“Fluffy? That thing has a name?” – Criaturas e Lugares Mágicos

Médicos? Aqueles Muggles tarados que cortam as pessoas? Ná, são Curandeiros.

Harry Potter e Ron Weasley, Harry Potter e a Ordem da Fénix

Esta cena, de Harry Potter e a Ordem da Fénix, faz-nos lembrar as enfermarias dos nossos hospitais (Muggles), em hora de visita. Note-se o quadro ao fundo da cama de ferro, como as camas dos hospitais no início do século XX; a enfermeira, fardada como as enfermeiras britânicas durante as Guerras Mundiais, sempre à direita do doente; e um Harry vagamente perdido. (imagem retirada aqui)

Discutivelmente, nenhuma geração infanto-juvenil foi tão marcada por uma série de livros como aquelas que viveram no período Harry Potter. O rapaz franzino de olhos verdes nasceu em 1997 e, desde essa data, que a sua história tem encantado milhões de leitores em todo o mundo.

O mundo de Harry Potter não difere muito do nosso. Foi-lhe dado apenas um pouco de magia, com traços medievais. E essa magia não foge a nenhuma área ou lugar. Nem mesmo à própria Medicina. J. K. Rowling criou um universo em paralelo e em simbiose com o nosso, não puramente mágico. Por esse motivo, também a própria Medicina sofreu alterações nesta saga. Umas vezes com bases bem reais, outras puramente inventadas, a Medicina em Harry Potter continua a ter os mesmos objetivos que a nossa: tratar pessoas, independentemente de serem Muggles ou feiticeiros.

2ª PARTE

3ª PARTE

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Lugares Médicos Mágicos

A Ala Hospitalar da Escola Mágica de Feitiçaria e Bruxaria de Hogwarts
A Ala Hospitalar da Escola Mágica de Feitiçaria e Bruxaria de Hogwarts (imagem retirada aqui)

Comecemos a nossa viagem pelo mundo médico de Harry Potter com dois locais importantes para a Medicina – a Ala Hospitalar de Hogwarts, a Escola de Magia e Feitiçaria, e o Hospital de São Mungos para Doenças e Lesões Mágicas.

A Ala Hospitalar de Hogwarts, localizada no 1º andar da Torre do Hospital do Castelo de Hogwarts, é dirigida por Madame Poppy Pomfrey, a rígida enfermeira da escola mágica. Todos os alunos e professores que sofram de algum acidente médico são encaminhados para a enfermaria, onde têm acesso a um tratamento eficaz e a um recobro tranquilo. Caso os danos sejam mais graves os pacientes são normalmente encaminhados para o Hospital de São Mungos para Doenças e Lesões Mágicas. Uma das principais regras da Ala Hospitalar é a visita de apenas seis pessoas por paciente e, impreterivelmente, apenas por um curto tempo (mesmo que as visitas sejam o Professor de Poções ou o próprio Ministro da Magia). . .

Madame Pomfrey à direita de Hermione Granger, petrificada (imagem retirada de link), em Harry Potter e a Câmara dos Segredos

O próprio nome de Poppy Pomfrey é característico da sua personalidade. Pensa-se que J. K. Rowling terá usado o nome poppy em referência a “papoila”. Sabe-se que as sementes de uma espécie da papoila, a Papaver somniferum, são utilizadas para obtenção de ópio, uma substância com propriedade analgésicas e hipnóticas derivadas da morfina e da codeína (alcalóides aí presentes). Este conhecimento é anterior à própria civilização Egípcia, conforme descrito no Papiro de Ebers, e manteve-se ao longo dos séculos. Pomfrey será uma brincadeira semântica com o termo comfrey ou “sínfito”, uma erva utilizada na Idade Média para estancar hemorragias e no tratamento do fleuma. Um nome bastante adequado para alguém que, além de feiticeira, é também enfermeira.

Independentemente do quão bem se executa um protocolo experimental, se o material não for o indicado, o resultado pode ser... Peludo.
Independentemente do quão bem se executa um protocolo experimental, se o material não for o indicado, o resultado pode ser.. Peludo. (imagem retirada de link)

A habilidade médica de Madame Pomfrey foi posta várias vezes à prova ao longo dos sete anos da saga. A enfermeira tanto conseguia curar simples constipações (algo que a Medicina moderna Muggle é incapaz de fazer) com recurso à Poção Pepper-Up, de composição desconhecida, como reconstituir ossos partidos, curar feridas de dragões, hipogrifos e outros monstros mágicos, e até fazer ligeiras alterações de estética facial. . . Todos sabemos que os dentes de Hermione Granger não diminuíram o seu tamanho pelo uso de aparelho ortodôntico.

Exceptuando as situações mais graves, não haveria nenhuma maleita mágica que Madame Pomfrey não conseguisse curar, com excepção das enormes borbulhas na testa de Marietta Edgecomb. As ditas borbulhas formavam a palavra “BUFA” graças a um feitiço de Hermione Granger, que amaldiçoava qualquer um que denunciasse o Exército de Dumbledore.

Madame Pomfrey tratava qualquer aluno, fosse qual fosse a explicação dada para o seu estado de saúde e independentemente de se tratar de uma mentira ou não. Não questionava os alunos sobre o que tinham andado a fazer para virem ter à ala hospitalar e muito menos sobre o que tinham consumido ou onde tinham obtido certos artefactos, tal como quando Hermione consumiu uma poção Polissuco com pêlo de gato. . . A questãodo sigilo médico e do respeito pela privacidade do doente é transversal ao mundo mágico e Muggle.

O outro local médico importante na saga de Harry Potter é o Hospital de São Mungos para Doenças e Lesões Mágicas, o único Hospital Mágico na Grã Bretanha, fundado por volta do século XVI ou XVII por Mungo Bonham, um Curandeiro (o equivalente mágico do médico). O Hospital de São Mungos para Doenças e Lesões Mágicas possui seis andares, conforme explicado num letreiro:

[list type=”cross”] [li]Rés-do-chão
Acidentes com Artefatos (explosões de caldeirões, ricochetes de varinhas, quedas de vassouras, etc.)[/li]

[li]Primeiro Piso
Lesões Induzidas por Criaturas (mordeduras, picadas, queimaduras, espinhas encravadas, etc.)[/li]

[li]Segundo Piso
Insetos Mágicos (doenças contagiosas, como dragonite, náusea da dissipação, escrofungose, etc.)[/li]

[li]Terceiro Piso
Envenenamento por Plantas e Poções (erupções cutâneas, regurgitação, riso incontrolável, etc.)[/li]

[li]Quarto Piso
Danos causados por Feitiços (mau olhado permanente, maldições, encantamentos incorretamente aplicados, etc.)[/li]

[li]Quinto Piso
Salão de Chá e Loja do Hospital[/li] [/list]

É também interessante verificar que, no fim do letreiro onde está exposta a divisão do Hospital, se encontra também inscrita a seguinte frase:

Se não tiver a certeza do seu destino, for incapaz de falar normalmente, ou não se lembrar por que motivo está aqui, a nossa feiticeira de acolhimento terá todo o prazer em o ajudar.

Arthur Weasley após recuperação na Ala Perigosa Dai Llewellyn
Arthur Weasley após recuperação na Ala Perigosa Dai Llewellyn (imagem retirada aqui)

O 1º e 4º pisos têm alguma importância na história de Harry Potter. Em Harry Potter e a Ordem da Fénix, após o violento ataque de Arthur Weasley por Nagini (a cobra de estimação de Lord Voldemort), o pacífico patriarca da família Weasley foi internado na Ala Perigosa Dai Llewellyn (perigo: mordidelas graves). O nome desta ala é uma homenagem ao jogador de Quidditch Dai Llewellyn que foi comido por uma quimera, besta de origem mitológica constituída por múltiplas porções de vários animais (leão, serpente, cabra, águia, etc.). Nesta ala encontram-se dois curandeiros: Hippocrates Smetwyck, o Curandeiro-Chefe e óbvia referência ao pai da Medicina Hipócrates, e Augustus Pye, o Curandeiro-Estagiário e equivalente ao Interno. Ironicamente para Arthur Weasley, sempre interessado nas atividades Muggle, Pye interessa-se também pela “medicina complementar” e tentou suturar as feridas do feiticeiro, sem sucesso. Segundo Hermione Granger, possivelmente o veneno da cobra dissolvia o fio usado para suturar. De qualquer modo ambos não estavam cientes da contra-indicação para sutura de feridas geradas por mordedura de animais, devido ao perigo de infecção.

Gilderoy Lockhart foi Professor de Defesa Contra as Artes das Trevas do Segundo Ano de Harry Potter. Gilderoy passa agora os seus dias a treinar assinaturas.
Gilderoy Lockhart foi Professor de Defesa Contra as Artes das Trevas do Segundo Ano de Harry Potter. Gilderoy passa agora os seus dias a treinar assinaturas. (imagem retirada de aqui)

Exatamente na mesma altura em que Arthur Weasley foi mordido por Nagini e ficou internado, Harry, Ron, Hermione e Ginny visitaram o 4º piso, onde se encontrava Guilderoy Lockhart, o seu antigo Professor de Defesa Contra as Artes das Trevas do Segundo Ano. Lockhart está internado permanentemente na Ala Janus Thickey, onde permanecem os feiticeiros com danos cerebrais permanentes causados por magia. Os outros residentes desta Ala são Broderick Bode, que tocou numa Profecia que não tinha o seu nome enquanto estava sob o efeito da maldição Imperius, uma bruxa de nome Agnes, coberta com pêlo de cão e que ladra ocasionalmente, e Frank e Alice Longbottom, pais de Neville, com danos cerebrais permanentes derivados pela Maldição Cruciatus. O casal Longbottom foi torturado por Devoradores da Morte aquando da primeira ascenção do Senhor das Trevas. O dano cerebral causado por esta maldição poderá ser comparada à demência vascular, causada por episódios sucessivos de eventos trombo-embólicos cerebrais? Ou a uma espécie de uma patologia psiquiátrica caracterizada por um estado catatónico derivado de uma experiência altamente perturbante. Seja num mundo mágico ou não, é transversal a necessidade de cuidados continuados paliativos, de forma a aliviar o sofrimento dos pacientes que já não têm qualquer tipo de cura expectável com os recursos disponíveis.

Embora se desconheça o seu nome, também o retrato de um curandeiro quis oferecer os seus préstimos aos visitantes do hospital. Declarou que Ron Weasley, pelas suas sardas, deveria ter espatergroitite, uma grave doença infeto-contagiosa, e recomendou vivamente uma terapêutica, que será abordada no artigo de Feitiços, Encantamento e Poções. . .

Como qualquer outro hospital, mágico ou não-mágico, é possível ver-se todo o tipo de pacientes: pessoas de aspeto normal, com uma mala feita de elefante, com mãos a saírem-lhe do tórax, uma bruxa com sudorese profunda que parecia ter sido transformada numa chaleira de chá, emitindo vapor e apitando, um feiticeiro que emitia sons como um sino sempre que ele se movia, vibrando a cabeça, um feiticeiro jovem cujos sapatos lhe comiam os pés e uma pequena criança com grandes asas que esvoaçava pela sala, segurada apenas pelo pai. Importa ainda referir que, contrariamente aos médicos Muggles com as suas batas brancas, os Curandeiros usam vestes em tom de lima. O símbolo deste hospital é uma varinha cruzada com um osso. Em casos extremos, o Hospital também trata de Muggles.

Estátua de São Mungo, na  Igreja de São Mungo, em Glasgow
Estátua de São Mungo, na Igreja de São Mungo, em Glasgow (imagem retirada aqui)

A origem do nome do Hospital vem de um santo popular na Grã Bretanha, São Mungos. Este santo (Mungos Wilson) viveu entre 518 e 603 e é o Santo Patrono de Glasgow, na Escócia, onde é conhecido como Saint Kentigern ou Kentigern Mungo, o primeiro Bispo da Escócia. São Mungos tornou-se um missionário aos 25 anos de idade, ensinando o cristianismo em Clyde. Sobreviveu a uma revolta local de pagãos, mas foi forçado a fugir da sua terra-natal, tendo atravessado vários locais até, finalmente, assentar em Glasgow. Segundo a tradição local de Glasgow, foi este santo quem batizou um rapaz de nome Merlin num grande pedregulho em Stobo!

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Criaturas Mágicas

Dragões

Dragão Cauda-de-Chifres da Hungria
Dragão Cauda-de-Chifres da Hungria (imagem retirada aqui)

Não há criatura mais emblemática no mundo mágico que um dragão. A sua presença é quase mandatória em qualquer história de fantasia. Segundo Newt Scamander, estas criaturas classificadas como altamente perigosas são conhecidas como assassinos de feiticeiros. São bastante resistentes à maioria dos feitiços e encantamentos, mas parecem ser vulneráveis à Maldição da Conjuntivite e ao Feitiço de Atordoamento. Além do seu uso como obstáculo no Torneio dos Três Feiticeiros, realizado pela última vez em Hogwarts, e como montadas, são vários os materiais extraídos desta criatura, muitos dos quais com aplicações a nível terapêutico.

  • Sangue de dragão – utilizado para acelerar o processo de cicatrização das feridas. Albus Dumbledore descobriu as suas doze utilizações, sendo que uma é a limpeza de fornos e outra é removedor de manchas.
  • Garra de dragão – quando feita em pó e consumida nessa forma potencia as capacidades intelectuais dos estudantes.
  • Carne de dragão – posta em tiras por cima de feridas auxilia o processo de cicatrização, tal como o sangue. Também pode ser utilizada para fazer molho tártaro de dragão, que dá a quem o comer um hálito terrível.

A maioria dos feiticeiros treme perante a visão de um dragão – são criaturas tão belas quanto terríveis. O único que parece ser imune a este medo é Rubeus Hagrid, o Guarda das Chaves e Campos de Hogwarts, que considera os dragões, hipogrifos (o Buckbeak) e cães de três cabeças (o Fluffy) belos animais de estimação.

Fluffy?
That thing has a name?

Ron Weasley e Hermione Granger, Harry Potter e a Pedra Filosofal

No Primeiro Ano de Harry Potter em Hogwarts, Hagrid adquire um ovo de dragão de um estranho num pub. Sabendo que se tratava de um ovo de um dragão, decide ficar com ele. O dragão acaba por ter de ir para uma colónia de dragões na Roménia, ao cuidado do irmão de Ron, Charlie, mas enquanto estava ao cuidado de Hagrid, acaba por morder a mão de Ron. A mão tornou-se edemaciada e adquiriu uma coloração verde, que fez com que Harry temesse serem descobertos por Madame Pomfrey. Alegadamente a cor verde da ferida seria devida ao veneno dos dentes do dragão.

No mundo real, existe uma doença chamada de Dracunculíase (ou doença do verme da Guiné) uma parasitose infecciosa, causada por um nemátode do género Dracunculus (normalmente, Draculculus medinensis), que afeta o tecido conjuntivo, originando prurido intenso, bolhas e úlceras nos membros inferiores. (Murray, P. et all. Medical Microbiology, 2013) Esta doença ocorre após a ingestão de água contaminada e é endémica em apenas quatro países – Chad, Etiópia, Mali e no Sul do Sudão (Progress Toward Global Eradication of Dracunculiasis, 2011). O nome latino dracunculíase significa “aflição por pequenos dragões” (Barry, M. The tail end of guinea worm — global eradication without a drug or a vaccine, 2007). Segundo o último artigo referenciado, a dracunculíase será a primeira parasitose a ser erradicada sem o auxílio de vacinas.

Segundo Dragon Breeding for Pleasure and Profit, de J. K. Rowling, existe uma espécie de dragões chamada Focinho Longo Português.

Dementor

O primo Muggle de Harry, Dudley, é atacado por um dementor. Embora na descrição literária os Dementors surjam como seres encapuçados, nos filmes, estas criaturas sofreram uma mudança visual considerável, com o fim de os tornar mais cadavéricos e menos espectrais.
Em Harry Potter e a Ordem da Fénix, o primo Muggle de Harry, Dudley, é atacado por um Dementor. Embora na descrição literária os Dementors surjam como seres encapuçados, nos filmes, estas criaturas sofreram uma mudança visual considerável e progressiva, com o fim de os tornar mais cadavéricos e menos espectrais. (imagem retirada aqui)

Os Dementors são das criaturas mais imundas que pisaram a Terra. Infestam a escuridão, sujam os lugares, rejubilam perante a decadência e o desespero, sugam a paz, a esperança e a felicidade do ar que os envolve. Até os Muggles sentem a sua presença embora não consigam vê-los. Se te aproximares demasiado de um Dementor, os teus bons sentimentos, as tuas recordações felizes ser-te-ão arrancadas. Se puder, o Dementor ficará junto de ti o tempo suficiente para te transformar em algo parecido com ele, uma mistura de egoísmo e maldade. Ficarás reduzido às piores experiências da tua vida.

Remus Lupin, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

Segundo J. K. Rowling, a criatura Dementor foi concebida a partir do diagnóstico psiquiátrico de depressão, baseando-se a autora no que ela própria sentiu durante o período em que sofreu desta patologia. Além da semelhança entre as palavras depressão, demência, tormenta e Dementor, é com a primeira que as figuras encapuçadas se identificam melhor. Na presença de um Dementor, as pessoas ficam rapidamente deprimidas, apáticas e desesperadas. O pensamento fixa-se nas suas piores recordações e nos seus maiores receios, perdendo gradualmente a vontade de viver. Em casos de fome intensa ou de captura de um criminoso, os Dementors aplicam à sua vítima o Beijo do Dementor, que lhe remove a alma, deixando-a reduzida a nada mais que “uma concha vazia”. Na depressão o doente sofre com pensamentos de auto-censura, tristeza, apatia, alexitimia, e sente-se gradualmente menos capacitado a concretizar qualquer tarefa. Gradualmente, a pessoa torna-se nessa “concha vazia”.

Após um primeira tentativa de executar o feitiço "Expecto Patronum", o Professor Remus Lupin oferece a Harry um sapo de chocolate, para afastar as más recordações do aluno.
Após um primeira tentativa de executar o feitiço “Expecto Patronum”, o Professor Remus Lupin oferece a Harry um sapo de chocolate, para afastar as más recordações do aluno. (imagem retirada de aqui)

Se em Harry Potter a melhor cura para um encontro com um Dementor é o chocolate, no mundo dos Muggles o tratamento passa por psicofármacos e psicoterapia. No entanto existem alguns estudos confirmam a eficácia do chocolate no tratamento e recuperação de episódios de depressão (Parker G, et al. Mood state effects of chocolate. 2006; Rose, N. Mood food: chocolate and depressive symptoms in a cross-sectional analysis. 2010). Os benefícios do chocolate não se restringem a um hipotético aumento da sensação de bem-estar, modulam efectivamente a actividade cerebral.

O potente repelente de Dementors é conhecido pelos Potterheads como Expecto Patronus, que traduzido do latim significa “espero um protetor”. Não tem equivalente, infelizmente, no mundo dos Muggles.

Lobisomens

A cada Lua Cheia, o Professor Remus Lupin sofre uma dolorosa transformação num lobisomem, que o torna violento e sedento de carne.
A cada Lua Cheia, o Professor Remus Lupin sofre uma dolorosa transformação num lobisomem, que o torna violento e sedento de carne. (imagem retirada de aqui)

Se J. K. Rowling denunciou precocemente o segredo do Professor Remus Lupin, foi certamente através da escolha do nome. Na mitologia romana, Remus era um dos dois irmãos que, amamentados por uma loba em crianças, fundaram Roma. Lupin é uma referência à palavra latina lupus, que significa lobo. O Professor Lupin surge no Terceiro Ano de Harry Potter, convidado por Albus Dumbledore para ser o novo Professor de Defesa Contra as Artes das Trevas.

Remus Lupin adoecia misteriosa e frequentemente, para grande estranheza dos alunos. No entanto só Hermione Granger conseguiu relacionar os períodos em que Lupin surgia mais adoentado com o aparecimento da Lua Cheia, diagnosticando corretamente a patologia de que Lupin padecia. No mundo mágico é uma doença terrível, sem qualquer tipo de cura. O único tratamento possível é a poção Wolfsbane que alivia os sintomas associados à transformação e permite consciência humana enquanto transformados.

A cabeça de Lupin aumentava, assim como o seu corpo. Os ombros tornavam-se arqueados, o pêlo nascia-lhe na cara e nas mãos, que se dobravam em forma de patas com garras.

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban

A licantropia corresponde, no mundo médico Muggle, a uma ilusão na qual o doente pensa ter sido transformado num animal e apresenta comportamentos de acordo com tal. Existem mais relatos que não estão relacionados com transformações em lobos – também as cobras são um exemplo. Normalmente, estes delírios estão associados a perturbações psiquiátricas graves, com traços claramente psicóticos. A licantropia é frequentemente reversível com terapêutica adequada e parece ser uma manifestação não específica de uma depressão major. É também influenciada pelo ambiente cultural em que o doente se encontra, sendo que a projeção animal simboliza a representação simbólica do mal para o paciente. (Bou Khalil, R. et al. Lycanthropy as a culture-bound syndrome: a case report and review of the literature. 2012)

Tal como os vampiros, também os lobisomens podem ser explicados por outras patologias que não tinham explicação tangível ao longo da História. Isto além da tendência inerente ao Homem de ver associadas características humanas a animais que ele teme como personificação do mal. Segundo Elizabeth Neelson (Explanations for Vampires and Werewolves: real, medical or mental?), os primeiros registos de lobisomens remontam à Antiguidade Clássica, onde surgiam em vários contos e eram criaturas populares. Essa popularidade manteve-se até à Idade Média, aliada ao facto de o misticismo ganhar um novo impacto. Segundo Lee Illis, em 1963, pacientes com porfíria congénita, com fotossensibilidade, dentes avermelhados e psicose podem ter sido apelidados erroneamente de “lobisomens”. Contudo, esta opinião é contraposta por Ian Woodward, em The Werewolf Delusion (1979),  que aponta para o facto de os lobisomens, desde a Antiguidade, serem principalmente caracterizados, não pelo comportamento, mas pela semelhança extraordinária a um lobo. Nega que a hipertricose possa ter sido a génese desta criatura mitológica, uma vez que é uma condição rara, impossível de ocorrer em larga escala, o que não é compatível com o número de registos de lobisomens na Idade Média. Assim, este autor sugere que a raiva, a doença infecciosa, possa ter sido a base para esta crença. A ideia principal nesta hipótese é que, à semelhança de uma mordida de lobisomem poder transformar um homem num seu semelhante, também a raiva é uma doença transmissível pela mordida dos animais. Alguns dos sintomas associados à raiva encaixam-se perfeitamente na descrição de um lobisomem: confusão, agitação, paranóia, delírio, espasmos dolorosos dos músculos da laringe, produção aumentada de saliva. . . Também o Lupús Eritematoso foi apontado em 2007, em The History of Lupus Erythematosus, por Mallavarapu, R., como uma possibilidade. É importante referir ainda que uma condição patológica, à luz do desconhecimento, é sempre “adornada” com uma coroa de factos fantasiosos, pelo que, possivelmente, nunca se saberá ao certo qual a patologia que deu origem ao lobisomem.

Basilisco e Mandrágoras

O Basilisco consegue viver mais de 900 anos. O monstro de Hogwarts tinha sido lá colocado por Salazar Slytherin, um dos quatro co-fundadores de Hogwarts.
O Basilisco consegue viver mais de 900 anos. O monstro de Hogwarts tinha sido lá colocado por Salazar Slytherin, um dos quatro cofundadores de Hogwarts.

Segundo Monstros Mágicos e Onde Encontrá-los, de Newt Scamander, o Basilisco é uma serpente gigante venenosa que mata com o seu olhar quem se atrever a olhá-la diretamente. Felizmente para as vítimas de Hogwarts, nenhuma delas olhou o Basilisco libertado por Ginny Weasley diretamente, pelo que ficaram apenas petrificados. No mundo Muggle (o nosso mundo), o Basilisco é um animal mítico, rei das serpentes, com o poder de matar apenas com o simples contacto visual. Os registos de  Basiliscos remontam a 79 a.C. e seguem ao longo da História até ao Renascimento. Até Leonardo da Vinci incluiu este monstro no seu bestiarum vocabulum, um compêndio da fauna conhecida naquele momento, onde refere que a natureza desta criatura era tão vil que, quando não encontrava nenhum animal para matar com o olhar, se virava para as plantas e as secava do mesmo modo.

Para recuperar da paralisia foi preparada uma Poção de Mandrágora, a partir das mandrágoras maduras cultivadas na Estufa de Herbologia dos Campos de Hogwarts. Em tempos mais remotos da nossa História acreditou-se que a mandrágora (mais especificamente, Mandragora officinarum) tivesse propriedades extraordinárias. Em textos bíblicos, por exemplo, o seu consumo foi associado a um aumento da fertilidade, e, em lendas, é dito que ao colher esta planta se deve ter o cuidado de tapar os ouvidos, pois os seus gritos podem ser fatais. Esta última propriedade também é representada em Harry Potter, pelo que os alunos de Herbologia utilizam protectores auditivos ao arrancar as plantas dos respectivos vasos.

Em vez de raízes, um bebé pequenino, enlameado e extremamente feio, saiu da terra. As folhas cresciam-lhe no alto da cabeça, tinha uma pele pintalgada de um pálido esverdeado e estava nitidamente a berrar a plenos pulmões.

Harry Potter e a Câmara dos Segredos

A captura de mandrágoras é um processo fastidioso e requer proteção auditiva adequada.
A captura de mandrágoras é um processo fastidioso e requer proteção auditiva adequada. (imagem retirada de link)

Factualmente, a raíz da mandrágora contém alcalóides alucinógeneos, devido à existência de substâncias como atropina, escopolamina e hiosciamina. Como esperado, as propriedades anticolinérgicas podem levar tanto ao desmaio como à asfixia, podendo ser essa a explicação para a colheita da planta estar associada à perda de sentidos e morte do seu colector. Neville Longbottom, por não ter respeitado as condições de segurança impostas pela Professora Sprout, acabou por colapsar na estufa. Por outro lado, as alucinações sentidas por quem apanha esta planta poderiam resultar também em perturbações auditivas, mesmo em mandrágoras jovens, o que justificaria os “gritos”. Em outras obras literárias, datadas do século XVI e anterior, atribuem à mandrágora a possibilidade de concepção de um humano sem a intervenção feminina, resultando daí um homúnculo, que atribuiu à mandrágora uma aparência humanóide, também descrita em Harry Potter. Durante a Idade Média acreditava-se também que as mandrágoras cresceriam em locais onde enforcados tivessem ejaculado, dando origem a estas plantas.

Curiosamente, as mandrágoras podem “organizar festas” com os seus gritos, como se fossem adolescentes (estas plantas são apanhadas muito jovens) e que, segundo Rubeus Hagrid, podem até ter acne.

Pessoas Grandes e Grandes Pessoas

Rubeus Hagrid, guarda das Chaves e Campos de Hogwarts
Rubeus Hagrid, guarda das Chaves e Campos de Hogwarts (imagem retirada de link)

É impossível falar de Harry Potter sem pensar em Rubeus Hagrid, o amável meio-gigante guarda dos campos e das chaves de Hogwarts. Hagrid era filho de um pai feiticeiro, Mr. Hagrid, e de uma gigante, Fridwulfa. Apesar de poder utilizar magia, por não ter praticado convenientemente em tempo escolar, será sempre um pouco inepto a fazê-lo. Segundo Ron Weasley, Hagrid tem um fascínio pouco saudável por criaturas perigosas – desde acromântulas a hipogrifos e explojentos.

A descrição de Hagrid é, no mínimo, fantástica:

Devia ter o dobro da altura de um individuo normal era, pelo menos, cinco vezes mais largo. Parecia maior do que era humanamente possível e verdadeiramente animalesco – os cabelos e a barba negra, ambos emaranhados, ocultavam-lhe a maior parte do rosto, as mãos pareciam tampas de caixotes do lixo e os seus pés, dentro de umas enormes botas de couro, lembravam dois golfinhos-bebés.

Harry Potter e a Pedra Filosofal

A origem do nome de Hagrid não é simpática para a sua personagem. Segundo J. K. Rowling, “hagrid” é uma palavra inglesa antiga que significa que alguém teve uma má noite. Tendo em conta que Hagrid é um grande bebedor, é possível que ele tenha tido muitas más noites e, mais ainda, sabendo que “rubeus” significa “avermelhado”, esta hipótese parece ganhar mais peso quando se pensa na complexão de alguém que bebeu demasiado. . .

Madame Olympe Maxime, interesse amoroso de Hagrid e Diretora da Escola Mágica de Beauxbatons
Madame Olympe Maxime, interesse amoroso de Hagrid e Diretora da Escola Mágica de Beauxbatons (imagem retirada de link)

Existem outros gigantes mencionados em Harry Potter. Um deles é Gwamp, o meio-irmão de Hagrid, inteiramente gigante e resgatado do clã onde vivia. A outra, mais refinada,  é Madame Maxime, Diretora da Escola Beauxbatons, por quem Hagrid desenvolve sentimentos amorosos. Madame Maxime não abraça a sua origem com a mesma facilidade de Hagrid – na verdade, recusa-se a ser chamada de “gigante”.

Nunca fui tão insultada na minha vida! Meio-gigante? Moi? Eu tenho.. eu tenho ossos grandes!

Madame Maxime, Harry Potter e o Cálice de Fogo

Olympe Maxime era, na verdade, meia gigante, tal como Hagrid, mas, pelo medo do preconceito da sociedade, tentava esconder a sua condição. Era conhecida por ser uma duelista capaz e, segundo Albus Dumbledore, uma excelente dançarina.

Apesar de não haver muitos registos históricos de “gigantes”, sabemos da sua existência primordial pelo folclore e mitologia, onde ora são representados como divindades, ora como monstros. Ao longo da História, pelo medo e desconhecimento, foram tratados como aberrações ou material para trabalhos pesados, sendo até banidos ou afastados da sociedade. Na Grã-Bretanha eram inclusivamente associados a um baixo nível de inteligência, o que é também visível em Harry Potter, pela categorização de gigante como “criatura”. A condição de “gigante” deve-se, na verdade, a perturbações na hormona de crescimento que resulta em gigantismo, caso o excesso de produção hormonal ocorra antes do encerramento das epífises ósseas, ou em acromegália, se ocorrer depois. (Eugster, E., 2012)

Pensa-se que o primeiro registo formal de “uma gigante” tenha sido feito em 1567 pelo médico e ocultista Johannes Wier, num documento chamado Medicarum Observationum  (Mammis, A. et al. Early Descriptions of Acromegaly and Gigantism and Their Historical Evolution as Clinical Entities: Historical Vignette, 2010). Contudo, só por volta do século XVIII e XIX é que o gigantismo começou a ganhar contornos mais científicos e menos fantasiosos, com análises de vários casos de crescimento ósseo excessivo, associado a outra sintomatologia e até tumores (Henrott, 1877). O diagnóstico de acromegália foi definido em 1885 por Pierre Marie, que utilizou pela primeira vez o termo nos seus registos médicos.

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Os lugares médicos mágicos no mundo de Harry Potter são escassos, mas desempenham uma função igual aos nossos hospitais e enfermarias. Não importa se é mais ou menos mágico – um hospital será sempre um hospital. As criaturas de Harry Potter são também equivalentes aos seres vivos reais – tanto podem ser fonte de doença, como uma possível fonte de cura. Claro que muitas delas são pura fantasia, mas outras baseiam-se em histórias com bases reais, apenas mal interpretadas. Como sempre, fantasia e realidade caminham de braço dado, mesmo num campo tão sinuoso como a Medicina.

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Joana Moniz Dionísio é uma aluna do 5º ano de Medicina na FCM-NOVA. Apesar de ter nascido em Lisboa, viveu durante toda a sua vida em Alcobaça, até regressar novamente à capital para ingressar no ensino superior. Vem de uma zona conhecida pela sua doçaria conventual, mas as suas paixões e hobbies ignoram por completo a culinária, indo desde a Medicina, Literatura e História Universal até temas como a Cultura Oriental e Música Clássica. É colaboradora da revista FRONTAL desde Março de 2013 e foi no também nos idos de Março do ano seguinte que se tornou editora da secção Cultura. Desde Novembro de 2014 que assegura a função de Editora-Geral da FRONTAL. A autora opta pelo Antigo Acordo Ortográfico.

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