Mas afinal… O que é este mito de “peso ideal”?

Nos dias que passam, deparamo-nos com uma dualidade (real e de pensamento) relativamente ao conceito de peso. Para um lado da balança, a crescente incidência de obesidade nos países desenvolvidos e, ao contrário do que se esperaria, nos países em desenvolvimento. Muitas vezes, este excesso de peso está lado a lado com um estilo de vida pouco saudável desconhecido ou ignorado por parte de quem o vive e, por vezes, não o escolhe. Para o outro, a presença constante de uma forte influência social que impõe a magreza como sinónimo de beleza, em detrimento da real mensagem – a de boa saúde –, e que por vezes empurra mentes frágeis para o outro lado extremo da balança – a anorexia.

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Esta pressão social sempre se manifestou entre nós, quais animais sociais que somos.

Todavia, em semelhança ao trajeto do ser humano pela História, esta influência externa não foi sempre aquela que hoje ouvimos, sempre sussurrante, e evoluiu com o decorrer das eras culminando numa sociedade consumista. O culto da abundância e o empreendedorismo capitalista criam um clima de alta competitividade no marketing de diferentes produtos. Sendo o primeiro objetivo sempre vender, custe o que custar (de euros a pontos de auto-estima), a publicidade ganha cada vez mais relevo no mercado e, consequentemente, no nosso quotidiano.


O Peso Pesado dos Media

2Basta ligar a televisão, a rádio ou mesmo aceder à internet para sermos quase de imediato bombardeados com anúncios das mais variadas cores, melodias e dimensões, todos com uma mensagem subliminar que nos influencia muito mais do que inicialmente esperamos.

A maioria dos anúncios jogam com o poder da atração e da associação para vender os seus produtos ou ideias. Obviamente que existem muitos fatores que influenciam a atração, mas o que é mais acessível visualmente e consideravelmente mais rápido é o aspeto físico. Assim, na maioria dos anúncios é-nos apresentado um grupo/família/celebridade bem proporcionados e de feições apelativas, que se riem, felizes e descontraídos, junto dos produtos que, de forma pouco subtil, tentam vender. Por outro lado, a representação de pessoas com excesso de peso nestes anúncios é maioritariamente depreciativa e ridicularizada.

Para além destas influências externas diretas que, de certa forma, inclinam a nossa cadeia de pensamento para um dos lados da balança, as mensagens subliminares transmitidas são o real problema que, pouco a pouco, moldaram os extremos de beleza atuais.

Apesar de tentativas recentes no sentido de contrariar esta tendência em grupos mais influenciáveis (como os adolescentes) com campanhas sobre os perigos de dietas extremas e do consumo excessivo e ao apelo a uma dieta equilibrada e da atividade física, o poder da publicidade mantém-se.

Um exemplo deste poder verifica-se em idades mais jovens. Certos investigadores repararam que crianças de idades de 5-6 anos descriminavam os seus colegas mais gordinhos, recusando-se a brincar com os mesmos. Assumindo-se que a maioria dos pais e educadores não aprova nem ensina estes comportamentos, procurou-se uma resposta para este problema. Alguns estudos realizados associaram a publicidade ao mesmo, na medida em que as crianças associavam a felicidade e o sucesso a ser-se magro e, por consequência, afastavam-se das crianças com mais peso, distanciando-se, desta maneira, da ideia de insucesso e de tristeza.

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O exemplo acima referido demostra a larga influência da publicidade em apenas um aspeto que interfere de modo significativo no comportamento e atitude dos indivíduos, mesmo na inocência da infância.

Obesidade – não é só quanto come mas o que come

6Um dos maiores mitos da nossa sociedade é a de que a obesidade é uma “doença de rico”, numa lógica de que as pessoas com um abdómen abundante seriam aqueles com meios para o “suportar” especialmente em países com baixos recursos. Em estudos recentes, pelo contrário, verifica-se uma forte associação entre a pobreza e a obesidade.

O destaque da magreza na sociedade ocidental é relativamente recente e curiosamente relaciona-se com o facto de as pessoas cada vez darem uma maior relevância ao exercício físico e à comida com valor nutricional alto. Isto deve-se a uma maior educação da população, mas também às maiores possibilidades destas populações.

Em contraste, os mais pobres têm uma maior dificuldade em comprar comida considerada saudável, para além de terem menos oportunidades de se exercitar nas mesmas condições que os mais ricos.

Não há bela sem senão…

“Mas afinal, as pessoas procurarem comer melhor e fazer exercício não é o que os profissionais de saúde pretendem? Mesmo por não o fazerem por questões de saúde?” A resposta a esta questão seria obviamente “sim”.

Porém, o principal problema com a “febre das dietas” ou a “mania dos ginásios” é que muitas pessoas, com o stress e o desespero psicológico de escapar ao estigma de “ser obeso”, procuram respostas rápidas, muitas vezes deletérias para a saúde.

Estas recorrem a “atalhos para emagrecer” sem pensar duas vezes nas consequências do mesmo para a saúde, se isso significar uma perda rápida de peso sem o investimento de tempo e esforço correspondente.

esteroides-1Os suplementos e substâncias não autorizadas circulam em vários meios, incluindo ginásios, e os utilizadores, não se apercebendo dos perigos (ou porque não foram informados dos mesmos ou porque não os consideram relevantes), consomem-nos. Um exemplo são os tão famosos esteróides, que para além de inúmeros efeitos colaterais em vários órgãos, estão também associados a certos tipos de cancros. Outro exemplo é o reemergente DNP (2,4-dinitrofenol), uma substância que era usada há 50 anos para o emagrecimento (especialmente por atletas de alta competição) e que foi retirada por estar associada a efeitos secundários graves, como a hipertermia maligna.

Para além destes, existe um populoso mercado legal de produtos de emagrecimento, cujos anúncios, em vários casos, aliciam falsamente para a magnitude real de possíveis resultados.

O núcleo desta questão reside no facto de haver atualmente – e em crescente – uma preocupação real com a saúde, que por vezes é encaminhada por influências externas para caminhos pouco saudáveis que desviam do objetivo primário.

Neste contexto, seria fulcral a educação para o que significa o peso saudável e as vantagens de um estilo de vida que o mantenha em detrimento da ideia de peso ideal, que na cabeça de muitos significa um número continuamente decrescente.

Peso saudável – afinal o que é?

O peso saudável é, por definição, algo individual que se adequa a cada um. Peso saudável não é obrigatoriamente sinónimo de abdómenes planos, com o popular “six pack”, aproximando-se mais de um equilíbrio entre a gordura corporal e os efeitos deletérios provocados pela mesma.

Apesar da importância objetiva do cálculo do IMC, uma categorização do problema não é suficiente para o resolver. Para além disso, também ocorre que indivíduos com o IMC dentro do considerado normal apresentam, por vezes, um teor de gordura visceral (o tipo de gordura mais “perigoso”, em termos de saúde) acima do que seria recomendado.

D5aí a importância de campanhas de sensibilização para um estilo de vida saudável, que nem sempre significa o mesmo para todos e que deve ser adaptado a cada um. Uma atividade física regular e uma dieta equilibrada são sempre possíveis, pelo que uma abordagem pessoal muitas vezes é importante para a motivação para o cumprimento da mesma. Uma das maiores verdades desta “luta pela saúde” é a que “não há mudança na saúde se não houver mudança no comportamento” – daí a importância de uma motivação para a saúde vinda da própria pessoa.

Em conclusão, não querendo entrar numa discussão filosófica, o peso nos dias de hoje não é um assunto tabu, mas a sua menção ainda é muito sensível. Ao passo que a tendência ocidental de “liberdade de expressão e do ser” conduziu a uma alteração dos comportamentos num sentido de contrariar a discriminação aberta e promover a sua aceitação, certos temas como o peso ainda passam por entre o “filtro” da cortesia social.

Deixando de lado a subtileza e passando diretamente ao cerne da questão, a mensagem a passar deveria ser a não discriminação do indivíduo com excesso de peso (estudos indicam que o “fat shaming” leva ao agravamento da situação e nunca à solução) mas também o não encorajamento da manutenção desse peso.