiz conceitos multidimensionais de tanta importância. Espero que me ouça o médico, para que exerça eticamente, e se assegure que todas as pessoas têm acesso aos cuidados de saúde que são seu direito. Espero que me ouça o investigador, para que possa ser produzido mais material científico na área.

Isto não é um tema político. É um problema real, com consequências reais nos cuidados médicos que são (ou deixam de ser) prestados. Esta é uma luta que tem de se fazer ouvir um pouco por todo o lado. A marginalização na prestação de cuidados de saúde, no currículo médico e na investigação tem de chegar a um fim. 

Um dia, espero que seja suficiente sermos pessoas.


NOTA

LGBTQIA+ – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Trans, Queer, Intersexo, Assexual/Aliado e +(todas as possibilidades de orientação sexual ou identidade de género não contempladas anteriormente).

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