Lisboa – Sete colinas, sete roteiros III

Explorando a Colina de São Vicente e voltando ao Castelo

Esta confluência de S. Pedro e do Chafariz de Dentro é rica de expressão bairrista, no quadro dos costumes, no formigueiro de gentes, no encanto dos pregões ~ um coral popular envolvido de caprichoso cenário“.

Norberto de Araújo – Peregrinações em Lisboa l.10 p.70

Assim nos narra um conjunto de cerâmicas em Alfama. Mas isto é mais para o fim da nossa viagem…

(Continuação)

Chego ao Convento São Vicente de fora, cujas vizinhanças estão super-povoadas por turistas e veículos aí estacionados. O grande monumento que, desde 1173, guarda os restos mortais do padroeiro de Lisboa, São Vicente de Saragoça. À direita é possível encontrar um pequeno jardim que dá acesso ao museu. À esquerda passo sob o Arco Grande de Cima. Nesta rua muitos comerciantes vendem os mais diversos objectos, uns com utilidades mais óbvias, outros que eventualmente carecem de qualquer.

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Arco grande do Convento São Vicente de Fora;

Atravesso o arco e observo um grande agregado de comerciantes e clientes de todos os cantos do mundo, regateando os seus produtos e falando diversas línguas tanto ocidentais como orientais. Não, não estou numa versão outdoor da cantina de Mos Eisley da Saga Star Wars, estamos a falar da Feira da Ladra. Esta feira que actualmente decorre às terças e Sábados, surgiu na já referida Chão da Feira (Castelo) e posteriormente passou por outros lugares (inclusive o Campo Mártires da Pátria) até se instalar de forma definitiva em 1882 no Campo de Santa Clara.

O Campo de Santa Clara foi um arrabalde extra-muralhas mouro que viria a ser ocupado por tropas cruzadas germanas e flamengas em 1147 durante a reconquista. Posteriormente foi transformado no Convento de Santa Clara, o qual foi totalmente destruído no terramoto de 1755. Neste campo encontro o Mercado de Santa Clara, uma estrutura de ferro rodeada por feirantes.

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Mercado de Santa Clara, estrutura de ferro

Passando através das antiguidades, roupas e bugigandas encontro uma loja que me rouba toda a atenção: numa pequena loja alfarrabista com aspecto de sala de leitura encontro um cliente a regatear um conjunto de fotografias antigas. Olhando para os diversos livros, reconheço imediatamente as obras de Stendhal e de Edgar Allan Poe. No interior da loja encontro um conjunto revistas coroação Rainha Elisabete (em francês e inglês). O proprietário da loja, o Sr. Barata, de forma muito simpática permite que tire uma fotografia da loja e diz imediatamente “Cá na ladra este é o único alfarrabista tão completo como os do Chiado”.

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Loja do Sr. Barata, uma pequena e calma “livraria” no coração da Ladra;

Entro no Jardim de Santa Clara-um local muito agradável e muito mais sossegado que o restante campo. Cá vejo um ambiente muito activo, numa espécie de versão mini da Quinta das Conchas no Lumiar. Observo crianças a brincar num jardim infantil, uma rapariga que ata com dedicação uma corda de TRX de forma a andar sobre esta e treinar o seu equilíbrio, um grupo de amigos a praticar jogging, um homem que passeia os seus cães e várias bicicletas paradas perto do bar cuja esplanada estava cheia. Desde o parque tenho vista para a ponte Vasco da Gama e zona industrial do Barreiro.

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Jardim de Santa Clara

Volto à feira e logo após fotografar o Hospital militar oiço “Boa tarde, jovem!”. Era um comerciante simpático mas pouco sóbrio que tentava vender-me, sem sucesso, um CD de impressora (sem a impressora!!) e filmes a €1 que nem ele conhecia.

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Hospital da Marinha. Foto que me valeu a anedótica venda de CDs

Dirijo-me até ao Panteão Nacional/ Igreja de Santa Engrácia, símbolo da arte Barroca com uma história muito particular. A sua construção demorou perto de 500 anos, originando a expressão “Obras de Santa Engrácia”. Apesar da sua decoração religiosa esta viria a ser usada como “templo secular” para os grandes nomes da pátria desde 1916, na altura da 1ª República. Aqui podemos encontrar as sepulturas da fadista Amália Rodrigues, do escritor Almeida Garret e do primeiro presidente de Portugal, Manuel de Arriaga, entre outros.

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Igreja de Santa Engrácia/ Panteão Nacional visto desde a feira da Ladra

Desço a Calçada Cascão na qual dominam os tons de amarelo e castanho como é visível no início da rua com um belo edifício de três andares com cerâmicas amarelas.

No cruzamento sigo pela Rua dos Remédios, logo no início reparo num semáforo de circulação para residentes com um taxista à espera e várias motos paradas à entrada.

Regressando ao Castelo

Desta forma entro na parte sudeste de Alfama, afasto-me da Colina de São Vicente e volto à Colina do Castelo.

Esta rua relativamente estreita com prédios relativamente altos encerra uma beleza e uma mística muito própria. Sempre que olho para os lados reparo nos becos que vão dar a outros becos com prédios que parecem montados uns em cima dos outros e que me recordaram  das  “casas de árvore” que aparecem em muitos filmes e séries.

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Um dos tantos pitorescos becos da Rua dos Remédios

Nesta rua, no nº84, podemos encontrar a sede da “Lisbon Walker” ou “Lisboa a pé”, uma companhia que se dedica a organizar excursões guiadas temáticas pelos mais diversos recantos. (Para mais informação http://www.lisbonwalker.com/)

Após cruzar esta rua cheia de mercearias chego a uma rua muito mais ampla, a Rua Jardim do Tabaco, e cruzo à direita. À minha esquerda encontro um grande prédio Rosa que corresponde ao Museu do Fado, e encostado a este o café do Museu. Neste local existiu outrora a Estação Elevatória da Praia, construída em 1868 pela Companhia da Empresa das Águas de Lisboa para drenar as águas subterrâneas de Alfama que se perdiam para o Tejo.

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Museu do Fado, antiga Estação Elevatória da Praia

À direita encontra-se uma praça com vários restaurantes e esplanadas mas o que me chama a atenção é uma pequena casa branca de três andares com uma placa de azulejos feita pela câmara que propõe três percursos diferentes e apresenta a seguinte citação: “Esta confluência de S. Pedro e do Chafariz de Dentro é rica de expressão bairrista, no quadro dos costumes, no formigueiro de gentes, no encanto dos pregões ~ um coral popular envolvido de caprichoso cenário“. Norberto de Araújo – Peregrinações em Lisboa l.10 p.70

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Largo na Rua Jardim do Tabaco

Chegando à Rua Cais de Santarém à minha direita observo um grande chafariz branco de decoração austera. Olho mais para cima e o contraste é óbvio com a abundante decoração de um palácio neo-mourisco: trata-se respectivamente do Chafariz d’El Rei e do Palacete Chafariz d’El Rei. Relativamente ao chafariz, há referências a este desde o período árabe mas é no reinado de D. Dinis que surge a designação. No séc. XVI, quando servia a navios da Carreira da Índia, era a principal fonte de água potável, encostado à muralha da cidade com bicas em forma de cabeças de animais. O palacete data de início do século XX, funcionando actualmente como hotel.

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Chafariz d’El Rei e Palacete Chafariz d’El Rei

Subo as escadas do Arco de Jesus e encontro um pequeno local sossegado com grande vida nocturna. Vejo um clube de jazz e mesmo em frente um outro de fado. Imagino como se fundem os sons dos contra-baixos e cavaquinhos sob a luz do luar e as conversas de café. Por cima deste arco se encontram os palácios de Francisco de Távora (cujo brasão foi apagado por ordem do Marquês de Pombal) e do Conde de Cuculim.

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Arco de Jesus, local de grande actividade musical desde o Fado ao Jazz

Chego desta forma à dinâmica Rua de São João da Praça na qual podemos encontrar diversos bares e clubes de fado.

Mais à frente, nesta rua, observo à minha direita uma das grandes torres que restam das muralhas de Lisboa. À esquerda, no nº95, vejo um pequeno café de ambiente agradável com arcos interiores, altas mesas de madeira, cadeiras com almofadas e diversos livros nas laterais. Trata-se do “Pois, café” onde bebo um capuccino enquanto recapitulo todo o que fiz durante a minha viagem. Saio passados 15min, continuo pelo mesmo caminho e no mesmo sentido.

Caminho pela Rua Cruzes da Sé, observo à minha direita a Sé de Lisboa, edifício de traços românticos edificado na altura da reconquista sobre uma antiga mesquita que provavelmente terá sido construída sobre um antigo templo pagão Romano. Sigo até o amplo Largo da Sé, “habitado” pelo eléctrico 28 que passeia constantemente sobre as suas linhas. Aqui se observam as traseiras da Igreja de Santo António, uma pequena praça na qual se destaca a discreta estátua do actor Augusto Rosa, e a fachada principal da Sé. Dentro desta é de destacar o deslumbrante tesouro e o seu claustro gótico onde se aprecia a história da cidade por camadas, desde a ocupação Fenícia.

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Rua Cruzes da Sé

Desta vez subo pelo flanco norte da Sé pela Rua Augusto Rosa. Sigo as linhas do eléctrico, numa passadeira olho para a esquerda e reparo num discreto prédio avermelhado com umas escadas ao lado. Trata-se de um Centro de Reinserção Social, um fim feliz para um edifício cuja história não é tão alegre. Neste funcionaram diversos estabelecimentos prisionais desde 1526 até 1965, onde eram discutidos crimes tanto do foro religioso como político, nos quais se aplicavam práticas que violavam abertamente os direitos humanos.

“Falta-lhe a liberdade. Só essa dor lhe dói. Mas só por ela há-de Não ser o ser que foi” disse o dramaturgo Miguel Torga, no seu poema “Canção” de 1939 escrito na Prisão do Aljube.

A placa discreta celebra o 25 de Abril e serve de memória para todos os prisioneiros políticos desta prisão.

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Antiga prisão do Aljube

Subo as escadas e à minha direita tenho a entrada do Museu do Teatro Romano: este tem três andares visitáveis. No rés-do-chão vejo restos de pilares e estátuas, uns reais outras réplicas. Através das várias janelas a Sul observo as traseiras da Sé e o rio.

Subo por umas escadas até ao Piso 1, onde encontro vários sofás confortáveis a partir dos quais posso apreciar com tranquilidade a vista do Tejo, na parede a Norte é possível observar parte das escavação e ainda a exposição temporária “Ruin’Arte”, com fotografias de Gastão de Brito e Sousa, que comparam as ruínas do teatro romano com algumas “ruínas contemporâneas” nesta cidade.

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Vista sobre a Sé e o Tejo desde o Museu do Teatro Romano

Subo novamente em conjunto de pequenas escadas que me fizeram lembrar a cena do filme “Vertigo” de Hitchcock na qual “Scottie” (James Stuart) sobe as escadas da “Misión de San Juan Baptista” na Califórnia.

No 2º andar encontro a Sul o ubíquo Tejo que serve de “fundo” para muitas fotografias dos turistas. Atravesso a ponte de metal que se sobrepõe às ruínas, imagino que sou um ajudante de um teatro pseudo-actual pseudo-romano levantando sacos de areia para mexer as peças no palco, chego desta forma à Rua de São Mamede, a qual tinha percorrido no início do meu percurso. Atravesso-a para entrar num segundo edifício mesmo na porta em frente onde se continuam as ruínas romanas. Neste ambiente à Indiana Jones até um visitante tem um chapéu à Harrison Ford.

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Rua de São Mamede “separando” as duas porções do Teatro do Museu Romano

Descendo novamente as escadas volto ao Largo da Sé, chego ao Largo Santo António da Sé onde encontro a Igreja de Santo António com o seu respectivo museu o qual exibe as mais diversas formas de manifestação artística popular tendo como tema central o respectivo santo.

Continuando pela Rua Santo António da Sé um turista italiano chama o seu filho “Francesco, vieni qui!” mas o rapaz estava muito entusiasmado por descobrir a cidade. Assim, pai e filho romperam a correr, lado a lado o E28, sob a luz que se punha na cidade.

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Rua Augusto Rosa com “o seu” 12E

(Esta crónica continua numa próxima publicação)

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Santiago Rodrigues Manica ingressou em 2009 na FCM- NOVA onde estuda o 5º ano de Medicina. É luso-descendente natural da Venezuela e fez grande parte da sua formação no Funchal, Madeira. Este habitante do Mundo, apesar de ter escolhido a carreira médica desde muito cedo tem um interesse amador por múltiplas áreas do conhecimento como; filosofia, história universal, línguas e ciências. Os seus grandes hobbies são a leitura e a música sem esquecer os habituais passeios à margem do Tejo.

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