Os novos limites do Corpo Humano

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Ao mesmo tempo que o Homem foi à lua, inventou a internet e desenvolveu a medicina moderna (bis!), milhões de homens diariamente e por este mundo fora provam que a estupidez humana aparentemente não tem limites. Afinal, estaremos nós a ficar mais inteligentes com o passar das eras, ou num trajecto descente inexorável até à decadência intelectual? 

Génios há muitos!

Hollywood, na sua mágica capacidade de estabelecer retratos fieis, deu-nos exemplos suficientes para percebermos o que é um génio – de preferência deverá ter uma personalidade extravagante, hábitos obtusos e uma qualquer doença mais ou menos rara para a caracterização ficar completa. Se escrever nos vidros das janelas em vez de o fazer em folhas de papel e tiver amigos imaginários, então o epíteto está certamente bem atribuído (sim, John Nash/Russel Crow, estamos a falar de ti!).

A Brilliant Mind (2001) e Good Will Hunting (1998). Hollywood ensinou-nos que génio que é génio não utiliza folhas de papel

Indivíduos inteligentes são como chapéus: há muitos. Mas verdadeiros génios… quantos é que cada um de nós conhecerá? A MENSA é uma associação internacional que chama a si a responsabilidade de catalogar o número de génios – ou seja, pessoas com um QI superior a 132. Segundo esta, o seu número não para de crescer. Desde crianças que resolvem problemas de cálculo com a perícia de matemáticos treinados até ao actor Nolan Gould (o aluado Luke Dunphy de Modern Family), muitos são aqueles que se têm vindo a tonar membros desta associação de prodígios.

Será isto um génio?

Quererá isto dizer que a inteligência global da humanidade está a aumentar progressivamente? Todos os dias, testemunhamos exemplos  que nos parecem indicar o contrário –  e não nos cansamos de ouvir as gerações mais velhas mal-dizendo a falta de inteligência das mais novas (nem uma conta de dividir sabem fazer! Na minha altura, sabíamos todos os rios todos de Portugal de cor… mas agora, esta juventude…). Contudo, o ritmo de inovações técnico-científicas é simplesmente avassalador – se a humanidade está a descobrir novas coisas de forma mais rápida, significará que está mais inteligente?

O efeito de Flynn diz-nos que ocorreu uma progressiva melhoria o nos resultados dos testes de QI ao longo dos últimos 100 anos

Esta é uma questão polémica no mundo científico. Existem dados que parecem favorecer esta afirmação, sendo o mais notável o efeito de Flynn, o qual nos diz que ocorreu uma progressiva melhoria nos resultados dos testes de QI ao longo dos últimos 100 anos, com uma tendência para uma normalização “por cima” dos mesmos resultados. Durante todo o século XX, diversos cientistas chamaram à atenção para este facto, mas foi James Flynn, já nos anos 90, que acabou por receber os louros desta descoberta, ao ver o seu nome a ela associado. Desta lei podemos deduzir a seguinte imagem:

Caso os habitantes de Londres do virar do século realizassem um teste de QI actual, a sua maioria não conseguiria alcançar uma pontuação superior a 80, ou sejas seriam considerados, no mínimo, pessoas muito pouco inteligentes.

Porém, a Lei de Flynn não sobreviveu até hoje sem ter sido alvo de grande criticismo: os seus delatores defendem que a humanidade não está mais inteligente, os testes de QI é que são efectivamente mais fáceis para o Homem de hoje em relação ao do primeiro cartel do século vinte. O próprio James R. Flynn, no seu livro Are We Getting Smarter?, exemplifica brilhantemente este efeito, comparando-o com a evolução da pontaria de atiradores desde 1865:

O teste é sempre o mesmo, ou seja, quantas balas consegues acertar num alvo a 100 metros de distância, num minuto. Registos de 1865 (Guerra Civil Americana) indicam que a melhor pontuação foi 5 balas no alvo, registos de 1898 (Guerra Hispano-Americana) apontam para 10 balas e registos de 1918 (1ª Guerra Mundial) para 50. […] Sim, é verdade que o teste não sofreu alterações mas sabemos que se tem tornado mais fácil. Os campos de batalha de 1865 revelam a presença de espingardas primitivas, os de 1898 espingardas de repetição, e os de 1918 metralhadoras. […] Agora sabemos porque é que, com o tempo, se tornava mais fácil de acertar com balas no alvo e podemos afirmar que este parâmetro não evidencia, certamente, qualquer melhoria na qualidade dos atiradores.

A conclusão é de que a arma utilizada neste exercício é que determinava o resultado, não a experiência ou habilidade do atirador; se este utilizasse um arco e flechas ou uma funda, o resultado seria certamente o mais desastroso. Estes dados não deixaram, no entanto, de intrigar Flynn. A pergunta que se seguiu foi: afinal, que novo armamento, à semelhança da metralhadora, tem a nossa mente para conseguir bater mais facilmente os testes de QI?[pullquote]O foco da nossa mente evolui no sentido da resolução de problemas concretos e literais para outros mais abstractos e hipotéticos[/pullquote]  A teoria deste investigador é a de que, nas últimas décadas, o foco da nossa mente evolui no sentido da resolução de problemas concretos e literais para outros mais abstractos e hipotéticos.Esta mudança adveio da necessidade de resolver o segundo grupo de problemas, ao contrário do que se sucederia em sociedades menos desenvolvidas, numa base do dia-a-dia; à semelhança de um grupo de músculos que hipertrofia em resultado de determinado exercício, também partes específicas do cérebro ter-se-ão desenvolvido em cada um de nós por influência das exigências da vida moderna.

Uma questão de genes!

Afinal o Homem pré-histórico é mais inteligente que o Homem moderno?

Momento para reflectir: tudo o que foi escrito até agora não nos indica precisamente que nos estamos a tornar mais inteligentes? Na realidade, não exactamente, porque do ponto de vista biológico não ocorreram qualquer tipo de alterações – ou seja, a nossa capacidade para resolver problemas mais complexos advém da influência do meio, não existindo hoje um maior potencial cognitivo à nascença do que na época da Revolução Industrial. Efectivamente, ao contrário do que seria de esperar, estudos indicam que o potencial genético cognitivo da humanidade se encontra actualmente em decadência.

Estudos indicam que o potencial genético cognitivo da humanidade se encontra actualmente em decadência.

Recentemente, Gerald Crabtree, da Universidade de Stanford, publicou dois papers nos quais defendeu que a inteligência humana teve um pico entre 2.000 a 6.000 anos atrás (lá se vai o orgulho de sermos os mais espertos de sempre…). Este investigador defende que ocorreram ao longo da História pelo menos duas mutações danosas em genes determinadores da inteligência. Adicionalmente, defende que a inteligência já não é, do ponto de vista evolutivo, uma vantagem para os seres humanos: se na pré-história o Homem teria que ser inteligente para não ser comido por leões, hoje é-lo de forma a tirar um 18 no exame de Anatomia, desenvolver um novo telemóvel ou ganhar um Prémio Nobel – coisas importantes, sem dúvida, mas que no jogo da evolução contam muito pouco. Se nos lembrarmos ainda que as pessoas mais inteligentes têm tendência para ter menos filhos, a lenta agonia da inteligência humana torna-se um facto bastante mais provável.

Como em muitas outras questões, nesta história da evolução da inteligência, as dúvidas não ficam interiamente esclarecidas. Mas uma coisa é certa: caso estejamos, como um todo, a ficarmos mais burros ou mais espertos, o melhor é não nos deixarmos animar por estes dados estatísticos – a genialidade pode estar apenas à distância de poucos mas a inteligência à mão de quase todos: mais vale potencia-la  enquanto se é jovem!

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O Luís Afonso nasceu em Coimbra, mas sempre sonhou ser de Mortágua. É estudante do 6º ano de Medicina, mas gostava era de ter um bar de praia em Copacabana e um canudo de Línguas Orientais na algibeira. Se o virem num concerto de Coldplay com ar aluado, provavelmente enganou-se no caminho ao sair de casa para comprar bolachas com chocolate, situação que, aliás, lhe acontece frequentemente. Quase ganhou o torneio de Trivial Pursuit da Queima das Fitas, só que errou a pergunta «Quantos dias sobrevivem os Glóbulos Vermelhos?». A partir daí a sua vida foi sempre a descer.

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