As Mulheres e a Medicina

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No dia 8 de Março comemora-se o Dia Internacional da Mulher. Esta é uma daquelas efemérides face à qual se observam manifestações muito variadas: desde a leve paródia inofensiva, eventualmente servindo de pretexto para aquela jantarada de amigas, ou (com sorte…) uns mimos advindos de uma cedência ao marketing comercial da época; até pontos de vista bem mais sérios, predominantemente políticos, sobre feminismo e/ou igualdade entre sexos.

Mas de onde surgiu a necessidade de comemorar este dia? O que tornou esta data especial?

O Dia Internacional da Mulher

O final do século XIX e início do século XX caracterizaram-se por importantes protestos liderados por mulheres, que pretendiam melhorar as suas condições laborais e adquirir direitos que até aí eram restritos aos homens. O primeiro Dia Nacional da Mulher celebrou-se nos Estados Unidos a 28 de Fevereiro de 1909, e foi designado pelo Partido Socialista da América, em honra de um destes protestos: uma grande greve das trabalhadoras têxteis em Nova Iorque, em 1908.

No ano seguinte, 1910, numa reunião do Partido Socialista Internacional, em Copenhaga, estabeleceu-se o Dia Internacional da Mulher, em honra do movimento para os direitos das mulheres e para servir de plataforma para a luta pelo sufrágio verdadeiramente universal.

Em 1913-1914 o Dia Internacional da Mulher também se tornou um mecanismo de protesto contra a I Guerra Mundial. Como parte integrante do movimento de Paz, mulheres russas celebraram o seu primeiro Dia Internacional da Mulher, naquele que era o último domingo de Fevereiro.

Em 1917, ainda num cenário de guerra, as mulheres na Rússia reuniram-se novamente para protestar por “Pão e Paz”, mais uma vez no último domingo de Fevereiro do seu calendário – que corresponde a 8 de Março no calendário ocidental. Quatro dias mais tarde, o czar abdicou e o governo provisório garantiu o direito de voto às mulheres.

Anos mais tarde, em 1975, durante o Ano Internacional da Mulher, as Nações Unidas ratificaram a comemoração do Dia Internacional da Mulher para o dia 8 de Março.

As Mulheres nas Ciências Médicas

Merit Ptah (2700 a. C.)

Viveu no Egipto durante a Idade do Bronze. Sobre a sua vida pouco se conhece, mas acredita-se ter sido uma das primeiras médicas da História. No seu túmulo, próximo do Cairo, lê-se “chefe médico”.

Crê-se que na civilização egípcia não existia discriminação de género no acesso a conhecimentos de Medicina, tendo chegado aos nossos dias indícios da existência de pelo menos cerca de 100 médicas.

Agnodice (circa 400 a. C.)

(Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5c/Agnodice._Wellcome_L0016719.jpg)

Agnodice

Foi a primeira médica em Atenas. Durante o período hipocrático era permitido a mulheres gregas a aprendizagem da Medicina, na sua vertente de Ginecologia e Obstetrícia. Contudo, após a morte de Hipócrates, e perante a descoberta que estas mulheres faziam abortos, a prática da Medicina por mulheres tornou-se um crime punível com a pena capital. Agnodice, para cumprir o seu desejo de se tornar médica, disfarçou-se de homem e abandonou Atenas, para aprender Medicina próximo do Egipto. Nessa zona, as mulheres eram aceites na comunidade médica.

Manteve, contudo, o disfarce ao regressar a Atenas, onde iniciou a sua prática médica. Depois de ter revelado a sua identidade a uma doente, a sua popularidade cresceu entre as mulheres de Atenas, que se sentiam mais confortáveis com uma mulher a tratá-las.

Esta popularidade levou a que maridos ciumentos e colegas rivais a levassem a julgamento, acusando-a de seduzir as mulheres e levá-las a fingir doença. Nesta ocasião, revelou-se como mulher, e foi então acusada de prática ilegal. Nesta altura, as mulheres que tratou surgiram em tribunal para atestar a sua competência como médica e foi consequentemente absolvida. Mais tarde foi alterada a lei que proibia a prática da Medicina por mulheres.

Metrodora (200 – 400 a. C.)

Médica grega, aceite como a primeira autora de literatura médica. A sua obra, Sobre as Doenças e Curas das Mulheres, constituída por dois volumes com 63 capítulos, é fortemente influenciada pelo pensamento hipocrático, e cobre muitas áreas da Medicina, incluindo Ginecologia, mas não Obstetrícia. Foi referenciada frequentemente por outros autores da época, e traduzida e publicada na Europa medieval.

Trota de Salerno (século XI)

Trota de Salerno (Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/e/ec/Trotula_of_Salerno_Miscellanea_medica_XVIII_Early_14th_Century.jpg)

Trota de Salerno

Foi provavelmente uma médica, obstetra e ginecologista que viveu em Salerno (povoação a sul de Nápoles) no século XI. Acredita-se que foi a autora dos textos mais importantes da Medicina da Mulher no período medieval europeu, bem como a primeira professora da escola de Medicina de Salerno.

Atribui-se a Trota de Salerno a autoria de Practica secundum Trotam e De curis mulierum, textos cujas cópias foram encontradas em vários países do velho continente, até ao final do século XIII.

James Barry (1795 – 1865)

James Barry (Fonte: http://server.absolutelypc.co.uk/~wearefamilymagaz/wp-content/uploads/2014/12/jamesbarry.jpg)

James Barry

Nascida Margaret Ann Bulkley, com o apoio da sua família transformou-se em James Barry, para poder estudar Medicina. Sob este disfarce, formou-se em 1812 na cidade de Edimburgo. Em 1813 juntou-se ao Exército como cirurgião. Serviu na Índia e na Cidade do Cabo, onde subiu à patente de Inspector Geral e implementou medidas de saúde pública, incluindo de higiene e dieta, que levaram a que o serviço sob a sua orientação tivesse uma das melhores taxas de recuperação da guerra da Crimeia. Fez também uma das primeiras cesarianas com sucesso em 1826, e produziu um relatório sobre a epidemia de cólera em Malta em 1848. O seu disfarce só foi descoberto no momento da sua morte, em 1865, por disenteria.

Virginia Apgar (1909 – 1974)

Virginia Apgar (Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/7/76/Virginia_Apgar.jpg)

Virginia Apgar

Diz-se que todos os bebés nascidos em hospitais modernos em qualquer parte do mundo são observados pela primeira vez com os olhos da Dra. Virginia Apgar. O seu método simples de avaliação da viabilidade de recém nascidos – o índice de Apgar – é actualmente prática standard.

Virginia Apgar formou-se inicialmente como anestesiologista, e, tendo nessa condição acompanhado múltiplos procedimentos obstétricos, desenvolveu o índice seu homónimo, que, através da monitorização de parâmetros clínicos um minuto após o nascimento, avalia a saúde do recém-nascido. Posteriormente, estudou a correlação entre os índices obtidos em milhares de partos e características do trabalho de parto, acontecimentos no parto em si e o tipo de anestesia materna, bem como malformações dos recém-nascidos. Foi, desta forma, uma pioneira da Anestesiologia, Neonatologia e Teratologia.

Helen B. Taussig (1898 – 1986)

Helen Taussig (Fonte: http://www.precepta.com.br/wp-content/uploads/2014/03/mulheres-na-medicina.jpg)

Helen Taussig

Helen Brooke Taussig é considerada a fundadora da Cardiologia pediátrica pelo seu trabalho inovador relacionado com a “síndrome do bebé azul” (tetralogia de Fallot). Taussig, juntamente com os colegas Alfred Blalock e Vivien Thomas, desenvolveu uma cirurgia para correcção desta malformação congénita, tendo também um papel importante no afastamento da talidomida do mercado norte-americano.
Apesar de disléxica, estudou em Harvard e na Universidade de Boston, transferindo-se depois para o Johns Hopkins University School of Medicine para prosseguir os estudos na sua área de interesse, Cardiologia. Em 1944, juntamente com Blalock, realizou a primeira cirurgia bem sucedida de correcção numa criança com o referido defeito cardíaco. Publicou em 1947 a sua importante obra, Congenital Malformations of the Heart.

Rosalyn Sussman Yalow (1921 – 2011)

Especialista em Física Médica, foi co-vencedora do Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia em 1977, com Roger Guillemin e Andrew Schally. Recebeu este prémio pelo seu trabalho no desenvolvimento do radioimunoensaio, uma técnica que permite medir concentrações ínfimas de substâncias (como por exemplo hormonas ou vitaminas) em fluidos. Foi uma técnica de extrema importância na facilitação do rastreio de micro-organismos patogénicos em sangue doado para transfusões.

Barbara McClintock (1902 – 1992)

Barbara McClintock (Fonte: http://profiles.nlm.nih.gov/ps/access/LLBBPW_.jpg)

Barbara McClintock

Citogeneticista, McClintock desenvolveu formas de visualizar e caracterizar os cromossomas do milho. Entre o seu legado à Ciência contam-se feitos como a descrição da interacção cruzada dos cromossomas durante a meiose e a recombinação de traços genéticos; demonstração que este processo de crossing-over acontece não apenas entre cromossomas homólogos, mas também entre cromatídeos irmãos. Constatou igualmente que o crossing-over entre segmentos não homólogos pode dar origem a dano celular e analisou também a organização e função do centrómero. Por fim, analisou os danos celulares causados pela irradiação dos cromossomas, sendo as conclusões destes estudos ainda relevantes actualmente no estudo do cancro.

Foi galardoada com o Prémio Nobel da Fisiologia e Medicina em 1983, sendo a primeira mulher a recebê-lo individualmente. Recebeu-o pela descoberta de “elementos genéticos móveis”, cerca de 30 anos depois de ter descrito o fenómeno.

Rita Levi-Montalcini (1909 – 2012)

Rita Levi-Montalcini formou-se em Medicina pela Universidade de Turim em 1936, ficando depois a trabalhar na universidade. No entanto, em 1938, Mussolini instituiu leis em que decretava que pessoas com ascendência judaica, como Rita, não poderiam trabalhar em universidades, nem na maioria das profissões, incluindo a Medicina. Rita Levi-Montalcini montou então um laboratório no seu quarto, criando instrumentos cirúrgicos afiando agulhas de costura. Neste laboratório improvisado estudou o crescimento de nervos em embriões de galinha. Trabalhou desta forma durante toda a II Grande Guerra.

Terminada a guerra, voltou a trabalhar na Universidade de Turim, sendo pouco tempo depois convidada a ensinar na Universidade de Washington. Foi nos laboratórios desta universidade que começou a trabalhar com Stanley Cohen e, aplicando os conhecimentos sobre crescimento de nervos, que tinha acumulado durante a guerra, a outros tecidos (nomeadamente tumorais), isolaram o factor de crescimento de tecido nervoso (NGF).

Só anos mais tarde é que a comunidade científica reconheceu a importância deste achado, percebendo que juntamente com outros factores de crescimento, esta descoberta abria caminho para tratamentos dirigidos a doenças como a de Alzheimer, o cancro ou a infertilidade. Foi nesta altura que Rita Levi-Montalcini e Stanley Cohen foram galardoados com o prémio Nobel da Medicina (1986).

Gertrude B. Elion (1918 – 1999)

Gertrude Elion (Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5c/Gertrude_Elion.jpg)

Gertrude Elion

Elion e os seus colaboradores usaram as diferenças bioquímicas entre as células humanas normais e as patogénicas para desenvolver fármacos para o seu tratamento. Entre os princípios activos desenvolvidos por este método contam-se vários usados actualmente no quotidiano da profissão médica, como a 6-mercaptopurina (Purinethol®), o primeiro tratamento para a leucemia e usado para o transplante de órgãos; a azatioprina (Imuran®), o primeiro agente imunossupressor, usado em transplantes; o alopurinol (Zyloprim®), para a gota; o anti-malárico pirimetamina (Daraprim®), ou o antiviral aciclovir.

Recebeu, com James Black e George Hitchings, o prémio Nobel da Medicina em 1988.

Mary Claire King (1946 – )

Actualmente professora de Medicina e Genética na Universidade de Washington, Marie Claire King tornou-se conhecida pelo seu trabalho em três projectos diferentes, todos relacionados com Genética:

  • Esteve envolvida no estudo da Universidade da Califórnia, Berkeley que mostrou que humanos e primatas têm semelhanças em 99% do seu material genético;
  • Trabalhou na aplicação de sequenciação genética na identificação de vítimas de violações dos direitos humanos;
  • Descobriu a região do genoma, no cromossoma 17, que viria a ser conhecido como BRCA-1 – o primeiro gene associado a probabilidade aumentada de desenvolver cancro da mama e do ovário. Este trabalho foi inovador no sentido em que quando os estudos começaram, nos anos 70, a teoria mais aceite era a que defendia que o cancro da mama tinha causa viral.

Em relação à evolução do papel da mulher na Ciência, King afirmou ao Times em Junho de 2014:

Sempre presumi que seria assistente de outra pessoa, porque sempre houve mulheres nesse papel. Sempre presumi que trabalharia para outra pessoa, e implicitamente que a “outra pessoa” seria um homem. Há obviamente muitas mais mulheres na área actualmente. A aceitação em princípio das mulheres nesta área é completamente diferente e isso é absolutamente fabuloso, é esplêndido.
Aquilo que não mudou é o número de horas num dia. A coincidência dos anos férteis de uma mulher com o tempo que esta leva a construir uma carreira – isso é um desafio. A Ciência é também uma criança muito exigente – não se pode abandonar nenhuma das duas. Isso não mudou. Não é realista dizer-se que se pode deixar a Ciência e depois voltar.

Christiane Nüsslein-Volhard (1942 – )

Christiane Nüsslein-Volhard (Fonte: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/5c/Christiane_N%C3%BCsslein-Volhard_mg_4406.jpg)

Christiane Nüsslein-Volhard

Christiane Nüsslein-Volhard é uma geneticista do desenvolvimento cuja investigação no campo do desenvolvimento embrionário foi baseada no estudo da Drosophila melanogaster. Nüsslein-Volhard e Wieschaus geraram mutações aleatórias na Drosophila, algumas das quais afectaram genes envolvidos no desenvolvimento do embrião. Através da observação das larvas mutantes, foi-lhes possível aferir genes indispensáveis ao desenvolvimento. Estas experiências foram especialmente importantes pela sua aplicação a outros organismos.
Estes estudos valeram-lhe (e aos colegas Eric F. Wieschaus e Edward B. Lewis), o Nobel da Medicina e Fisiologia em 1995, segundo a Academia sueca “pelas suas descobertas a respeito do controlo genético do desenvolvimento embrionário precoce”.

Linda B. Buck (1947 – )

Linda Buck é bióloga, galardoada em 2004 com o Nobel da Medicina e Fisiologia (juntamente com Richard Axel) pelo seu trabalho no campo dos receptores olfactivos.

Num seu artigo, publicado em 1991, Buck e Axel clonaram receptores olfactivos, mostrando que os mesmos pertencem à família de receptores acoplados a proteínas G. Analisando o ADN de ratinhos, estimaram a existência de aproximadamente mil genes diferentes para receptores olfactivos no genoma dos mamíferos. Esta investigação abriu as portas à análise genética e molecular dos mecanismos do olfacto.

Françoise Barré-Sinoussi (1947 – )

Françoise Barré-Sinoussi (Fonte: http://www.maraval.org/UPLOADS/PORTRAITS%201000%20CHERCHEURS%20A%3EC/_BARRE-SINOUSSI%20Fran%E7oise.jpg)

Françoise Barré-Sinoussi

Françoise Barré-Sinousse é virologista. Trabalhou em investigação sobre retrovírus desde os anos 70, mas destacou-se pela descoberta do vírus do VIH, em 1983. Esta descoberta levou a que fosse galardoada, juntamente com o seu mentor Luc Montagnier, com o Prémio Nobel da Medicina e Fisiologia em 2008.

Além da identificação do vírus do VIH como causa da SIDA, Barré-Sinousse continuou os seus estudos sobre este vírus, dedicando-se a aspectos da resposta adaptativa à infecção viral, factores envolvidos na transmissão vertical, e no estudo de características específicas de um pequeno grupo de seropositivos para o VIH que conseguem limitar a replicação do vírus sem uso de fármacos anti-retrovirais.

 

Elizabeth H. Blackburn (1948 – ) e Carol W. Greider (1961 – )

A professora Elizabeth Helen Blackburn é investigadora na Universidade da Califórnia, dedicando-se ao estudo dos telómeros. Carolyn Widney Greider é bióloga molecular na Universidade Johns Hopkins. Juntamente com Jack W. Szostak, foi-lhes atribuído o Nobel da Fisiologia e Medicina em 2009, pela descoberta da protecção levada a cabo pela enzima telomerase contra o encurtamento progressivo dos telómeros.

Um caso português…

Carolina Beatriz Ângelo (1878 – 1911)

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Carolina Beatriz Ângelo

Foi médica, republicana e feminista. Nasceu em 1877, na Guarda, cidade onde realizou os seus estudos liceais. Já em Lisboa, ingressou nas Escolas Politécnica e Médico-Cirúrgica, tendo terminando o curso em 1902.

Destaca-se por ter sido a primeira mulher portuguesa a operar no Hospital de São José, sob a direcção de Sabino Maria Teixeira Coelho. Trabalhou ainda no Hospital de Rilhafoles, sob a orientação de Miguel Bombarda, e dedicou-se à Ginecologia, com consultório na Baixa lisboeta.

A Medicina foi conciliada com uma intervenção política e social intensa. Foi uma das principais activistas da sua época, defensora dos direitos das mulheres, tendo lutado por causas como a emancipação das mulheres e o sufrágio feminino.

Na revolução de 5 de Outubro de 1910 participou na confecção das bandeiras hasteadas, obra que lhe foi encarregue por Miguel Bombarda. Já depois da implantação da República, esteve envolvida na fundação da Associação de Propaganda Feminista, em Maio de 1911. No âmbito desta associação projectou a criação de uma escola de enfermeiras, o que é referido como mais uma manifestação da sua preocupação para com a emancipação das mulheres.

Carolina Beatriz Ângelo foi também a primeira mulher a votar em Portugal. Numa altura em que o direito de voto era concedido aos cidadãos portugueses maiores de 21 anos, sabendo ler e escrever e chefes de família, a persistência de Beatriz Ângelo, a ambiguidade da lei e facto de trabalhar, ser viúva e ter a seu cargo uma filha, permitiram-lhe lutar pela defesa do seu direito. Votou em Lisboa, em 28 de Maio de 1911, para eleição dos deputados da Assembleia Constituinte, acto amplamente noticiado em Portugal e felicitado em diversos países do mundo pelas associações feministas. Contudo, em 1913, a lei eleitoral portuguesa foi alterada, consagrando o direito de voto a cidadãos portugueses do sexo masculino. Posteriormente houve várias alterações a esta lei, mas só em 1968 é removida da lei eleitoral qualquer discriminação em função do género.

Em conclusão…

Esta não é uma resenha das mulheres mais importantes da Ciência, nem tão pouco da Medicina. Não o pretende ser. Com uma pesquisa rápida na Internet percebe-se porque não se pode fazer tal coisa: a lista de nomes seria interminável.

Procurámos seleccionar pioneiras. Tentámos concentrar-nos na Ciência, e mais concretamente em Ciência com repercussões na Medicina, ou em médicas que se tenham tornado notáveis.

Historicamente, o Dia da Mulher tem um forte pendor político. Foi essa a maneira como foi criado. A desigualdade de género afastou ao longo de séculos a mulher da profissão médica e da linha da frente da investigação científica, e é muito gratificante verificar que essa é uma tendência que se tem vindo a perder. Muitas destas mulheres são referentes ao século XX, e este parece ter sido um período de viragem de mentalidades a este nível. Esta igualdade terá sido construída ao longo de muitos anos, pela afirmação destas pioneiras nos seus respectivos campos científicos. Foi também o trabalho de um outro conjunto de mulheres que escolhemos não citar: as que venceram preconceitos sociais e conseguiram o acesso da mulher a universidades, por exemplo.

Actualmente tal já não se verifica, mas no passado, muito do trabalho desempenhado por estas mulheres que conseguiram acesso à profissão, foi em estudos sobre problemas específicos da mulher (nomeadamente nas áreas da Ginecologia e Obstetrícia), mas salientamos que esse trabalho, em última análise, tem um grande impacto sobre a totalidade da sociedade.

Não se pode terminar sem mencionar que há ainda um longo caminho a percorrer até à igualdade, particularmente considerando a heterogeneidade de direitos que a mulher aufere nas diferentes sociedades espalhadas pelo Globo, ou até nas diferentes camadas sócio-económicas em cada sociedade. São essas as razões que fazem com que a existência do Dia da Mulher ainda seja relevante.

Fontes das Imagens