Já passaram 21 dias

            Dizem que precisamos de cerca de 21 dias até criarmos uma determinada rotina, um hábito. Dizem, também, que os seres humanos são sociais e dependentes uns dos outros a vários níveis. Mais, dizem que somos frágeis. Agora, mais que nunca, sinto tudo isso.

            A minha faculdade fechou há mais de 21 dias. Voltei para casa há mais de 21 dias. Neste número de dias superior a 21, adormeço e acordo sensivelmente à mesma hora, tomo o pequeno-almoço e sento-me à secretária do meu quarto – onde durmo. Faço uma pausa, estico o tapete e ligo à minha madrinha para exercitarmos juntas – no meu quarto, onde durmo e estudo. Almoçamos 4 pessoas na mesma mesa, algo que já não me lembrava ser possível com tanta frequência como agora. Volto para a minha secretária durante mais umas horas. Leio umas páginas de um livro que me ofereceram – no meu quarto, onde durmo, estudo e treino.

            Quando está sol, passo uns minutos à varanda. Escuto, em silêncio. Ouvem-se mais pássaros a chilrear, ou ouvem-se melhor, agora que há menos trânsito na avenida. Permaneço ali, quieta, a observar as cores que a primavera trouxe aos campos em frente ao prédio, a sentir o calor agradável do fim de tarde e a procurar algumas certezas. É certo que aquelas folhas da árvore vão continuar verdes amanhã, é certo que o sol se vai pôr de novo, é certo que tenho uma varanda…

            Mas há tantas incertezas que me atormentam. Quando é que vou deixar de ver pessoas com máscaras e luvas no supermercado? Quando é que o telejornal vai mudar de assunto? Quando é que vou poder abraçar os meus amigos? Quando é que vai parar a transmissão da doença? Quando é que posso entrar num avião? Quando é que voltarei a ser livre? E como será o meu quotidiano daqui a 3 meses?

            Não há respostas nem previsões certas, pelo que é importante ser paciente e saber aceitar a realidade. Isso implica aceitar que sou frágil, que fico doente, que transmito esta doença a pessoas que me são queridas e a outras que nem conheço. Como tal, fico em casa, tentando descobrir a melhor maneira de lidar com este isolamento. Nuns dias ocupo-me na cozinha, noutros estudo, em todos treino, às vezes vejo filmes, há dias em que medito… e há dias em que estou à beira de um ataque de pânico sem o poder prever nem conter. E choro se precisar, especialmente de tanta saudade que tenho em mim (“do meu viver de estudante” também).

            No meio de tanto desconcerto, dou conta de milhares de mensagens de força espalhadas pelas redes sociais, cartazes com arco-íris desenhados onde se lê “Vai ficar tudo bem”, concertos no Instagram, aulas online de yoga, museus virtuais e toda uma panóplia de ideias maravilhosas, ao gosto de cada qual. É fundamental este espírito de comunidade e compaixão, que certamente servirá de grande aconchego para a maioria de nós. A questão é: será isso suficiente para manter a sanidade mental?

            Enfim, após estes mais-de-21 dias, aprendi a valorizar aquilo que assumia como garantido – passar o dia com os amigos na faculdade, almoçar com a família ao fim de semana, beber um café na esplanada, planear uma visita a quem mais me faz falta e trocar carinho sem medo.

            Não sei se irei regressar ao meu normal habitual, mas sei que estas pequenas (grandes) coisas certamente deixarão de ser apenas memórias. Por isso, estou pronta para mais 21.

 

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