TORCICOLO

Nos primórdios do teatro, já Aristóteles dizia “Tragedy (…) through pity and fear it effects a catharsis of such emotions.” Muito tempo passou e não estamos assim tão longe desta visão que surgiu na Grécia Antiga. O Grupo de Teatro Terapêutico do Hospital Júlio de Matos é um de entre vários que dão vida à catarse pelas artes dramáticas, no século XXI.

A FRONTAL dá-te a conhecer a peça TORCICOLO e abre-te as portas para o mundo da Drama Therapy, um tipo de terapêutica que prova que nem tudo na medicina são fármacos.

Peça TORCICOLO no Teatro Meridional
Peça TORCICOLO no Teatro Meridional

Drama Therapy:

O uso do teatro com um intuito terapêutico não é recente. Não é uma inovação ou uma tecnologia de ponta há pouco descoberta. Uma das primeiras referências que se encontra na história é da autoria de Alexandre Dumas, acerca de uma produção dramática levada a palco pelo Dr. Biagio Miraglia num hospital psiquiátrico em Nápoles, em 1863. O teatro terapêutico, ou “Drama Therapy” é o uso intencional dos processos dramáticos e/ou teatrais com a intenção de atingir objetivos terapêuticos (North American Drama Therapy Association), proporcionando um ambiente e contexto em que os participantes podem ganhar confiança para partilhar as suas histórias e sentimentos e também desenvolver competências sociais. As suas bases teóricas assentam nos processos criativos e interativos do teatro e artes dramáticas, em conjunto com a psicologia e psicoterapia. In Um Palco é a Vida (artigo da Dra. Isabel Cristina Calheiros e do Dr. João Paulo Albuquerque, publicado na “Revista de Psiquiatria” do Hospital Júlio de Matos)  pode ler-se No palco recria-se a vida, permitindo-nos quebrar barreiras que nos impedem, no dia a dia, de a viver plenamente”. Este tipo de terapêutica pode ser utilizado em contexto de prevenção, intervenção e tratamento e promove desde alterações comportamentais a crescimento pessoal e integração física e psicológica. 159203826

O teatro terapêutico, talvez por ser pouco abordado, é uma modalidade terapêutica que suscita ainda algumas dúvidas. No entanto, existem em Portugal grupos que se dedicam à terapia através do teatro, sendo um deles o Grupo de Teatro Terapêutico, no Hospital Júlio de Matos. Um conceito que nós, alunos de medicina (e alguns de nós futuros psiquiatras), beneficiamos em explorar.

Eu entro aqui às vezes muito deprimido e saio daqui completamente descontraído
como ter tomado um ansiolítico ou uma coisa assim desse género… e sinto-me bastante bem.

É o testemunho de António Fernando, ator no GTT do Hospital Júlio de Matos, dado em entrevista à RTP (19 de Fevereiro de 2016).

O Grupo de Teatro Terapêutico:

Diario Popular, Dezembro de 1969
Diário Popular, dezembro de 1969

O Grupo de Teatro Terapêutico (GTT) nasce em 1968, no então “manicómio” de Lisboa, o Hospital Júlio de Matos, por vontade de doentes e com o apoio de técnicos de saúde mental e amigos ligados à área do Teatro; ainda em dezembro do mesmo ano é levada a cena, no próprio hospital, a primeira peça do grupo: “ÓLEO” de Eugene O’Neill. Nesta peça participaram 15 pacientes, alguns dos quais diagnosticados com esquizofrenia, a maioria com episódios psicóticos prévios, apesar de alguns sofrerem de patologia depressiva ou histérica.

João Silva, atual dramaturgo e encenador do GTT, junta-se a este em 1969 e, desde então, mais 23 projetos se seguiram àquela primeira encenação. Em 1970, estabelece-se o precedente de uma peça da autoria de um paciente e em novembro desse ano estreia “Caleidoscópio”, que retrata a experiência do próprio. Apesar da época ditatorial em que surgiu e de as épocas seguintes não terem evoluído em termos de compreensão para com a doença mental, o projecto manteve-se até à data, e estas produções já se apresentaram em quase todas as salas de espetáculos de Lisboa, incluindo o Teatro Nacional D. Maria II e o Centro Cultural da Malaposta.

Se a época em que o Grupo de Teatro Terapêutico Dirigido nasceu era confusa e perigosa para a liberdade do pensamento, decorridas quase cinco décadas, a época em que vive atualmente é confusa e perigosa pelo desconhecimento de muitos sobre o que é a liberdade do pensamento.

João Silva

A peça “TORCICOLO”:

“Mãe, tenho fome e ainda não nasci”, diz o feto à mãe.

“Graças a Deus tens tudo no sítio certo, meu anjo”, Responde a mãe.

A peça “TORCICOLO”, de João Silva, foi levada ao palco do Teatro Meridional entre 19 e 21 de Fevereiro deste ano e é o resultado final de 22 sessões de dinâmica terapêutica e análise de conteúdos, a partir dos quais nasceram as personagens que são em parte os atores, em parte os doentes, em partes o seu passado e noutras o presente, ou o futuro. O processo parece mais simples do que na realidade é: implica que os atores estabeleçam relações de confiança com o dramaturgo e uns com os outros. Os desabafos, as histórias de vida e os seus pensamentos e emoções, algo que o comum ser humano tem receio de deixar transparecer para o exterior, são aqui partilhados e limados pelo dramaturgo, que se responsabiliza por proteger os atores e poetizar o texto. “São confissões, são fragmentos, embora estejam tratados, limadas certas situações que às vezes são muito trágicas… mas está lá muita verdade.” revelou João Silva em entrevista à RTP (19 de Fevereiro de 2016).

Os Figurinos da Peça
Os Figurinos

E quem ache que esta peça é terapêutica apenas para os atores, desengane-se. “TORCICOLO” pode parecer uma peça sobre a saúde e doença mental e retratar as histórias de doentes que se predispuseram a partilhá-las, mas, acima de tudo, retrata experiências diárias dos doentes, desde o nascimento à morte, com que também o público se pode identificar. É uma peça de teatro que não tem medo de abordar os tópicos mais ou menos controversos com que nos deparamos no quotidiano. Aqui não há “papas na língua”, ninguém hesita nem tem medo de abordar temas que vão desde a doença mental, à dependência, ao preconceito, aos problemas familiares e da sociedade e até mesmo ao suicídio.

Citando o autor do texto e dramaturgo responsável:

O músculo aperta, endurece e deforma o sentido das coisas. Estremecem as resistências. A dor fustiga, não é palpável. É dura de aguentar até aos limites de quem a suporta. TORCICOLO (…) Não é um texto circunscrito somente à área da saúde mental, mas uma proposta de experiências e percursos da infância ao adulto da cidadã ou cidadão comuns que, numa viagem ao interior familiar ou à sociedade que nos envolve, desnuda o sofrimento e as frustrações que todos sabem existir, mas que todos querem ignorar. 

João Silva

Violência sofrida na pele, sobre a perversidade de tareias de colher de pau e banhos de água fria e água quente, era a receita aplicada como o melhor remédio para quem diziam ser maluca (in TORCICOLO) diz Magda, uma das 12 personagens criadas para esta peça. Uma vertente de TORCICOLO importante para o futuro médico é o “estatuto” que a doença mental tem na nossa sociedade e, mais ainda, o que teve no passado, no tempo em que  estas personagens (atores e/ou pacientes, como lhes preferirmos chamar) foram crescendo e lidando com as suas fragilidades. Se é verdade que, nos dias que correm, aqueles que padecem de doença mental ainda não recebem compreensão total por parte da nossa sociedade, é importante também não esquecer que, em tempos não muito longínquos, a doença mental era vista como um tabu ainda maior, em que o preconceito tinha proporções mais extremas do que as que hoje vemos. E, sobretudo, há que relembrar que ainda há um longo caminho a percorrer.

Bibliografia

Calheiros, I. C., & Albuquerque, J. P. (Setembro/Dezembro de 1997). Um Palco é a Vida – Aspetos Terapêuticos do Teatro em Saúde Mental. Revista de Psiquiatria Hospital Júlio de Matos.

Centro Hospitalar Psiquiátrico de Lisboa: http://www.chpl.pt/; acedido em 11/03/2016.

Daniels, C.B., & Scully S. (Noûs, Vol. 26, No. 2 (Jun. 1992), pp. 204-217) Pitty, Fear and Catharsis in Aristotle’s Poetics. New Jersey: Wiley.

Grupo de Teatro Terapêutico – Hospital Júlio de Matos: https://sites.google.com/site/grupoteatroterapeutico/; acedido em 29/02/2016.

Grupo de Teatro Terapêutico – Página Oficial do Facebook: https://www.facebook.com/grupoteatroterapeutico/?fref=ts acedido em 03/03/2016.

Jones, P. (1996). Drama as Therapy. Londres: Routlege,1996.

North American Drama Therapy Association: http://www.nadta.org/ ; acedido em 01/03/2016.

“Torcicolo”, no Teatro Meridional em Lisboa (Entrevistadores: H. Antunes, C. Figueiras, & D. L. Rodrigues, a 19 de Fevereiro de 2016) in http://www.rtp.pt/noticias/cultura/torcicolo-no-teatro-meridional-em-lisboa_v897456

“TORCICOLO” de João Silva – Grupo de Teatro Terapêutico – Folheto Informativo cedido aos espectadores

Fontes das Imagens

Imagens alusivas ao Grupo Teatro Terapêutico retiradas da página Facebook:

https://www.facebook.com/grupoteatroterapeutico

http://www.thinkstockphotos.com.au/image/stock-photo-pedestals-of-arts/159203826

Recorte de jornal retirado do Website do Grupo de Teatro Terapêutico:
https://sites.google.com/site/grupoteatroterapeutico/Home

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